Cheias no Sul de Moçambique Criam Pressão Humanitária e Exposição Económica

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Governo enfrenta um défice de 6,6 mil milhões de meticais para assistência humanitária, num contexto de interrupção da N1, destruição de activos produtivos e crescente pressão sobre as finanças públicas.

Questões-Chave:
  • Défice de financiamento humanitário ascende a 6,6 mil milhões de meticais, face a necessidades estimadas em 14 mil milhões;
  • Mais de 645 mil pessoas afectadas desde o início da época chuvosa 2025/2026;
  • Estrada Nacional Nº 1 (N1) totalmente cortada entre Manhiça e 3 de Fevereiro, com mais de 10 km submersos;
  • 36 centros de acomodação activos na província de Gaza, acolhendo 327 mil deslocados;
  • Risco elevado de colapso da ponte sobre o rio Chulavecane;
  • Impactos directos nas cadeias de abastecimento, logística e produção agrícola no Sul do país.

O Governo de Moçambique enfrenta um défice financeiro de 6,6 mil milhões de meticais para responder à actual crise de cheias e inundações que afecta severamente o Sul do país, num cenário que combina emergência humanitária, interrupção de infra-estruturas estratégicas e impactos económicos relevantes. A informação foi confirmada pelo porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, que classificou a situação como crítica devido à magnitude dos danos humanos, materiais e infra-estruturais.

Segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), pelo menos 515.130 pessoas, correspondentes a cerca de 97.340 famílias, foram directamente afectadas pelas inundações. Quando considerados os impactos acumulados da época chuvosa 2025/2026, o número de pessoas atingidas sobe para 645.781. O balanço oficial regista 112 mortes, 99 feridos, três desaparecidos, além de milhares de habitações danificadas ou destruídas.

No total, foram contabilizadas 2.700 casas parcialmente destruídas, 728 totalmente destruídas e mais de 62 mil casas inundadas, evidenciando uma pressão significativa sobre os meios de subsistência das famílias e sobre a capacidade de resposta do Estado.

Infra-estruturas críticas sob stress e impacto económico imediato

Um dos elementos mais críticos da actual crise reside na interrupção da Estrada Nacional Nº 1 (N1), principal eixo rodoviário do país. O transbordo do rio Incomáti levou ao corte total da via entre Manhiça e a localidade de 3 de Fevereiro, com mais de 10 quilómetros completamente submersos. A Administração Nacional de Estradas confirmou ainda cortes adicionais entre Incoluane e 3 de Fevereiro, alertando para riscos estruturais crescentes.

A submersão da portagem da Macaneta e de vários troços em Marracuene interrompeu igualmente o acesso a zonas como Hobjana e Machubo, agravando o isolamento de comunidades e dificultando a circulação de mercadorias e pessoas.

Do ponto de vista económico, a interrupção prolongada da N1 tem efeitos directos sobre a logística nacional, o abastecimento de produtos frescos à cidade de Maputo, o escoamento da produção agrícola nas bacias do Limpopo e do Incomáti, bem como sobre os custos de transporte e o risco de escassez pontual de bens essenciais em mercados locais.

Gaza no epicentro da emergência humanitária

A província de Gaza apresenta um dos quadros mais severos. A governadora Margarida Mapandzene confirmou a abertura de 36 centros de acomodação, que acolhem actualmente 327 mil pessoas, com destaque para Chihaquelane, onde se encontram mais de 25 mil deslocados. A subida do rio Limpopo já inundou bairros baixos da cidade de Xai-Xai, obrigando à evacuação imediata de populações.

As descargas das barragens de Massingir, estimadas em 6.500 m³ por segundo, e de Macarretane, estão a intensificar o risco hidrológico nos distritos de Chibuto, Chókwè, Mabalane e Guijá, com impactos crescentes sobre áreas agrícolas e infra-estruturas locais.

Risco estrutural e pressão sobre as finanças públicas

Na província de Maputo, o administrador da Manhiça, Matias Parruque, alertou para a erosão acelerada da EN1 devido ao galgamento do Incomáti, com risco concreto de colapso da ponte sobre o rio Chulavecane, um ponto sensível da circulação rodoviária nacional.

Apesar da activação de nove helicópteros, embarcações e outros meios de salvamento, o Governo reconhece que os recursos disponíveis são insuficientes face à dimensão da crise, num contexto em que a resposta humanitária concorre directamente com outras prioridades orçamentais.

A conjugação entre vulnerabilidade climática, infra-estruturas frágeis e limitações financeiras coloca Moçambique perante um desafio humanitário e económico de grande magnitude. Com um défice de financiamento ainda significativo e riscos que permanecem elevados, a resposta do Estado dependerá não apenas da mobilização interna, mas também da solidariedade regional e internacional.

A fase crítica da crise ainda não terminou e as próximas semanas serão determinantes para evitar perdas humanas adicionais e mitigar impactos duradouros sobre a economia nacional, particularmente no Sul do país.