Gás Natural Assume Papel Estratégico na Transição Energética Africana, Reitera Relatório da IGU

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Relatório “Gas 4 Africa”, da International Gas Union, destaca o gás natural como vector crítico para segurança energética, industrialização e redução da pobreza energética no continente.

Questões-Chave:
  • África detém cerca de 9% das reservas provadas globais de gás natural, mas consome menos de 4% da produção mundial;
  • O gás é apontado como combustível de transição essencial para substituir biomassa e carvão na geração eléctrica;
  • Mais de 600 milhões de africanos continuam sem acesso à electricidade;
  • O continente acolhe alguns dos projectos de LNG mais relevantes do mundo, com destaque para Moçambique;
  • O principal entrave reside no financiamento, infra-estruturas e desenvolvimento de mercados domésticos.

O gás natural deverá desempenhar um papel estratégico e insubstituível na transição energética africana, conciliando objectivos de segurança energética, crescimento económico e inclusão social, conclui o relatório Gas 4 Africa, publicado em Janeiro de 2026 pela International Gas Union (IGU).

De acordo com o documento, África concentra cerca de 9% das reservas provadas globais de gás natural, mas permanece largamente sub-consumidora, utilizando menos de 4% da produção mundial. Este desfasamento revela não apenas uma ineficiência estrutural, mas também uma oportunidade perdida num continente onde as carências energéticas continuam a limitar o desenvolvimento económico e social.

A IGU sublinha que mais de 600 milhões de africanos continuam sem acesso à electricidade, enquanto uma parte significativa da população depende ainda da biomassa tradicional para cozinhar, com impactos severos ao nível da saúde pública, da degradação ambiental e da produtividade económica. Neste contexto, o gás natural surge como a opção mais realista e escalável no curto e médio prazo, permitindo expandir rapidamente a capacidade de geração eléctrica, reduzir emissões face ao carvão e ao diesel e sustentar a industrialização.

Moçambique no centro da nova geografia do gás

O relatório identifica Moçambique como um dos pilares estruturantes da nova geografia global do gás, em virtude das vastas reservas da Bacia do Rovuma, consideradas entre as maiores descobertas mundiais das últimas décadas. Projectos como o Coral Sul FLNG, já em operação, e os desenvolvimentos previstos para projectos de LNG onshore colocam o país numa posição estratégica enquanto fornecedor para mercados europeus e asiáticos, num contexto de reconfiguração dos fluxos energéticos globais.

Ainda assim, a IGU alerta que o impacto económico do gás em Moçambique dependerá menos da exportação e mais da capacidade de criar mercados domésticos robustos, capazes de absorver o recurso na geração eléctrica, na produção de fertilizantes, na indústria transformadora e, progressivamente, no sector dos transportes. A existência de políticas eficazes de conteúdo local é apontada como determinante para maximizar os benefícios económicos internos.

Infra-estruturas e financiamento como gargalos estruturais

Apesar do elevado potencial, o relatório reconhece que África enfrenta um défice crítico de infra-estruturas de gás, desde gasodutos de transporte e distribuição até centrais eléctricas, unidades de armazenamento e terminais de regaseificação. A ausência destas infra-estruturas limita a criação de mercados internos e perpetua a dependência de combustíveis mais caros e poluentes.

A IGU estima que o continente necessitará de centenas de milhares de milhões de dólares em investimento até 2040 para materializar o potencial do gás natural. Contudo, a incerteza regulatória, os riscos políticos e as crescentes restrições ao financiamento internacional de projectos fósseis continuam a travar decisões finais de investimento, sobretudo em economias emergentes.

Uma transição energética realista e justa

O relatório defende uma abordagem de transição energética justa, gradual e adaptada à realidade africana, alertando que modelos importados de economias avançadas não são directamente replicáveis num continente com défices estruturais profundos em acesso à energia.

Para a IGU, o gás natural não deve ser encarado como um entrave à transição energética africana, mas como um facilitador do desenvolvimento económico e da descarbonização progressiva, funcionando como ponte entre a situação actual e um futuro energético mais limpo e diversificado.

A mensagem central é inequívoca: sem energia fiável, acessível e escalável, África não conseguirá industrializar-se, criar emprego em larga escala nem reduzir de forma sustentável a pobreza. Neste quadro, o gás natural assume-se não como uma solução transitória marginal, mas como um pilar estruturante do desenvolvimento africano nas próximas décadas.

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