Economia do Terceiro Sector Cresce, Mas Falta Supervisão e Transparência nas Finanças das ONGs

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O Relatório de Avaliação Sectorial 2025 classifica as Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFL) como de risco moderado, mas sensível, devido à falta de mecanismos de verificação financeira, deficiências de reporte e vulnerabilidades associadas ao financiamento internacional e às zonas de conflito.

Questões-Chave:
  • O subsector das Organizações Sem Fins Lucrativos é classificado como de risco moderado, com vulnerabilidades específicas no financiamento transfronteiriço;
  • Persistem lacunas na governação financeira, no controlo de beneficiários finais e na prestação de contas públicas;
  • A maioria das entidades depende fortemente de doadores internacionais, sem mecanismos padronizados de rastreabilidade dos fundos;
  • O relatório recomenda reforço da supervisão, integração de dados com a UIF e adoção de normas de transparência financeira e contabilidade social;
  • A economia do terceiro sector é reconhecida como motor de inclusão social e criação de emprego, mas requer reformas institucionais para assegurar sustentabilidade e integridade.

As Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFL), que incluem ONGs, fundações, associações e instituições religiosas, constituem um pilar crescente da economia moçambicana. No entanto, o Relatório de Avaliação Sectorial 2025 alerta que o sector apresenta riscos financeiros moderados, mas sensíveis, ligados sobretudo à falta de rastreabilidade de fundos, à fraca supervisão e à dependência excessiva de fluxos internacionais.

O documento estima que a economia do terceiro sector — que abrange projectos humanitários, fundações filantrópicas, cooperativas sociais e instituições comunitárias — representa actualmente entre 2% e 3% do PIB nacional, movimentando centenas de milhões de meticais por ano.

No entanto, a diversidade de entidades e a falta de uniformização regulatória tornam o sector difícil de monitorizar.

“A ausência de registos centralizados, padrões contabilísticos uniformes e mecanismos de reporte electrónico limita a capacidade das autoridades para aferir a origem e o destino efectivo dos fundos”, lê-se no relatório.

Muitas organizações continuam a operar fora do sistema financeiro formal, movimentando numerário para pagamento de actividades locais ou projectos comunitários, o que aumenta o risco de desvio de fundos ou uso indevido por redes ilícitas.

O Relatório de Avaliação Sectorial 2025 sublinha ainda que, em zonas de conflito ou de maior fragilidade institucional — como Cabo Delgado, Niassa e Sofala —, a vulnerabilidade é amplificada.

“Em contextos de crise humanitária, as exigências de rapidez na execução de projectos frequentemente colidem com os requisitos de conformidade financeira, criando brechas involuntárias no controlo.”

A Importância Económica e Social do Sector:

Apesar das vulnerabilidades, o relatório reconhece que o terceiro sector desempenha um papel vital na geração de emprego, na prestação de serviços sociais e na promoção da inclusão económica.
Em Moçambique, estima-se que o sector empregue mais de 60 mil pessoas, entre técnicos, educadores, assistentes sociais e trabalhadores humanitários, e que seja responsável por uma parte relevante dos investimentos em educação, saúde, género, ambiente e desenvolvimento rural.

“A economia do terceiro sector é um vector essencial de inclusão e solidariedade, mas precisa de estrutura, transparência e sustentabilidade”, conclui o documento.

A expansão do sector também reflecte a confiança internacional na sociedade civil moçambicana, mas o relatório alerta para a necessidade de regras claras sobre financiamento externo, evitando o risco de infiltração de fundos ilícitos disfarçados de ajuda humanitária.

Avaliação de Risco e Recomendação

O relatório classifica o risco global das OSFL como Moderado (0,55 em escala de 0 a 1), com maior incidência no financiamento estrangeiro não monitorizado e na ausência de relatórios periódicos de auditoria independente.

As recomendações incluem:

  • Criação de um registo único nacional das organizações da sociedade civil, interoperável com a UIF e o Ministério da Justiça;
  • Obrigatoriedade de reportes electrónicos trimestrais de projectos e transacções;
  • Reforço da literacia financeira e formação de gestores do terceiro sector;
  • E adopção de normas de contabilidade social e relatórios de impacto económico.

“A transparência financeira é o ponto de equilíbrio entre a independência e a integridade do terceiro sector”, assinala o relatório. “Sem ela, a confiança dos doadores e das comunidades fica comprometida.”

Contexto e Tendência Global

A crescente interligação entre economia social, sustentabilidade e finanças éticas tem colocado o terceiro sector no centro das novas estratégias de desenvolvimento.
Em vários países africanos, os governos estão a promover mecanismos de certificação e accountability, que permitem às ONGs e fundações aceder a incentivos fiscais e parcerias público-privadas.

Moçambique começa a seguir esse caminho, com a revisão da Lei das Associações e o fortalecimento do diálogo entre o Governo, doadores e sociedade civil, embora os mecanismos de controlo ainda estejam em fase inicial.

“O objectivo é garantir que a economia solidária e o capital social sejam compatíveis com as exigências da integridade financeira e da transparência internacional”, conclui o relatório.

O Relatório de Avaliação Sectorial 2025 apresenta um retrato duplo da economia do terceiro sector:
por um lado, motor de inclusão, solidariedade e inovação social; por outro, área de vulnerabilidade e risco moderado devido à dispersão regulatória e à fraca rastreabilidade de fundos.

O caminho futuro passa pela profissionalização, digitalização e supervisão inteligente do sector, assegurando que as organizações sem fins lucrativos continuem a desempenhar o seu papel transformador — sem comprometer a integridade do sistema financeiro.

“A economia solidária precisa de transparência para ser sustentável, e de supervisão para continuar credível.”

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