
Fórum Global Do Turismo Em 2027 Abre Nova Montra Para Investimento Em Moçambique
- Anúncio feito pelo Presidente da República, em Luanda, coloca Moçambique no centro da agenda turística internacional. O verdadeiro retorno dependerá, porém, da capacidade de converter visibilidade em projectos financiáveis, melhor conectividade e maior valor económico para os territórios.
Questões-Chave
- Moçambique deverá acolher, em 2027, a próxima edição do Fórum Global do Turismo, estando ainda por definir a data concreta do evento.
- A cimeira de Luanda, realizada entre 17 e 19 de Junho, foi concebida como plataforma de mobilização de capital e promoção de parcerias público-privadas.
- O turismo continua aquém do seu potencial económico: em 2024, a contribuição directa do sector representou 3,61% do PIB, segundo dados preliminares do INE.
- A criação da ANDITUR, os avanços na facilitação de vistos e a melhoria da conectividade deverão ser determinantes para transformar o fórum numa oportunidade de investimento efectivo.
- A preparação para 2027 deverá privilegiar uma carteira concreta de projectos, com activos, infra-estruturas, licenciamento e modelos de negócio claramente estruturados.
Moçambique vai acolher, em 2027, a próxima edição do Fórum Global do Turismo, numa decisão anunciada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, no termo da sua participação na Cimeira de Investimento do Fórum Global do Turismo, realizada em Luanda, Angola.
O compromisso, alcançado na sequência de contactos com a ONU Turismo e com a organização do fórum, constitui um ganho relevante para a projecção externa do país como destino turístico e de investimento. Falta, ainda, a definição das datas concretas do encontro, mas o anúncio introduz desde já uma janela de preparação que pode ser decisiva para reposicionar o turismo como um dos motores da diversificação económica nacional.
Mais do que receber um evento internacional, Moçambique terá a oportunidade de apresentar uma proposta de valor mais estruturada perante investidores, operadores hoteleiros, fundos, companhias aéreas, promotores imobiliários e empresas de serviços turísticos. A questão central será assegurar que a visibilidade gerada pelo fórum seja convertida em investimento, emprego, receitas externas e desenvolvimento dos territórios com maior vocação turística.
Uma Plataforma Virada Para O Capital
A Cimeira de Investimento do Fórum Global do Turismo, realizada em Luanda entre 17 e 19 de Junho, foi organizada como uma plataforma orientada para a mobilização de capital, a promoção de parcerias público-privadas e o reforço da posição dos destinos africanos no mapa do investimento turístico.
É nesta dimensão que a realização da edição de 2027 em Moçambique assume maior significado. O país não acolherá apenas uma conferência sectorial, mas um espaço de contacto directo entre decisores públicos, grupos empresariais, operadores de hotelaria, instituições financeiras, entidades de promoção de destinos e potenciais parceiros de investimento.
Durante a participação em Luanda, Daniel Chapo apresentou as potencialidades turísticas nacionais, destacando os cerca de 2.700 quilómetros de costa, as ilhas, as áreas de conservação, os parques nacionais e o património histórico e cultural. Estes activos dão a Moçambique uma base competitiva diferenciada na África Austral e no Oceano Índico, mas continuam a exigir maior transformação em oferta turística estruturada, acessível e internacionalmente comercializável.
A realização do fórum cria, por isso, uma oportunidade para posicionar o país não apenas como destino de sol e praia, mas como plataforma integrada de turismo costeiro, marinho, de natureza, conservação, cultura, negócios e experiências comunitárias.
Recuperação Do Sector Ainda Não Traduz Todo O Potencial
A oportunidade surge num momento em que o turismo procura recuperar dinamismo, depois de anos marcados pelos efeitos da pandemia, pelas limitações de conectividade e pelos impactos da instabilidade política e social sobre a confiança dos visitantes e investidores.
Dados preliminares da Conta Satélite do Turismo de 2024, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, indicam que a contribuição directa do turismo para o Produto Interno Bruto situou-se em 3,61%, abaixo dos 4,02% registados em 2023. O indicador mostra que o sector mantém relevância na economia, mas também que continua distante do peso que poderia alcançar perante os activos naturais, culturais e geográficos disponíveis.
Ao mesmo tempo, o Governo informou que o fluxo turístico aumentou para cerca de 1,27 milhão de entradas em 2025, acima dos aproximadamente 1,09 milhão registados no ano anterior. A evolução sugere recuperação da procura, mas não elimina os desafios estruturais associados à qualidade da oferta, ao custo das viagens, à conectividade aérea, à disponibilidade de infra-estruturas e à previsibilidade do ambiente de investimento.
A principal leitura económica é que Moçambique dispõe de procura potencial e de activos turísticos relevantes, mas precisa de acelerar a conversão desses factores em estadas mais longas, maior gasto por visitante, novas unidades de alojamento, serviços especializados e cadeias de fornecimento locais.
ANDITUR E A Nova Arquitectura De Promoção
A realização do Fórum Global do Turismo em 2027 coincide com uma alteração importante na arquitectura institucional do sector. O Governo lançou, este mês, a Agência Nacional para o Desenvolvimento e Investimento Turístico, ANDITUR, em substituição do anterior INATUR.
A nova entidade surge com uma missão mais directamente associada à promoção do investimento, à gestão de activos turísticos do Estado, à estruturação de projectos e à dinamização de parcerias público-privadas. A mudança é relevante porque responde a uma limitação histórica do sector: a existência de activos turísticos com elevado potencial, mas sem preparação técnica, infra-estrutural, fundiária e financeira suficiente para atrair capital em escala.
O fórum de 2027 poderá funcionar como primeiro grande teste da capacidade da ANDITUR de apresentar uma carteira de oportunidades clara e credível. Para além da promoção institucional, os investidores deverão procurar informação concreta sobre localização, acesso, disponibilidade de energia e água, regime de terras, enquadramento ambiental, licenças, incentivos, previsões de procura e modelos de retorno.
A diferença entre uma oportunidade promocional e um projecto bancável será, neste contexto, determinante.
Vistos, Ligações Aéreas E Ambiente De Negócios
A facilitação de viagens e investimento deverá igualmente assumir lugar central na preparação do evento. Em Luanda, o Presidente da República referiu avanços na emissão electrónica de vistos e indicou que o Governo estuda novos mecanismos para atrair investidores, incluindo a possibilidade de introdução de um “Visa Gold”.
Estas medidas podem melhorar a competitividade do destino, mas o seu impacto dependerá da rapidez, previsibilidade e integração com outras reformas. Para o turismo, a redução de barreiras não se limita à emissão de vistos: envolve também ligações aéreas regulares, custos de transporte mais competitivos, facilitação de voos privados, qualidade dos aeroportos, segurança, mobilidade interna e padrões adequados de serviço.
A expansão das ligações aéreas entre Maputo e Luanda, discutida no encontro entre Daniel Chapo e o Presidente angolano, João Lourenço, insere-se nesta lógica. Uma maior conectividade regional pode apoiar tanto o turismo de lazer como o turismo de negócios, reforçando a circulação de investidores, operadores e visitantes entre os principais mercados da África Austral.
De Evento Internacional A Agenda Nacional De Investimento
O maior valor da realização do Fórum Global do Turismo não estará apenas nos dias em que o evento decorrer. Estará, sobretudo, no processo de preparação que Moçambique conseguir realizar até 2027.
O país poderá utilizar os próximos meses para identificar e estruturar projectos prioritários em zonas costeiras, ilhas, áreas de conservação, circuitos culturais, turismo comunitário, marinas, hotéis, lodges, infra-estruturas de acesso, aviação regional e serviços associados. Poderá também mobilizar províncias, municípios, comunidades, empresas locais e parceiros de desenvolvimento em torno de uma agenda comum de investimento turístico.
A ambição de diversificar a economia, reduzindo a dependência de sectores extractivos e dos hidrocarbonetos, exige precisamente actividades com maior capacidade de gerar emprego, encadeamentos internos e oportunidades para pequenas e médias empresas. O turismo pode desempenhar esse papel, desde que a expansão seja sustentada por planeamento territorial, conservação ambiental, inclusão comunitária e uma oferta empresarial competitiva.
A edição de 2027 do Fórum Global do Turismo representa, assim, uma oportunidade de posicionamento internacional. Mas poderá ser também um momento de prestação de contas sobre a capacidade de Moçambique transformar o seu vasto potencial turístico numa agenda concreta de investimento, crescimento e desenvolvimento inclusivo.
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