
Governo admite nova operadora para a Mozal após suspensão das operações
Executivo considera possibilidade de transferência da infra-estrutura industrial para outro investidor, caso a actual operadora não retome actividade. Suspensão da fundição ameaça milhares de empregos e afecta a dinâmica industrial do Parque de Beluluane.
- Governo admite possibilidade de transferência da infra-estrutura da Mozal para outro operador;
- Suspensão da fundição coloca em risco cerca de 4.000 empregos na cadeia de valor industrial;
- Pelo menos cinco empresas já encerraram actividades no Parque Industrial de Beluluane;
- Energia eléctrica cara foi o principal factor que levou à paralisação da unidade industrial.
A suspensão das operações da fundição de alumínio Mozal, uma das maiores infra-estruturas industriais de Moçambique, abriu espaço para um novo cenário na política industrial do país: a possibilidade de entrada de um novo operador para assumir o complexo industrial localizado em Beluluane, na província de Maputo.
O Governo moçambicano reconheceu publicamente essa possibilidade, sublinhando que o objectivo estratégico passa por evitar que uma infra-estrutura desta dimensão permaneça inactiva. A informação foi avançada pelo porta-voz do Conselho de Ministros e ministro da Administração Estatal e Função Pública, Inocêncio Impissa, durante um briefing à imprensa em Maputo.
Segundo o governante, embora o cenário preferencial fosse a continuidade das operações pela actual empresa, o Executivo admite que outro investidor possa assumir a gestão do complexo industrial caso a situação actual se prolongue.
“Primeiro, teríamos preferido que a Mozal continuasse a operar normalmente. Não sendo possível, seria razoável que outros operadores pudessem substituir a Mozal, restaurar o funcionamento normal da infra-estrutura e aumentar a produção, o emprego e a contribuição para a economia nacional”, afirmou.
Infra-estrutura industrial não deve permanecer inactiva
A posição do Governo reflecte a relevância estratégica da unidade industrial para a economia moçambicana. A Mozal é considerada a maior indústria em funcionamento no país e desempenha um papel central na dinâmica exportadora e na actividade industrial da região sul.
Impissa sublinhou que a prioridade do Executivo é garantir que o complexo industrial continue a ser utilizado, mesmo que sob outra entidade operadora.
“É uma mega-infra-estrutura. Não seria desejável que permanecesse parada. Por isso, será necessário dialogar com o proprietário da Mozal sobre eventuais formas de transferência da operação, da empresa ou das participações”, explicou o porta-voz do Governo.
Ainda assim, o governante foi claro ao indicar que não existe neste momento qualquer novo operador identificado. Qualquer eventual transferência dependerá sobretudo das decisões empresariais dos actuais accionistas.
Impacto imediato no parque industrial
A paralisação da fundição já está a provocar efeitos na cadeia industrial associada ao complexo de Beluluane, considerado o maior parque industrial do país.
De acordo com Onório Manuel, director-geral da entidade gestora MozParks, várias empresas fornecedoras de bens e serviços começaram também a suspender as suas actividades na sequência da interrupção da produção da Mozal.
“Estimamos que cerca de 25 empresas forneçam bens e serviços à Mozal. Algumas já estão a considerar suspender as operações devido à paralisação da fundição”, explicou.
Até ao momento, pelo menos cinco empresas já cessaram completamente as actividades, sobretudo aquelas directamente ligadas à produção.
Milhares de empregos sob pressão
A dimensão do impacto potencial é significativa. Segundo dados avançados pela gestão do parque industrial, a suspensão das actividades poderá afectar cerca de 4.000 empregos nas empresas da cadeia de fornecimento, além dos trabalhadores directamente empregados pela fundição.
A Mozal emprega actualmente mais de mil trabalhadores directos e sustenta vários milhares de postos de trabalho indirectos em serviços industriais, manutenção, logística e fornecimento de insumos.
A paralisação da unidade poderá, assim, provocar efeitos em cascata sobre o tecido industrial local, sobretudo nas empresas que dependem directamente da actividade da fundição.
Energia cara esteve na origem da decisão
A decisão de suspender as operações foi anunciada pela empresa australiana South32, que gere a Mozal, depois de considerar economicamente inviável a tarifa de electricidade proposta para o fornecimento de energia à fundição.
Segundo informações avançadas pela empresa em comunicação com investidores, o preço proposto para o fornecimento eléctrico rondaria 100 dólares por megawatt-hora, um nível considerado muito acima das condições competitivas da indústria global de alumínio.
Para efeito de comparação, a própria empresa indicou que menos de 1% das fundições de alumínio fora da China operam com contratos de energia acima de 50 dólares por MWh.
A fundição necessita de cerca de 950 megawatts de energia, uma quantidade que actualmente Moçambique não consegue fornecer internamente em condições competitivas, o que levou a empresa a optar por colocar a unidade em regime de “care and maintenance”, um processo que mantém a infra-estrutura preservada mas suspende a produção.
Um símbolo da industrialização moçambicana
Inaugurada em 2000, a Mozal foi durante décadas o maior investimento industrial realizado em Moçambique, com um investimento inicial superior a dois mil milhões de dólares.
O projecto foi desenvolvido por um consórcio liderado pela antiga BHP Billiton, tendo posteriormente passado para o controlo da South32, que actualmente detém cerca de 63,7% das participações, seguida pela Industrial Development Corporation da África do Sul (32,4%) e pelo Governo de Moçambique (3,9%).
Ao longo de mais de duas décadas, a fundição tornou-se um dos principais motores das exportações industriais do país e um símbolo da integração de Moçambique nas cadeias globais de produção de alumínio.
Mesmo com a suspensão das operações, o Governo considera que a infra-estrutura industrial mantém valor estratégico e poderá voltar a desempenhar um papel relevante na economia nacional.
“Mesmo que o nome deixe de existir, a infra-estrutura permanece. No futuro pode surgir ali uma nova indústria, e isso seria positivo para o país”, concluiu o porta-voz do Executivo.
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