
Inflação Cai Para 6,45%, Mas Expectativas Para Dezembro Sobem Para 9,23%
Preços desaceleraram em Agosto pelo segundo mês consecutivo, beneficiando da redução da inflação alimentar. O Banco de Moçambique antecipa, contudo, aumento dos preços no curto prazo, enquanto as expectativas dos agentes económicos para o final de 2026 foram revistas em alta.
- Inflação anual desacelerou para 6,45% em Agosto, depois de 7,48% em Julho;
- Desaceleração ocorreu pelo segundo mês consecutivo, apoiada sobretudo pela redução dos preços dos produtos alimentares;
- Inflação de frutas e vegetais recuou de 24,89% para 20,01%, favorecida pelo aumento sazonal da oferta durante a época fresca;
- Inflação subjacente também desacelerou, sinalizando moderação das pressões para além dos produtos mais voláteis;
- Agentes económicos elevaram a expectativa de inflação para Dezembro de 7,90% para 9,23%;
- Banco de Moçambique antecipa aumento dos preços no curto prazo, associado à inflação importada, evolução de frutas e vegetais e procura interna;
- Taxa MIMO foi mantida em 9,25%, num contexto em que permanecem elevados os riscos sobre as perspectivas de inflação.
A inflação em Moçambique desacelerou para 6,45% em Agosto de 2026, prolongando pelo segundo mês consecutivo uma trajectória de redução dos preços em termos homólogos. A evolução corrente contrasta, entretanto, com uma revisão em alta das expectativas para o final do ano e com a perspectiva do Banco de Moçambique de renovadas pressões inflacionistas no curto prazo.
Segundo o Banco de Moçambique, a inflação anual recuou de 7,48% em Julho para 6,45% em Agosto, reflectindo sobretudo a redução dos preços dos produtos alimentares.
O movimento foi particularmente influenciado por frutas e vegetais, cuja inflação diminuiu de 24,89% para 20,01%, beneficiando do aumento sazonal da oferta associado à época fresca.
A inflação subjacente também desacelerou. Excluindo frutas e vegetais e bens com preços administrados, a evolução dos preços continuou a reflectir a estabilidade do metical e o impacto limitado do ajustamento dos preços dos combustíveis sobre outros bens e serviços.
Expectativas Para Dezembro Sobem Para 9,23%
A desaceleração observada nos dados correntes não eliminou as preocupações quanto à trajectória dos preços nos próximos meses.
O inquérito realizado pelo Banco de Moçambique junto dos agentes económicos aponta para uma inflação anual de 9,23% em Dezembro de 2026, representando uma revisão em alta de 1,33 pontos percentuais relativamente aos 7,90% antecipados no inquérito precedente.
A diferença entre a inflação observada em Agosto e a esperada para Dezembro é significativa. Se a expectativa se concretizar, a taxa anual poderá aumentar 2,78 pontos percentuais em quatro meses.
A leitura das expectativas é particularmente relevante para a política monetária. Famílias, empresas e instituições financeiras tomam decisões de consumo, preços, salários, investimento e financiamento com base, em parte, na percepção sobre a evolução futura da inflação.
Uma revisão expressiva das expectativas pode, por essa via, influenciar o próprio comportamento dos preços.
Alimentos Podem Voltar a Impulsionar Preços
A redução da inflação alimentar foi determinante para a desaceleração registada em Agosto, mas parte desse efeito tem uma componente sazonal.
O aumento da oferta de frutas e vegetais durante a época fresca contribuiu para a redução dos preços. O Banco de Moçambique antecipa que o fim desta época poderá inverter parcialmente esse movimento, num contexto de procura interna contida, mas de maior pressão sobre alguns produtos alimentares.
A componente alimentar assume particular relevância devido ao seu peso no consumo das famílias e à rapidez com que alterações na disponibilidade de produtos podem repercutir-se no índice geral de preços.
A evolução nos próximos meses permitirá observar em que medida a desaceleração recente resulta de uma redução mais persistente das pressões inflacionistas ou do comportamento sazonal de alguns produtos.
Inflação Importada Regressa ao Centro das Perspectivas
O Banco de Moçambique identifica a inflação importada dos principais parceiros comerciais entre os factores susceptíveis de pressionar os preços domésticos no curto prazo.
Este canal opera através dos bens finais importados e dos factores de produção adquiridos no exterior. Alterações nos preços internacionais de alimentos, combustíveis, matérias-primas e outros insumos podem repercutir-se sobre os custos das empresas e, posteriormente, sobre os preços internos.
A estabilidade cambial pode atenuar parte desta transmissão. Em Setembro, a taxa de câmbio média de referência do mercado interbancário permaneceu em torno de 63,91 meticais por dólar, praticamente no mesmo nível observado em Maio.
Ainda assim, estabilidade cambial e estabilidade dos preços internacionais são variáveis distintas. Mesmo sem uma depreciação significativa do metical, uma subida dos preços externos pode traduzir-se em custos de importação mais elevados.
Banco Central Mantém Taxa MIMO em 9,25%
Neste contexto, o Comité de Política Monetária decidiu manter a taxa MIMO em 9,25%.
A decisão ocorre numa conjuntura em que a inflação observada está a desacelerar, mas as perspectivas de curto prazo apontam para uma inversão parcial dessa trajectória.
O Banco de Moçambique conduz a política monetária numa perspectiva prospectiva. As decisões tomadas no presente procuram responder à inflação esperada e aos riscos que podem materializar-se nos meses seguintes, tendo em consideração que os efeitos das alterações das taxas de juro sobre a economia ocorrem com algum desfasamento temporal.
A manutenção da taxa directora traduz, deste modo, um equilíbrio entre a evolução recente dos preços, as expectativas de inflação e as condições de actividade económica.
Riscos Permanecem Elevados
O Banco de Moçambique identifica, no plano interno, factores que continuam a acrescentar incerteza às perspectivas de inflação.
Entre eles encontram-se os efeitos da inflação importada, a manutenção do défice de financiamento público e dos atrasos nos pagamentos do Estado, bem como a estabilidade do metical face ao dólar norte-americano.
No ambiente externo, os principais riscos estão associados à duração e magnitude das tensões geopolíticas no Médio Oriente e na Europa e aos seus efeitos sobre os fluxos comerciais, a oferta global de bens e os preços internacionais dos combustíveis e alimentos.
Estes factores tornam a trajectória inflacionista particularmente sensível à evolução das condições internacionais.
Desaceleração Actual Convive Com Pressões de Curto Prazo
O quadro apresentado pelo Banco de Moçambique coloca duas tendências em simultâneo.
A primeira é a desaceleração efectiva da inflação, que passou de 7,48% em Julho para 6,45% em Agosto, acompanhada pela moderação da inflação subjacente.
A segunda é a perspectiva de aumento dos preços no curto prazo, reforçada pela revisão das expectativas dos agentes económicos para 9,23% em Dezembro.
A evolução dos preços dos alimentos, da inflação importada, do metical e das condições de procura interna será, por isso, determinante para perceber a intensidade e duração desse movimento.
No médio prazo, o Banco de Moçambique antecipa uma redução das pressões inflacionistas, sustentada pela perspectiva de descida dos preços internacionais dos combustíveis e alimentos, associada a um eventual abrandamento das tensões no Médio Oriente.
A trajectória entre os 6,45% observados em Agosto e os 9,23% esperados pelos agentes económicos para Dezembro será um dos principais indicadores da conjuntura nos próximos meses, tanto para a condução da política monetária como para as decisões de consumo, investimento e financiamento na economia.














