Metais Preciosos Entram em “Modo Turbulência” com Dólar Forte, Fed Hawkish e Desalavancagem Forçada

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Enquanto o ouro tenta reafirmar-se como activo-refúgio num contexto de tensão geopolítica, a prata expõe a fragilidade de um mercado excessivamente alavancado, num ajuste violento que está a reconfigurar o equilíbrio financeiro global.

Questões-Chave:
  • O ouro recupera após liquidações abruptas, sustentado por tensões geopolíticas e procura por refúgio;
  • A prata sofre uma das quedas intraday mais acentuadas dos últimos anos, pressionada por alavancagem excessiva e aumento de margens;
  • Platina e paládio tentam estabilizar num contexto adverso de expectativas de juros elevados;
  • O fortalecimento do dólar e a sinalização hawkish do Fed redefinem o apetite por activos reais;
  • O mercado entra num processo de “reset” financeiro, separando fundamentos de excesso especulativo.

O mercado internacional de metais preciosos atravessa, no início de Fevereiro de 2026, um dos períodos de maior volatilidade da última década, marcado por movimentos bruscos de liquidação, reavaliação de risco e desalavancagem forçada. Num cenário de dólar fortalecido, expectativas de juros mais elevados e tensões geopolíticas renovadas, o ouro procura recuperar o seu estatuto de activo-refúgio, enquanto a prata se transforma no epicentro de um ajuste violento que expõe fragilidades estruturais do sistema financeiro.

O ouro entre a correcção abrupta e a reafirmação como activo-refúgio

O ouro conseguiu recuperar, nos primeiros dias de Fevereiro, o patamar psicológico dos 5.000 dólares por onça, sendo negociado entre 5.048 e 5.071 dólares, após um “flash crash” registado a 2 de Fevereiro, quando o metal chegou a afundar mais de 5% numa única sessão. A queda abrupta foi desencadeada pela nomeação de Kevin Warsh para a presidência da Federal Reserve, interpretação que os mercados leram como um sinal inequívoco de uma política monetária mais restritiva e prolongada.

Apesar da turbulência de curto prazo, o desempenho do ouro mantém-se robusto numa perspectiva anual. O metal acumula uma valorização próxima de 75% nos últimos doze meses e atingiu um máximo histórico de 5.608,35 dólares em Janeiro de 2026. A recente recuperação foi impulsionada pelo recrudescimento das tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e o Irão, reforçando a procura por activos considerados porto seguro em períodos de incerteza.

Prata: da euforia especulativa à liquidação em cascata

Se o ouro revela resiliência, a prata apresenta um quadro radicalmente distinto. Na quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2026, o metal registou uma queda intraday de até 17%, anulando por completo a recuperação observada nos dois dias anteriores. Em poucos minutos, os preços recuaram de níveis próximos dos 90 dólares por onça para mínimos em torno de 73,56 dólares, aprofundando uma correcção que já ultrapassa um terço desde o recorde histórico de 121,64 dólares alcançado a 29 de Janeiro.

A violência do movimento expõe a vulnerabilidade de um mercado excessivamente alavancado. A sinalização hawkish da futura liderança do Fed fortaleceu o dólar e reduziu drasticamente o apetite por activos que não geram rendimento, como a prata. Este efeito foi amplificado pelo desmonte de posições longas altamente alavancadas, com vários ETFs de prata a registarem perdas entre 13% e 20% numa única sessão, enquanto produtos ultra-alavancados chegaram a perder mais de 60% do seu valor em poucos dias.

Margens, alavancagem e o papel disciplinador da CME

O aumento dos requisitos de margem imposto pela CME Group sobre os contratos futuros de prata na COMEX, de 11% para 15%, funcionou como catalisador adicional da liquidação. Muitos operadores foram forçados a encerrar posições para cobrir exigências de capital, desencadeando um efeito cascata que se espalhou rapidamente dos mercados futuros para o mercado à vista.

Analistas assinalam ainda que o movimento teve origem nos contratos negociados em Xangai, antes de contaminar os mercados globais, sublinhando o carácter sistémico do ajustamento e a crescente interligação entre os centros financeiros asiáticos e ocidentais.

Platina e paládio num equilíbrio instável

Os metais do grupo da platina apresentam uma trajectória intermédia. A platina recuperou para níveis acima de 2.200 dólares por onça, sendo cotada em torno de 2.283 dólares a 4 de Fevereiro, após ter caído abaixo de 2.000 dólares na semana anterior, pressionada por realização de lucros e receios de substituição pelo paládio.

Este último mantém-se relativamente estável, a negociar próximo dos 1.731 dólares, mas enfrenta incertezas associadas a eventuais tarifas sobre a produção russa e à evolução estrutural do mercado automóvel, particularmente no segmento dos veículos eléctricos, onde a transição tecnológica continua a alterar padrões de procura.

Fundamentos sólidos, mas sob um novo regime financeiro

No seu conjunto, o mercado de metais preciosos parece entrar num processo de reequilíbrio profundo. A volatilidade extrema reflecte menos uma deterioração dos fundamentos de longo prazo e mais um ajustamento financeiro num ambiente de liquidez mais restrita. No caso da prata, apesar de estar significativamente abaixo do pico recente, o metal ainda acumula uma valorização anual próxima de 139%, sustentada por uma procura industrial crescente ligada à transição energética, inteligência artificial, energia solar e nuclear.

Entre suportes técnicos e cenários divergentes para 2026

As perspectivas para o resto de 2026 permanecem divididas. Alguns analistas identificam suporte técnico em torno da média móvel de 50 dias, próxima dos 75,9 dólares por onça, enquanto outros alertam para a possibilidade de novas correcções caso o dólar continue a fortalecer-se e as condições financeiras permaneçam restritivas.

Bancos como o HSBC projectam a prata a terminar o ano próximo dos 80 dólares, enquanto instituições como o JPMorgan mantêm cenários mais agressivos, acima dos 110 dólares, caso o apetite por activos reais regresse após o actual ajuste de liquidez.

Metais preciosos como barómetro da saúde financeira global

Mais do que um episódio isolado, a “montanha-russa” dos metais preciosos em Fevereiro de 2026 surge como um sinal claro de que os mercados globais atravessam uma fase de transição. Num mundo de juros elevados, dólar dominante e tensões geopolíticas persistentes, os metais deixam de ser apenas refúgio ou activo industrial e passam a funcionar como um dos mais sensíveis barómetros da saúde financeira global.

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