Moçambique Entra em 2026 Entre Esperança de Retoma e Pressões Económicas – Luís Magaço

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  • Retoma do gás, estabilidade política e reaproximação internacional alimentam expectativas positivas, mas dívida pública elevada, crédito caro e fragilidade empresarial continuam a condicionar o crescimento.

A economia moçambicana iniciou 2026 num contexto marcado por sinais contraditórios. Por um lado, existem factores que alimentam expectativas positivas quanto à retoma da actividade económica. Por outro, persistem fragilidades estruturais que continuam a limitar a capacidade de crescimento e investimento.

Para o economista Luís Magaço, Director-Geral da Austral Consultoria, o país entrou em 2026 num ambiente relativamente mais favorável do que aquele que marcou a transição de 2024 para 2025, período caracterizado por fortes tensões políticas e instabilidade económica.

Segundo o analista, vários acontecimentos registados ao longo de 2025 contribuíram para melhorar as perspectivas económicas do país. Entre eles destacam-se a decisão da Total de avançar com o projecto de gás natural liquefeito em Cabo Delgado, a saída de Moçambique da lista cinzenta internacional e a retoma de alguns programas de cooperação e financiamento externo.

“Entrámos em 2026 num contexto de paz e estabilidade. Isso cria condições para uma possível retoma da economia”, afirmou Magaço no programa Semanário Económico.

Crise fiscal limita capacidade do Estado

Apesar destes sinais positivos, a economia moçambicana continua a enfrentar fortes restrições macroeconómicas.

Um dos principais problemas identificados é a situação das finanças públicas. O elevado nível de endividamento do Estado continua a reduzir significativamente o espaço fiscal para investimento público.

De acordo com Magaço, uma parte significativa do orçamento do Estado é actualmente absorvida por despesas fixas, como salários e serviço da dívida, restando uma margem muito limitada para investimentos estruturantes.

Cerca de 20% do orçamento público é utilizado para pagar o serviço da dívida, enquanto apenas uma pequena parcela permanece disponível para investimento público.

Esta realidade tem obrigado o Estado a recorrer cada vez mais ao endividamento interno, um mecanismo que, embora tenha permitido financiar despesas correntes, está a criar pressões adicionais sobre o sistema financeiro nacional.

Segundo o economista, esta estratégia pode ter efeitos negativos sobre a economia, sobretudo porque reduz a disponibilidade de financiamento para o sector produtivo.

Sector privado enfrenta ambiente difícil

A fragilidade das finanças públicas reflecte-se directamente no ambiente empresarial.

Muitas empresas continuam a enfrentar dificuldades financeiras significativas, agravadas pela desaceleração económica e pelos efeitos das manifestações registadas entre o final de 2025 e o início de 2026.

De acordo com Magaço, várias empresas não conseguiram recuperar das perturbações económicas provocadas por esse período de instabilidade.

Mesmo aquelas que continuam a operar enfrentam um ambiente económico particularmente desafiante, marcado por custos elevados, acesso limitado ao crédito e incerteza quanto às perspectivas de crescimento.

Crédito caro trava investimento

Outro obstáculo importante para o crescimento económico é o elevado custo do financiamento.

As taxas de juro praticadas no sistema bancário continuam entre as mais altas da região, o que dificulta a expansão do investimento privado.

Segundo Magaço, existem empresas que actualmente pagam taxas de juro superiores a 20% ao ano, um nível considerado incompatível com o desenvolvimento de projectos produtivos competitivos.

Além disso, o forte recurso do Estado ao financiamento interno tem reduzido a disponibilidade de crédito para o sector privado.

Este fenómeno, conhecido como crowding out, ocorre quando o financiamento do Estado absorve grande parte dos recursos disponíveis no sistema financeiro, deixando menos financiamento disponível para as empresas.

Gás pode representar ponto de viragem

Apesar das dificuldades actuais, Magaço considera que existem factores que podem alterar a trajectória económica do país nos próximos anos.

Entre eles destaca-se a retoma do projecto de gás natural em Cabo Delgado, que poderá gerar um novo ciclo de investimento, aumentar as exportações e reforçar as receitas do Estado.

Se concretizados conforme previsto, estes projectos poderão impulsionar significativamente o crescimento económico.

“Com a retoma do projecto do gás, poderemos assistir a um Moçambique antes e um Moçambique depois”, afirmou o economista.

No entanto, para que esse potencial se materialize plenamente, será necessário implementar reformas estruturais que permitam fortalecer o ambiente de negócios e melhorar a competitividade da economia.

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