Moçambique Propõe Nova Agenda Com Banco Mundial Centrada Em Emprego, Capital Humano E Resiliência

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  • Governo posiciona criação de emprego, transformação económica, desenvolvimento do capital humano e financiamento climático como pilares da cooperação com o Banco Mundial para os próximos anos.
Questões-Chave:
  • Moçambique defende uma nova geração de parcerias focadas na prevenção da fragilidade e na criação de oportunidades económicas;
  • Criação de emprego para jovens surge como prioridade transversal das discussões com o Banco Mundial;
  • Governo pretende transformar capital humano em motor do crescimento inclusivo;
  • Diversificação económica e fortalecimento do sector privado assumem papel central;
  • Financiamento climático é apresentado como instrumento de desenvolvimento e redução da pobreza;
  • Novo Quadro de Parceria com o Banco Mundial prevê envelope financeiro de US$ 10 mil milhões para 2026-2031.

A participação de Moçambique no Fragility Forum 2026 e os encontros bilaterais mantidos com diferentes departamentos do Banco Mundial revelam uma estratégia cada vez mais estruturada para posicionar o país no centro das discussões internacionais sobre desenvolvimento, emprego, resiliência e prosperidade económica.

Ao longo de várias reuniões realizadas em Washington, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, apresentou uma visão integrada assente numa ideia central: o desafio de Moçambique já não é apenas crescer, mas transformar crescimento económico em emprego, produtividade, inclusão e estabilidade social.

A abordagem surge num contexto marcado por múltiplos choques acumulados nos últimos anos, desde ciclones e conflitos armados até crises sanitárias e económicas, que colocaram sob pressão os ganhos de desenvolvimento alcançados pelo país.

Emprego Surge Como Principal Prioridade Nacional

Entre todos os temas debatidos, a criação de emprego para a juventude destacou-se como prioridade absoluta.

Segundo a posição apresentada por Moçambique ao Banco Mundial, centenas de milhares de jovens entram anualmente no mercado de trabalho, tornando a geração de oportunidades económicas uma questão simultaneamente económica, social e de estabilidade nacional.

O Governo defende uma agenda que combine formação profissional alinhada às necessidades do sector privado, programas de estágios, empreendedorismo, agricultura comercial, agro-processamento e desenvolvimento dos corredores económicos como instrumentos de criação de emprego em larga escala.

A mensagem transmitida aos responsáveis da iniciativa JobsNow do Banco Mundial foi clara: o crescimento económico só produzirá resultados duradouros se gerar oportunidades concretas para os jovens e para as mulheres.

Capital Humano É Apresentado Como Agenda Económica

Nas reuniões dedicadas ao desenvolvimento do capital humano, Moçambique procurou reforçar uma ideia que tem vindo a ganhar espaço nos debates internacionais: educação, saúde e qualificação profissional não constituem apenas políticas sociais, mas investimentos económicos estratégicos.

O Governo alertou para os impactos acumulados da COVID-19, dos ciclones, dos conflitos em Cabo Delgado e de outros choques que afectaram o desenvolvimento das capacidades humanas nos últimos anos.

Segundo a visão apresentada, o país necessita de acelerar a transição da educação para o emprego, reforçar programas de competências para jovens, promover o empreendedorismo e aumentar os investimentos em nutrição, saúde e formação técnica.

A preocupação é particularmente relevante num país com uma das populações mais jovens de África.

“A juventude pode tornar-se o maior activo económico do país ou o seu maior desafio social, dependendo das oportunidades que forem criadas”, sustenta a abordagem apresentada ao Banco Mundial.

Prosperidade Exige Diversificação Económica

Outro eixo importante das discussões centrou-se na transformação estrutural da economia.

Nas reuniões dedicadas à agenda de prosperidade, Moçambique defendeu um maior apoio à diversificação económica, reduzindo a dependência dos recursos naturais e promovendo sectores com maior capacidade de criação de valor e emprego.

As prioridades identificadas incluem o desenvolvimento de cadeias de valor agro-industriais, a industrialização baseada na agricultura, pescas e florestas, o fortalecimento das pequenas e médias empresas, o desenvolvimento de corredores económicos e a integração dos produtores rurais nos mercados nacionais e internacionais.

O Governo considera que o crescimento futuro deverá assentar cada vez mais na produtividade, no investimento privado e na competitividade económica.

Financiamento Climático É Visto Como Instrumento De Desenvolvimento

Nas reuniões dedicadas ao clima e gestão do risco de desastres, Moçambique procurou reposicionar o debate climático numa perspectiva económica.

Segundo a posição apresentada, o financiamento climático não deve ser encarado apenas como um mecanismo de resposta ambiental, mas como um instrumento de criação de emprego, redução da pobreza e promoção do crescimento sustentável.

O Governo destacou áreas como agricultura resiliente, reconstrução pós-ciclones, infra-estruturas resistentes a eventos extremos, gestão integrada das zonas costeiras e economia azul como sectores capazes de mobilizar investimentos transformadores.

Foi igualmente proposta a criação de uma Plataforma Nacional de Financiamento Climático destinada a reunir recursos públicos, privados e concessionais para acelerar investimentos de grande impacto económico.

Da Gestão Da Fragilidade À Construção Da Resiliência

A participação de Salim Valá no Fragility Forum permitiu ainda apresentar a experiência moçambicana na gestão de crises sobrepostas.

Na intervenção realizada no painel dedicado à prevenção de conflitos e protecção dos ganhos de desenvolvimento, o ministro defendeu que a verdadeira antecipação não consiste apenas em melhorar sistemas de previsão, mas em construir instituições capazes de agir antes que os riscos se transformem em emergências.

A abordagem apresentada assenta na integração dos riscos climáticos, económicos e sociais, no fortalecimento da presença do Estado junto das comunidades e na criação de mecanismos flexíveis de financiamento para prevenção e resiliência.

Segundo o governante, uma das principais lições retiradas da experiência moçambicana é que a resiliência não se constrói durante as crises, mas antes da sua ocorrência.

Uma Nova Arquitectura De Desenvolvimento

Tomadas em conjunto, as reuniões realizadas em Washington revelam uma evolução importante da narrativa de desenvolvimento de Moçambique.

Em vez de centrar o debate exclusivamente em assistência ou recuperação pós-crise, o país procura posicionar-se como parceiro de uma agenda orientada para a criação de emprego, fortalecimento do capital humano, mobilização de investimento privado, adaptação climática e transformação económica.

Num momento em que o Banco Mundial prepara a implementação do novo Quadro de Parceria com Moçambique para o período 2026-2031, avaliado em cerca de US$ 10 mil milhões, as prioridades apresentadas em Washington oferecem um retrato claro da visão do Governo para os próximos anos: transformar resiliência em prosperidade e converter potencial económico em oportunidades concretas para milhões de moçambicanos.