• Banco encerrou o primeiro semestre com lucro de 273,9 milhões de meticais, contra prejuízo de 149,6 milhões no período homólogo, apoiado pela redução dos custos de financiamento, aumento das comissões e menor imparidade; carteira de crédito contraiu, enquanto títulos públicos e reservas no Banco Central ganharam maior peso
Questões-Chave:
  • O Moza Banco obteve um lucro líquido de 273,9 milhões de meticais no primeiro semestre, revertendo o prejuízo de 149,6 milhões registado em Junho de 2025;
  • A margem financeira cresceu 13%, apesar da redução dos juros recebidos sobre empréstimos a clientes;
  • Os empréstimos e adiantamentos líquidos diminuíram 7,1%, para 13,69 mil milhões de meticais;
  • Os depósitos de clientes aumentaram 6,1%, para 55,98 mil milhões de meticais;
  • Caixa, reservas no Banco Central e títulos públicos representavam aproximadamente 63,7% do activo total;
  • As exposições classificadas no Estágio 3 diminuíram, mas mantiveram-se em 4,36 mil milhões de meticais;
  • O Banco recorreu a 3,2 mil milhões de meticais em operações junto do Banco de Moçambique para gestão de tesouraria e liquidez de curto prazo;
  • Os capitais próprios aumentaram para 6,12 mil milhões de meticais, mas os resultados transitados negativos atingiram 7,94 mil milhões.

O Moza Banco regressou aos lucros no primeiro semestre de 2026, apresentando um resultado líquido de 273,9 milhões de meticais, depois do prejuízo de 149,6 milhões registado no período homólogo de 2025.

As demonstrações financeiras intercalares indicam que o resultado antes de impostos aumentou de 81 milhões para 544,2 milhões de meticais. Os rendimentos operacionais cresceram 16,5%, para 2,46 mil milhões de meticais, enquanto a imparidade líquida do período diminuiu 32,2%, para 206,6 milhões.

A recuperação representa uma alteração positiva face ao primeiro semestre anterior. Contudo, uma análise da composição dos resultados mostra que o crescimento do lucro não foi acompanhado por uma expansão do crédito a empresas e famílias.

A melhoria decorreu principalmente da redução dos juros pagos aos depositantes, do aumento dos rendimentos provenientes de títulos financeiros, do crescimento das comissões e operações financeiras e da diminuição das perdas por imparidade.

Redução Do Custo Dos Depósitos Sustenta A Margem Financeira

A margem financeira aumentou 13%, passando de 1,62 mil milhões para 1,83 mil milhões de meticais.

Este crescimento ocorreu apesar de os juros e rendimentos similares terem diminuído 7,4%, de 3 mil milhões para 2,77 mil milhões de meticais. A compensação veio do lado dos custos: os juros e gastos similares recuaram 31,6%, para 940,8 milhões de meticais.

Os juros pagos sobre recursos de clientes diminuíram 35,9%, de 1,1 mil milhões para 704,9 milhões de meticais. Os encargos com empréstimos obrigacionistas também caíram, passando de 173,3 milhões para 70,6 milhões.

A evolução mostra que a expansão da margem financeira resultou mais da redução do custo de captação de recursos do que de um aumento dos rendimentos obtidos através da concessão de crédito.

Com efeito, os juros provenientes de empréstimos e adiantamentos a clientes caíram 26%, para 1,32 mil milhões de meticais. Em sentido contrário, os juros de activos financeiros ao custo amortizado — categoria dominada pelos Bilhetes do Tesouro — aumentaram 31,4%, para 1,15 mil milhões.

Na leitura do O.Económico, o banco melhorou a rentabilidade financeira através de uma combinação defensiva: menor custo dos depósitos e maior exposição a activos financeiros, particularmente títulos públicos, em vez de crescimento da carteira de crédito.

Comissões E Operações Financeiras Reforçam As Receitas

Os serviços e comissões líquidos aumentaram 30,7%, para 294,6 milhões de meticais.

Os rendimentos brutos de serviços e comissões cresceram de 443,7 milhões para 499,8 milhões de meticais, impulsionados por garantias prestadas, serviços bancários e outras comissões. Paralelamente, os encargos com comissões diminuíram para 205,2 milhões.

As operações financeiras líquidas aumentaram 25,7%, para 327,2 milhões de meticais, reflectindo sobretudo resultados cambiais.

Os ganhos brutos em operações cambiais atingiram 8,09 mil milhões de meticais, mas foram quase integralmente compensados por perdas cambiais de 7,77 mil milhões. O resultado líquido mostra que a actividade cambial gera volumes elevados, mas a margem efectiva permanece significativamente menor do que os valores brutos movimentados.

Os outros ganhos operacionais aumentaram 79,2%, para 280,6 milhões de meticais, contribuindo igualmente para a recuperação do resultado.

Crédito A Clientes Diminui Apesar Do Crescimento Dos Depósitos

Os empréstimos e adiantamentos líquidos a clientes diminuíram de 14,74 mil milhões de meticais, em Dezembro de 2025, para 13,69 mil milhões em Junho de 2026, correspondendo a uma redução de 7,1%.

Em termos brutos, antes da dedução das perdas esperadas de crédito, a carteira recuou 6,2%, para 15,26 mil milhões de meticais.

A contracção ocorreu enquanto os depósitos e contas correntes aumentaram 6,1%, de 52,77 mil milhões para 55,98 mil milhões de meticais.

Com base nos valores divulgados, o crédito líquido representava aproximadamente 24,5% dos depósitos, abaixo dos 27,9% observados em Dezembro. Isto significa que o crescimento dos recursos captados junto dos clientes não se traduziu numa expansão equivalente do financiamento à economia.

A redução foi particularmente expressiva no segmento das instituições públicas, cujo saldo caiu de 2,6 mil milhões para 197,9 milhões de meticais. O crédito ao Retalho-Particulares diminuiu de 5,68 mil milhões para 5,3 mil milhões, enquanto o Retalho-Empresas recuou para 3 mil milhões.

O segmento Corporate apresentou uma evolução diferente, aumentando de 4,3 mil milhões para 6,54 mil milhões de meticais. Esta alteração indica uma recomposição da carteira em favor de clientes empresariais de maior dimensão, embora insuficiente para impedir a contracção global do crédito.

Títulos Públicos Ganham Maior Peso No Balanço

Os activos financeiros do Moza Banco aumentaram 6,5%, para 23,85 mil milhões de meticais.

A carteira incluía 20,17 mil milhões de meticais em Bilhetes do Tesouro e 2,89 mil milhões em Obrigações do Tesouro. Somados, estes instrumentos representavam cerca de 23,05 mil milhões de meticais, equivalentes a aproximadamente 31,7% do activo total.

Em comparação, os empréstimos líquidos a clientes representavam apenas 18,8% do activo.

A preferência por títulos públicos pode ser explicada pela combinação entre remuneração, liquidez e menor risco relativo quando comparados com o crédito privado. Contudo, uma exposição crescente aos títulos do Estado pode reduzir o incentivo à concessão de financiamento às empresas, sobretudo quando a avaliação do risco de crédito permanece exigente.

O movimento também aproxima o desempenho do banco das condições das finanças públicas. Quanto maior o peso dos Bilhetes e Obrigações do Tesouro, maior será a dependência dos rendimentos, liquidez e qualidade da carteira relativamente à capacidade financeira do Estado.

O Moza Banco constituiu ainda 41,5 milhões de meticais em imparidade sobre activos financeiros, com destaque para os Bilhetes do Tesouro, na sequência de uma alteração da metodologia de cálculo introduzida no final de 2025.

Reservas Obrigatórias Alteram A Estrutura Da Liquidez

A rubrica de caixa e disponibilidades no Banco Central aumentou 43,9%, para 23,29 mil milhões de meticais.

Deste montante, 21,55 mil milhões correspondiam a reservas obrigatórias, contra 15,15 mil milhões em Dezembro de 2025.

O Moza Banco atribui a variação ao aumento do coeficiente de reservas obrigatórias de 29% para 39%. O Banco de Moçambique confirmou a alteração em Maio, no quadro das medidas destinadas a gerir a liquidez e as pressões inflacionárias.

As reservas obrigatórias correspondem à parcela dos depósitos que os bancos devem manter imobilizada junto do Banco Central. Embora sejam contabilizadas como activos, não estão integralmente disponíveis para financiar crédito ou responder às necessidades correntes dos clientes. 

Somando caixa e disponibilidades no Banco Central aos Bilhetes e Obrigações do Tesouro, aproximadamente 63,7% do activo do Moza Banco encontrava-se concentrado em liquidez regulamentar e dívida pública.

Esta estrutura oferece protecção em termos de liquidez e reduz parte do risco de crédito privado, mas também mostra que uma parcela relativamente limitada do balanço estava directamente aplicada no financiamento de famílias e empresas.

Banco Recorre A Financiamento De Curto Prazo Do Banco Central

Apesar do crescimento da caixa e das reservas, o Moza Banco apresentava 3,2 mil milhões de meticais em recursos obtidos junto do Banco de Moçambique, uma rubrica que não existia em Dezembro de 2025.

Segundo as demonstrações financeiras, estes recursos resultaram essencialmente de operações overnight contratadas para gestão de tesouraria, liquidez de curto prazo e cumprimento das reservas obrigatórias.

Os recursos de outras instituições de crédito também aumentaram de 667,2 milhões para 2,35 mil milhões de meticais, uma expansão de 252,4%.

A maior parte destes fundos tinha maturidade inferior a três meses, demonstrando o recurso acrescido a financiamento institucional de curto prazo.

A utilização de operações junto do Banco Central não significa, por si só, uma dificuldade de solvabilidade. Constitui um instrumento normal de gestão de liquidez. O aumento simultâneo das reservas obrigatórias e do financiamento overnight mostra, porém, que a nova exigência regulamentar produziu necessidades adicionais de tesouraria.

Imparidade Diminui, Mas Crédito Em Estágio 3 Continua Elevado

A imparidade líquida do exercício diminuiu de 304,7 milhões para 206,6 milhões de meticais.

No crédito a clientes, o encargo de imparidade caiu de 227,7 milhões para 70,9 milhões, reflectindo menores reforços e reversões realizadas durante o período.

As perdas esperadas acumuladas sobre empréstimos, contudo, aumentaram ligeiramente de 1,53 mil milhões para 1,57 mil milhões de meticais.

O saldo das exposições classificadas no Estágio 3 — categoria que abrange activos com evidência de deterioração significativa e incumprimento de crédito — diminuiu 8,2%, de 4,75 mil milhões para 4,36 mil milhões de meticais.

Apesar da redução, o montante continuava a representar aproximadamente 31,9% da carteira líquida divulgada por estágio. O indicador não deve ser confundido automaticamente com o rácio regulamentar de crédito malparado, que não é apresentado nas demonstrações intercalares, mas evidencia que o risco de crédito permanece relevante.

A recuperação da rentabilidade deve, por isso, ser acompanhada pela evolução das exposições problemáticas, recuperações de crédito, garantias e cobertura por imparidade.

Controlo De Custos Apresenta Resultados Mistos

Os gastos com pessoal diminuíram 1,5%, para 1,04 mil milhões de meticais, apesar de o banco manter 61 unidades de negócio e 100 caixas automáticas distribuídas pelas províncias.

Todavia, as depreciações e amortizações aumentaram 20,1%, para 242,6 milhões de meticais, e os outros gastos operacionais cresceram 10,2%, para 636,9 milhões. As provisões do período aumentaram 49,9%, para 68,5 milhões, principalmente para cobertura de garantias e compromissos assumidos perante terceiros.

A evolução indica que a melhoria dos resultados não decorreu de uma redução generalizada da estrutura de custos. Houve contenção nos gastos com pessoal, mas outros encargos continuaram a crescer.

Por outro lado, os outros ganhos operacionais aumentaram de 156,6 milhões para 280,6 milhões de meticais, contribuindo para compensar a expansão das despesas.

Capitais Próprios Crescem, Mas Perdas Acumuladas Permanecem

Os capitais próprios aumentaram 5,4%, de 5,81 mil milhões para 6,12 mil milhões de meticais.

A estrutura inclui capital social de 7,02 mil milhões, reservas de 4,77 mil milhões, prémio de emissão de 1,99 mil milhões e resultados transitados negativos de 7,94 mil milhões de meticais.

O agravamento dos resultados transitados reflecte a incorporação do prejuízo de 3,92 mil milhões de meticais registado no exercício completo de 2025.

O lucro de 273,9 milhões alcançado no primeiro semestre de 2026 representa, assim, um primeiro movimento de recuperação, mas corresponde ainda a uma pequena parcela das perdas acumuladas.

As demonstrações intercalares não apresentam rácios prudenciais de solvabilidade, liquidez regulamentar ou crédito malparado. Por essa razão, a melhoria do resultado contabilístico não permite, isoladamente, concluir que todos os indicadores de robustez financeira tenham recuperado na mesma proporção.

Recuperação Precisa De Converter Liquidez Em Intermediação Sustentável

O regresso aos lucros constitui um desenvolvimento relevante para o Moza Banco, sobretudo depois do prejuízo registado em 2025.

A margem financeira melhorou, as comissões aumentaram, as operações financeiras produziram mais receitas e o custo da imparidade diminuiu. O banco também ampliou os depósitos, activos e capitais próprios.

Contudo, a origem do resultado revela uma recuperação assente predominantemente na redução do custo dos recursos e no aumento da exposição a títulos públicos, enquanto o crédito a clientes diminuiu.

Para consolidar a trajectória, o banco terá de compatibilizar três objectivos: preservar a liquidez exigida pelo Banco de Moçambique, reduzir as exposições de crédito problemáticas e retomar a concessão de financiamento economicamente sustentável às empresas e famílias.

A dimensão estratégica dos resultados não está apenas no lucro obtido em seis meses. Está na capacidade de transformar uma estrutura altamente líquida e concentrada em títulos públicos numa base de intermediação financeira capaz de gerar rendimentos recorrentes, controlar riscos e apoiar a actividade económica.