
Projecto de cobalto de US$ 600 milhões da Trafigura enfrenta crise de liquidez
O Grupo Trafigura foi forçado a procurar novos financiamentos para um dos seus principais investimentos – um projecto de cobre-cobalto de 600 milhões de dólares que está a ser implementado na República Democrática do Congo, naquilo que configura a mais recente dor de cabeça para o negócio de metais da multinacional.
Segundo fontes, o projecto que está a ser desenvolvido pela Chemaf, um parceiro de longa data da Trafigura, tem enfrentado dificuldades devido a derrapagens de custos e preços fracos do cobalto.
A unidade de metais da Trafigura já está debaixo de fogo depois de ter anunciado, em Fevereiro, que foi vítima de uma enorme alegada fraude de níquel. A Trafigura disputa com a rival Glencore o estatuto de maior comerciante de metais do mundo, mas o negócio tem sido ofuscado nos últimos anos pelos lucros impressionantes obtidos pelos seus comercializadores de energia – mesmo antes de o escândalo do níquel se tornar público.
No ano passado, a Trafigura anunciou um empréstimo de US$ 600 milhões de dólares para a Chemaf para a construção do que disse ser uma das maiores minas de cobre e cobalto do Congo, em Mutoshi, bem como uma fábrica de processamento no local e outra em sua operação Etoile em Lubumbashi.
No entanto, o projecto excedeu seu orçamento e não pode ser concluído com a actual facilidade de empréstimo, disseram as fontes. Como resultado, a Trafigura tem sondado investidores que poderiam fornecer dinheiro adicional para ajudar a concluir o projecto. A trading está buscando financiamento adicional de cerca de entre US$ 200 a 300 milhões, de acordo com as mesmas fontes.
“A Trafigura tem trabalhado com a Chemaf para rever as opções para os projectos de desenvolvimento de Mutoshi e Etoile à luz das condições de mercado desafiadoras, que incluem preços persistentemente baixos do cobalto e pressões inflacionárias enfrentadas pela indústria de mineração”, disse a empresa em um comunicado. “A Trafigura continua comprometida com a República Democrática do Congo e com a construção da sua presença nos mercados de metais para baterias em rápido crescimento.”
Um porta-voz da Chemaf, por sua vez, disse que a empresa concluiu mais de 70% da construção da nova operação de Mutoshi e que ela e a Trafigura estavam ” a trabalhar em colaboração para rever os caminhos mais ideais para a primeira produção”.
O projecto tornou-se menos atractivo após uma queda nos preços do cobalto, que em Maio caíram para o menor nível em quase quatro anos. O mercado do hidróxido de cobalto, a forma intermediária produzida pela Chemaf e outras mineradoras congolesas, foi particularmente atingido em contexto de expansão da oferta e à desaceleração da demanda chinesa.
Não está claro quanto a Trafigura pode perder se o projecto fracassar. O empréstimo foi sindicado no ano passado a bancos liderados pelo Banco de Comércio e Desenvolvimento da África Oriental e Austral, conhecido como TDB, embora a Trafigura ainda mantenha uma exposição significativa, de acordo com as fontes.
Chemaf tem uma relação de longa data com a Trafigura que remonta a mais de 15 anos. Shiraz Virji, fundador e presidente da empresa, começou a vender produtos farmacêuticos da Índia para o Congo na década de 1980, quando ainda se chamava Zaire. Ele adquiriu suas primeiras concessões de mineração no Congo em 2001, de acordo com o site da Chemaf, em uma onda de privatizações depois que o ex-presidente Joseph Kabila chegou ao poder.
O acordo de US$ 600 milhões de dólares para construir uma mina “totalmente mecanizada” está focado em um local que há anos é escavado à mão no que é conhecido como mineração artesanal. A Trafigura e a Chemaf iniciaram um projecto-piloto em 2018 para melhorar as condições de segurança dos mineiros artesanais que trabalham em Mutoshi, mas abandonaram-no em 2020, quando o governo congolês criou um monopólio controlado pelo Estado na venda de cobalto cavado à mão.
O cronograma do projecto já havia começado a derrapar no ano passado. Quando a Trafigura anunciou pela primeira vez o empréstimo de US$ 600 milhões de dólares em Janeiro passado, afirmando, na altura, que a mina de Mutoshi começaria a produzir no terceiro trimestre de 2023. Em Novembro, quando foi anunciada a concessão do empréstimo, o início previsto da produção foi adiado para o quarto trimestre de 2023. Agora, não se espera que seja concluído este ano, afirmam as fontes.
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