
Areias Pesadas De Chibuto: Mais De 100 Mil Toneladas Retidas Após Três Meses De Paralisação
- Dingsheng Minerals permanece impedida de retomar plenamente a produção e exportar o minério acumulado, num bloqueio que combina danos provocados pelas cheias e por um incêndio, recuperação incompleta do abastecimento de água, licenciamento pendente e reincidência no incumprimento das normas laborais
- Mais de 100 mil toneladas de produtos minerais permanecem retidas nas instalações da Dingsheng Minerals, em Gaza;
- A actividade está suspensa há cerca de três meses, após danos causados pelas cheias e por um incêndio que atingiu cinco unidades de produção;
- A exportação aguarda a conclusão do licenciamento e a aquisição de dois equipamentos considerados essenciais;
- A retoma também exige a recuperação do sistema de abastecimento de água às unidades industriais;
- A empresa foi multada em cerca de 285 mil meticais por incumprimento das normas de segurança e falta de equipamentos de protecção individual;
- A Dingsheng continua a pagar salários durante a paralisação, segundo as autoridades provinciais;
- O projecto foi avaliado em 700 milhões de dólares e possui capacidade instalada para processar aproximadamente 10 mil toneladas de minerais por dia;
- A paralisação compromete exportações, receitas fiscais, actividade logística, emprego e o aproveitamento económico de uma das maiores operações de areias pesadas do País.
Mais de 100 mil toneladas de produtos minerais permanecem retidas nas instalações da Dingsheng Minerals, no distrito de Chibuto, província de Gaza, enquanto a empresa continua sem autorização para retomar plenamente as operações e exportar o material acumulado.
A paralisação prolonga-se há cerca de três meses e resulta de uma combinação de problemas físicos, operacionais, regulatórios e laborais. As cheias danificaram infra-estruturas essenciais, um incêndio afectou cinco unidades de produção e o sistema de abastecimento de água às fábricas ainda não foi integralmente recuperado.
O secretário de Estado na província de Gaza, Jaime Neto, confirmou que o minério se encontra armazenado na zona de expedição, aguardando a conclusão do licenciamento necessário para sair do País.
“Neste momento, na doca, temos cerca de 100 mil toneladas de produtos da mineração que aguardam exportação, mas o licenciamento ainda não está concluído”, declarou o governante, citado pelo jornal O País.
Segundo as autoridades, a autorização também está condicionada à aquisição de dois equipamentos considerados essenciais para o funcionamento da infra-estrutura de exportação. Entretanto, está a ser preparada a instalação permanente de serviços da Autoridade Tributária, Alfândegas, Migração e Polícia da República de Moçambique, destinados a assegurar o controlo das operações.
Uma Operação De 700 Milhões De Dólares Parcialmente Imobilizada
A dimensão da paralisação torna-se mais significativa quando comparada com a capacidade e o volume de investimento do projecto.
A unidade da Dingsheng Minerals, inaugurada em Dezembro de 2022, foi avaliada em cerca de 700 milhões de dólares. Ocupa aproximadamente três mil hectares e foi concebida com duas linhas principais capazes de processar, em conjunto, cerca de 10 mil toneladas de minerais por dia, predominantemente minérios de titânio.
A operação concentra-se em minerais pesados como ilmenite, zircão e rutilo. A ilmenite e o rutilo são fontes de titânio utilizadas na produção de pigmentos, metais, revestimentos, eléctrodos e diversos produtos industriais. O zircão possui aplicações importantes nas indústrias de cerâmica, fundição e materiais refractários.
Considerando apenas a capacidade nominal de 10 mil toneladas por dia, o stock actualmente retido equivale a aproximadamente dez dias de processamento da fábrica. Trata-se de uma comparação indicativa, uma vez que as 100 mil toneladas já se encontram produzidas e não correspondem necessariamente à capacidade efectivamente utilizada antes da paralisação.
O problema económico ultrapassa, portanto, o volume armazenado. Inclui a produção que deixou de ocorrer durante três meses, o capital imobilizado no minério sem possibilidade de exportação, os custos de manutenção, o pagamento de salários, a reparação das instalações e as receitas que não foram realizadas.
Cheias E Incêndio Expõem Fragilidade Da Continuidade Operacional
A primeira interrupção das operações foi associada aos danos provocados pelas cheias, que afectaram infra-estruturas e o abastecimento de água utilizado no processamento industrial.
Posteriormente, um incêndio atingiu uma das principais áreas da fábrica. Informações divulgadas no final de Dezembro de 2025 indicaram que o fogo começou durante trabalhos de soldadura realizados numa unidade de processamento.
As fontes mais recentes referem que cinco unidades de produção foram afectadas. A retoma integral permanece condicionada à reparação das instalações danificadas e à recuperação do sistema de água, sem o qual não é possível assegurar o funcionamento regular das fábricas.
A sucessão de cheias e incêndio coloca a gestão de risco industrial no centro da discussão. Um empreendimento desta dimensão necessita de planos de continuidade, redundância no abastecimento de água e energia, sistemas de prevenção e resposta a incêndios, manutenção preventiva e protocolos rigorosos para trabalhos de risco.
A existência do recurso mineral e da capacidade instalada não garante, isoladamente, uma produção contínua. A competitividade depende da capacidade de reduzir interrupções, proteger trabalhadores e equipamentos e restabelecer rapidamente as operações após eventos adversos.
Licenciamento Condiciona Conversão Do Minério Em Receita
O minério acumulado possui valor económico potencial, mas não gera receitas de exportação enquanto permanecer armazenado.
A conclusão do licenciamento é necessária para que as autoridades verifiquem a natureza, quantidade, valor e destino da carga, assegurem a aplicação das obrigações fiscais e acompanhem os fluxos físicos e financeiros da operação.
A anunciada entrada da Autoridade Tributária, Alfândegas, Migração e Polícia no local demonstra que a infra-estrutura de exportação ainda está a completar a sua arquitectura institucional e de controlo.
A fiscalização não deve ser tratada apenas como obstáculo administrativo. Num sector baseado em recursos naturais não renováveis, o Estado precisa de confirmar os volumes extraídos e exportados, assegurar a cobrança de impostos e royalties, prevenir a saída irregular de minerais e produzir estatísticas fiáveis.
Ao mesmo tempo, processos de licenciamento prolongados podem transformar-se num custo económico quando os requisitos não são claramente antecipados, as instituições não actuam de forma coordenada ou as infra-estruturas entram em funcionamento antes da conclusão dos mecanismos de controlo.
A situação em Chibuto revela, assim, um problema de sequenciamento. A capacidade de extracção e processamento avançou mais rapidamente do que a consolidação das condições operacionais e administrativas necessárias para assegurar exportações regulares.
Atrasos No Escoamento Não Começaram Com A Actual Paralisação
A retenção actual não constitui o primeiro constrangimento enfrentado pela Dingsheng Minerals para colocar os seus produtos no mercado externo.
Em Dezembro de 2024, atrasos na conclusão da infra-estrutura portuária de Chongoene já tinham impedido o escoamento de cerca de 270 mil toneladas de minerais processados em Chibuto. O calendário foi revisto para Fevereiro de 2025 devido a dificuldades registadas nas obras e na preparação da operação portuária. (
Antes disso, em 2023, foram igualmente reportadas dificuldades para exportar cerca de 400 mil toneladas de minerais de titânio destinadas ao mercado asiático.
A repetição do bloqueio ao escoamento mostra que a cadeia de valor continua vulnerável no ponto que liga a produção ao comércio internacional.
Uma mina pode extrair e processar grandes volumes, mas o investimento só realiza o seu valor quando o produto é transportado, embarcado, entregue ao comprador e pago. Portos, estradas, equipamentos de carga, licenças, serviços aduaneiros, seguros e contratos marítimos são, por isso, componentes produtivas do projecto e não simples actividades auxiliares.
A instalação portuária de Chongoene foi concebida para permitir o escoamento das areias pesadas de Chibuto e, no futuro, receber minerais provenientes de outros pontos de Gaza. As estimativas divulgadas durante o desenvolvimento da infra-estrutura apontavam para uma capacidade inicial de movimentação de 20 mil toneladas por dia, com possibilidade de aumento.
Reincidência Laboral Agrava O Quadro Operacional
A Dingsheng Minerals também permanece sob fiscalização por alegado incumprimento da legislação laboral, particularmente no domínio da saúde e segurança no trabalho.
O director dos Serviços de Controlo do Trabalho em Gaza, Ariel Comé, revelou que a mineradora foi multada em aproximadamente 285 mil meticais no ano passado, devido à falta de equipamentos de protecção individual para os trabalhadores.
“É uma empresa basicamente reincidente nessas situações todas, mas estamos a intervir para resolver essa situação”, afirmou o responsável.
As autoridades reconhecem que foram registadas melhorias graduais depois das intervenções efectuadas, mas mantêm a classificação de reincidência e pretendem assegurar uma presença fiscalizadora mais regular no empreendimento.
Em Novembro de 2025, mais de 700 trabalhadores paralisaram as actividades, reivindicando salários considerados justos, contratos adequados e melhores condições de segurança. Os trabalhadores denunciaram, entre outros aspectos, a ausência de equipamentos básicos de protecção.
A continuidade destas queixas mostra que as relações laborais não podem ser separadas do desempenho económico da mina. Acidentes, greves, rotatividade, conflitos e baixa confiança entre trabalhadores e administração reduzem a produtividade e aumentam o risco de novas interrupções.
Num projecto extractivo de grande escala, segurança laboral e rentabilidade não são objectivos contraditórios. Equipamentos de protecção, formação, manutenção e supervisão reduzem acidentes, evitam paralisações e protegem o valor do investimento.
Pagamento De Salários Evita Uma Ruptura Social Imediata
Apesar da suspensão da produção, as autoridades provinciais afirmam que a empresa continua a pagar os salários dos trabalhadores.
Este aspecto reduz o impacto social imediato da paralisação sobre as famílias dependentes do empreendimento e sobre a economia local.
A manutenção das remunerações, porém, representa um custo crescente para a empresa enquanto não houver produção e exportações. Quanto mais prolongada for a interrupção, maior será a pressão para reduzir despesas, renegociar contratos ou diminuir a força de trabalho.
A retoma assume, por isso, importância não apenas para a Dingsheng, mas também para trabalhadores, fornecedores, transportadores, pequenos negócios locais e serviços públicos que beneficiam directa ou indirectamente da actividade mineira.
Chibuto Tem Uma Participação Ainda Limitada Nas Receitas Distribuídas
Na inauguração do projecto, as projecções oficiais indicavam que a operação poderia contribuir anualmente com cerca de 36 milhões de dólares em impostos e mais de oito milhões de dólares em royalties ao longo da sua vida útil.
Os resultados efectivos dependem, contudo, do ritmo de produção, volumes exportados, preços internacionais, estrutura de custos, benefícios fiscais e cumprimento das obrigações tributárias.
O Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2026 prevê, para a localidade de Chibuto, uma base de Imposto sobre a Produção Mineira de cerca de 22,68 milhões de meticais associada às areias pesadas. Deste montante, aproximadamente 625 mil meticais correspondem à parcela de 2,75% destinada às comunidades locais.
O valor previsto para as comunidades é reduzido quando comparado com a dimensão do investimento e com as expectativas iniciais de receitas do projecto. A diferença pode reflectir o nível efectivo de produção e tributação, a fase operacional do empreendimento ou os critérios utilizados na programação orçamental.
A paralisação prolongada tende a reduzir ainda mais a capacidade de gerar impostos, royalties e recursos destinados ao desenvolvimento local.
Paralisação Atinge Uma Cadeia Relevante Para As Exportações
As areias pesadas integram o grupo de produtos minerais que contribui para as exportações de Moçambique e para o abastecimento de matérias-primas utilizadas pela indústria internacional.
O Banco de Moçambique identifica a China entre os principais destinos dos minerais de titânio e das areias pesadas exportados pelo País. As estatísticas da balança de pagamentos mostram que estes produtos mantêm importância no comércio com o mercado asiático.
O Instituto Nacional de Estatística indica que Moçambique produziu, em 2024, cerca de 3,51 milhões de toneladas de ilmenite, 123,7 mil toneladas de zircão e 4,5 mil toneladas de rutilo. Os dados abrangem a produção nacional e não apenas a operação de Chibuto.
O Ministério dos Recursos Minerais e Energia considera a indústria extractiva estratégica para o crescimento, exportações e arrecadação de receitas, embora reconheça que o sector continua sujeito a choques climáticos, variações dos preços e constrangimentos operacionais.
A interrupção da Dingsheng não paralisará, por si só, toda a produção nacional de areias pesadas, que inclui operações noutras províncias. Todavia, reduz a contribuição de Gaza e impede que um investimento de elevada dimensão alcance a produção e exportação previstas.
Retoma Deve Integrar Produção, Fiscalização E Responsabilidade Empresarial
A solução não passa por escolher entre acelerar as exportações e cumprir os requisitos legais. As duas dimensões são necessárias.
As autoridades devem concluir, com clareza e previsibilidade, os procedimentos de licenciamento, instalar os serviços de controlo e assegurar que os equipamentos de exportação cumprem as exigências técnicas.
A empresa, por sua vez, deve recuperar o abastecimento de água, reparar as unidades afectadas, demonstrar condições de segurança industrial e laboral e apresentar um plano credível de prevenção de novos incidentes.
A retoma sem estas condições poderia produzir novas paralisações, acidentes ou conflitos. A manutenção indefinida do bloqueio também gera perdas para o Estado, trabalhadores e economia local.
Na perspectiva do O.Económico, o caso de Chibuto mostra que o aproveitamento dos recursos minerais exige uma cadeia institucional e operacional completa. Investimento, reservas e capacidade fabril perdem valor quando a logística não funciona, as licenças permanecem pendentes e a conformidade laboral é tratada apenas após a intervenção das autoridades.
As mais de 100 mil toneladas retidas são, por isso, mais do que um problema de armazenamento. Representam capital imobilizado, exportações adiadas, receitas fiscais suspensas e uma oportunidade de desenvolvimento local que continua por concretizar.
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