Transição Energética Global Perde Ritmo Com Segurança, Financiamento E Infra-Estruturas Sob Pressão

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  • Relatório do Fórum Económico Mundial mostra que o investimento em energia atingiu 3,3 biliões de dólares em 2025, mas alerta que a prontidão para sustentar a transição caiu pela primeira vez em mais de uma década; Moçambique ocupa a 114.ª posição entre 120 países avaliados

Questões-Chave

  • O Energy Transition Index 2026 avalia 120 países com base em 44 indicadores.
  • O progresso global da transição energética praticamente estagnou em 2026, com uma melhoria média de apenas 0,03%.
  • A prontidão para a transição caiu 0,76%, a primeira queda em mais de uma década.
  • O investimento global em energia atingiu 3,3 biliões de dólares em 2025, dos quais 2,3 biliões foram direccionados para energia limpa.
  • As renováveis e a energia nuclear representaram 42% da geração eléctrica global em 2025.
  • Moçambique surge na 114.ª posição, com uma pontuação de 46,1 no índice geral, 58,0 em desempenho do sistema energético e 28,4 em prontidão para a transição.

A transição energética global continua a avançar, mas está a perder ritmo, a tornar-se mais desigual e a enfrentar constrangimentos crescentes nas áreas de segurança energética, financiamento, infra-estruturas, regulação e capacidade de execução. Esta é uma das principais conclusões do Energy Transition Index 2026, publicado pelo World Economic Forum, em colaboração com a Accenture.

O relatório mostra uma aparente contradição. Por um lado, os números globais continuam expressivos: o investimento total em energia atingiu 3,3 biliões de dólares em 2025, o investimento em energia limpa chegou a 2,3 biliões de dólares, a capacidade renovável aumentou em quase 800 gigawatts e as fontes renováveis e nuclear responderam por 42% da geração eléctrica mundial.

Por outro lado, estes avanços estão a ser limitados por uma deterioração das condições que permitem transformar ambição em execução. O índice global praticamente estagnou em 2026, com uma melhoria média de apenas 0,03%. O desempenho actual dos sistemas energéticos ainda registou ganhos moderados, mas a prontidão para a transição caiu 0,76%, a primeira queda em mais de uma década.

Esta diferença é essencial para compreender a mensagem do relatório. O mundo continua a instalar capacidade limpa, mas os alicerces institucionais, financeiros, regulatórios e infra-estruturais que sustentam a transição estão a enfraquecer.

Segurança Energética Volta Ao Centro Da Agenda

Segundo o World Economic Forum, a segurança energética deixou de ser apenas uma questão de disponibilidade de combustíveis. Passou a abranger redes eléctricas, minerais críticos, infra-estruturas, fiabilidade do fornecimento, resiliência dos sistemas e capacidade de absorver choques externos.

O relatório sublinha que as perturbações nos fluxos energéticos através do Estreito de Ormuz, em 2026, expuseram vulnerabilidades estruturais nos mercados globais. O choque reforçou a pressão sobre economias importadoras, sobretudo emergentes, que enfrentam simultaneamente desafios de acesso à energia, preços acessíveis e necessidade de investimento na transição.

A segurança foi a única dimensão do desempenho dos sistemas energéticos a recuar em 2026, com uma queda de 0,9%. A deterioração foi explicada sobretudo por pressões sobre a fiabilidade dos sistemas eléctricos, que caiu 3%, e por condições mais frágeis do lado da oferta.

Esta leitura é particularmente importante para países em desenvolvimento. A transição energética já não pode ser pensada apenas como substituição de fontes fósseis por fontes limpas. Tem de ser também uma agenda de segurança, resiliência, diversificação, infra-estrutura e capacidade de resposta a crises.

Investimento Existe, Mas Está Concentrado

O relatório mostra que o problema global não é apenas a falta de capital. O investimento existe, mas continua excessivamente concentrado em poucos mercados. Cerca de 75% do investimento em energia limpa continua a fluir para um número limitado de economias, enquanto os países que deverão representar grande parte do crescimento futuro da procura eléctrica enfrentam custos de financiamento duas a três vezes superiores aos das economias avançadas.

Esta assimetria é uma das principais barreiras à transição nos países emergentes e em desenvolvimento. O relatório estima que cerca de 80% do crescimento futuro da procura de electricidade virá destes mercados, mas são precisamente estes países que enfrentam maiores dificuldades para mobilizar capital, expandir redes, reforçar infra-estruturas e acelerar projectos de energia limpa.

A prontidão para a transição caiu em quatro das cinco dimensões avaliadas. A área de financiamento e investimento registou a maior deterioração, com uma queda de 1,8%. A regulação e o compromisso político recuaram 1,2%, enquanto a inovação caiu 1,1%. A infra-estrutura teve uma queda ligeira, de 0,2%, mas o relatório alerta que esta variação esconde um problema estrutural mais profundo: mais de 2.500 gigawatts de projectos estão à espera de ligação às redes eléctricas em todo o mundo.

Isto significa que a transição já não depende apenas da capacidade de produzir energia renovável. Depende cada vez mais da capacidade de integrar essa energia nos sistemas eléctricos, reforçar redes, melhorar armazenamento, acelerar licenciamento e criar condições regulatórias previsíveis.

Procura Eléctrica Cresce Mais Depressa Do Que Os Sistemas

A pressão sobre os sistemas energéticos é agravada pelo rápido crescimento da procura de electricidade. O relatório destaca que a procura eléctrica global cresceu 4,4% em 2024 e mais 3% em 2025, impulsionada pela electrificação, arrefecimento, infra-estrutura digital, centros de dados, inteligência artificial e crescimento económico.

A digitalização surge como novo factor de pressão. O investimento global em inteligência artificial atingiu 1,5 biliões de dólares em 2025, enquanto o consumo de electricidade dos centros de dados rondou 486 terawatt-hora. Este consumo poderá aproximar-se de 945 terawatt-hora até 2030 e ultrapassar 1.700 terawatt-hora em cenários de maior crescimento até 2035.

Esta tendência altera a lógica da transição. A questão já não é apenas produzir energia mais limpa, mas garantir que os sistemas eléctricos consigam responder a uma procura crescente, mais volátil e mais exigente em termos de fiabilidade.

Ao mesmo tempo, a expansão da energia limpa ainda não está a substituir os combustíveis fósseis à velocidade necessária. O relatório observa que o sistema energético global está, neste momento, mais numa fase de adição do que de substituição: a capacidade renovável cresce, mas a procura por petróleo, gás e carvão permanece elevada.

Minerais Críticos E Geopolítica Da Transição

A transição energética está também a ser condicionada pela concentração das cadeias de minerais críticos. O relatório refere que, em materiais como cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras, os três maiores produtores concentram cerca de 86% da oferta. Mais de metade dos minerais relevantes para a transição energética está sujeita a controlos de exportação.

Este dado confirma que a transição energética é hoje também uma disputa geoeconómica. Os minerais críticos tornaram-se activos estratégicos para baterias, redes eléctricas, veículos eléctricos, armazenamento, energias renováveis e tecnologias industriais de baixo carbono.

Para países africanos com recursos minerais, esta tendência representa uma oportunidade e um risco. A oportunidade está em captar investimento, desenvolver cadeias de valor, criar emprego e ganhar relevância estratégica. O risco é continuar a exportar matérias-primas sem transformação local, repetindo padrões históricos de baixa captura de valor.

África Subsaariana Melhora, Mas Ainda Parte De Uma Base Baixa

A África Subsaariana foi a região com maior melhoria no índice em 2026, com uma subida média de 1,2%. Segundo o relatório, o progresso foi sustentado por ganhos tanto no desempenho dos sistemas energéticos como na prontidão para a transição, com destaque para educação, inovação e investimento financeiro.

Ainda assim, a região continua a enfrentar constrangimentos estruturais relevantes. A pontuação média da África Subsaariana foi de 50,10, abaixo da média global de 57,3. O desempenho do sistema energético regional ficou em 58,40, mas a prontidão para a transição situou-se em apenas 37,66.

A região apresenta uma pontuação relativamente forte em sustentabilidade, com 62,26, beneficiando em muitos casos de menor intensidade carbónica e presença de recursos hídricos e renováveis. Contudo, continua penalizada por baixos níveis de acesso, subinvestimento, limitações de infra-estrutura, fragilidade regulatória e menor capacidade de mobilização de financiamento.

Esta combinação mostra que a África Subsaariana tem potencial de transição, mas precisa de investimento estruturante, redes eléctricas mais robustas, soluções descentralizadas, mecanismos de financiamento acessíveis e políticas públicas capazes de ligar energia a industrialização, agricultura, mineração, serviços e inclusão económica.

Moçambique Ocupa A 114.ª Posição

Moçambique surge na 114.ª posição entre os 120 países avaliados no Energy Transition Index 2026. O país obteve uma pontuação geral de 46,1, abaixo da média global de 57,3 e também abaixo da média da África Subsaariana.

A leitura dos subíndices ajuda a perceber o desafio. Moçambique tem uma pontuação de 58,0 em desempenho do sistema energético, mas apenas 28,4 em prontidão para a transição. Ou seja, o país apresenta algum desempenho em dimensões actuais do sistema, mas enfrenta limitações significativas nas condições que permitem sustentar e acelerar a transição no futuro.

Este diferencial é particularmente relevante. A transição energética de Moçambique não depende apenas da existência de recursos naturais, incluindo gás, hidroenergia, potencial solar, eólico e biomassa. Depende da capacidade de transformar estes recursos em acesso universal, energia fiável, infra-estrutura resiliente, investimento competitivo, regulação previsível, capital humano e integração produtiva.

A posição de Moçambique no índice deve ser lida à luz dos desafios nacionais de electrificação, financiamento, cobertura territorial, qualidade da rede, resiliência climática e capacidade institucional de execução. O país tem metas ambiciosas de acesso universal à electricidade até 2030, mas o próprio sector reconhece que este objectivo exige mobilização contínua de financiamento, estabilidade macroeconómica, capacidade de execução e mitigação de riscos climáticos.

Oportunidade Moçambicana Está Na Execução

Moçambique encontra-se numa posição paradoxal. É um país com potencial energético relevante, projectos de gás natural de escala global, recursos renováveis significativos e uma agenda nacional de expansão do acesso à electricidade. Porém, a sua baixa pontuação em prontidão para a transição mostra que o potencial ainda não se converteu plenamente em capacidade sistémica.

O relatório do World Economic Forum sugere que países com melhores resultados são aqueles que conseguem alinhar política pública, investimento, infra-estrutura, inovação e capacidade institucional. Para Moçambique, isto implica tratar a transição energética como uma agenda de desenvolvimento económico, e não apenas como uma agenda ambiental ou sectorial.

O acesso à energia deve ser ligado à industrialização, à transformação agrícola, à mineração, às pequenas e médias empresas, ao desenvolvimento rural, à educação, à saúde e à competitividade territorial. A energia só se transforma em desenvolvimento quando chega às famílias, às empresas, aos serviços públicos e aos centros produtivos com qualidade, previsibilidade e custo compatível.

Três Prioridades Para A Próxima Fase

O relatório identifica três prioridades para sustentar a próxima fase da transição energética global. A primeira é reforçar segurança, acessibilidade e resiliência, reconhecendo que sistemas frágeis não conseguem sustentar transições duradouras. A segunda é desbloquear a execução, sobretudo através de infra-estruturas, redes, armazenamento, licenciamento e integração de projectos. A terceira é aumentar a investibilidade, com políticas estáveis, regulação credível e melhor partilha de riscos.

Estas prioridades têm aplicação directa em Moçambique. O país precisa de acelerar a electrificação, mas também de garantir qualidade do fornecimento. Precisa de atrair investimento, mas também de reduzir riscos regulatórios e financeiros. Precisa de expandir renováveis, mas também de reforçar redes e capacidade de integração. Precisa de usar o gás natural como activo económico, mas sem perder de vista a diversificação energética e a sustentabilidade de longo prazo.

O Energy Transition Index 2026 deixa, assim, uma mensagem clara: a transição energética não está a recuar, mas está a tornar-se mais difícil, mais fragmentada e mais competitiva. Para países como Moçambique, o desafio é transformar recursos e ambição em capacidade de execução.

A energia será cada vez mais um factor de competitividade económica, segurança nacional, inclusão social e posicionamento geopolítico. Neste novo contexto, a pergunta decisiva já não é apenas quem tem recursos energéticos, mas quem consegue mobilizá-los de forma segura, sustentável, acessível e produtiva.