
Lucro Do BNI Mais Do Que Duplica Em 2025 Com Reforço Da Solidez, Menos Crédito Malparado E Maior Apoio À Economia
- Banco estatal registou resultado líquido de 161 milhões de meticais, reduziu o rácio de crédito em incumprimento para 7,35% e financiou projectos de investimento no valor de 2,9 mil milhões de meticais
Questões-Chave
- O Banco Nacional de Investimento registou lucro líquido de 161,02 milhões de meticais em 2025, um crescimento de 138% face a 2024.
- O rácio de crédito em incumprimento caiu de 18,30% para 7,35%, aproximando-se do nível convencional de referência de 5%.
- O rácio de solvabilidade regulamentar subiu para 36,45%, acima dos mínimos regulamentares e da média do sector bancário.
- O banco financiou projectos de investimento no valor de 2,9 mil milhões de meticais, mais 61% do que no ano anterior.
- O apoio às pequenas e médias empresas atingiu 404,2 milhões de meticais, com destaque para gás natural veicular e empreendedorismo feminino.
- As garantias bancárias emitidas ascenderam a 3,87 mil milhões de meticais, reforçando o papel do BNI na viabilização de projectos estratégicos.
O Banco Nacional de Investimento fechou 2025 com uma recuperação expressiva dos resultados, num exercício marcado por melhoria da qualidade da carteira de crédito, reforço dos indicadores de capital, racionalização de custos e maior intervenção no financiamento de sectores produtivos da economia moçambicana.
De acordo com o Relatório e Contas 2025, citado também pela Lusa, o banco estatal registou um lucro líquido de 161,02 milhões de meticais, equivalente a cerca de 2,1 milhões de euros, o que representa um crescimento de 138% face aos 67,55 milhões de meticais registados em 2024. A evolução contrasta com o desempenho do exercício anterior, quando o banco tinha reportado uma quebra significativa dos lucros.
Na mensagem incluída no relatório, o Presidente da Comissão Executiva do BNI, Abdul Jivane, atribui o desempenho à solidez da estratégia, à disciplina na gestão de risco e à confiança dos clientes e parceiros. O gestor sublinha que, num contexto económico desafiante, caracterizado por crescimento moderado, pressões cambiais e níveis elevados de dívida pública, o banco preservou a estabilidade, reforçou a presença no mercado e continuou a gerar valor de forma sustentada.
Resultado Apoiado Por Margem Complementar E Eficiência
O desempenho de 2025 foi influenciado por uma forte expansão da margem complementar, que quase quadruplicou, reflectindo sobretudo a mais-valia resultante da alienação da participação financeira do BNI no capital do TDB Bank, bem como o maior dinamismo das operações financeiras.
O produto bancário cresceu 30%, atingindo 1,6 mil milhões de meticais, contra 1,24 mil milhões de meticais em 2024. A margem complementar passou a representar 54% do produto bancário, acima dos 16% registados no ano anterior, superando a margem financeira, que caiu 30% para 735,7 milhões de meticais.
Esta alteração na composição das receitas mostra que o resultado líquido de 2025 não decorreu apenas da actividade tradicional de intermediação financeira. O banco beneficiou de ganhos extraordinários e de operações financeiras, num contexto em que a redução gradual das taxas de juro de mercado pressionou a rentabilidade dos activos financeiros.
Ao mesmo tempo, o BNI prosseguiu medidas de racionalização de custos. Os custos operacionais reduziram 7%, contribuindo para uma melhoria do rácio de eficiência, que passou de 54% em 2024 para 39% em 2025. Esta evolução indica maior capacidade de gerar receitas com uma estrutura de custos mais controlada.
Crédito Malparado Cai De Forma Expressiva
Um dos indicadores mais relevantes do exercício foi a melhoria da qualidade da carteira de crédito. O rácio regulamentar de crédito em incumprimento caiu de 18,30% em 2024 para 7,35% em 2025. Em 2023, este indicador tinha estado em 43,98%, o que mostra uma trajectória de forte correcção nos últimos dois anos.
Segundo o relatório, a melhoria resultou de um quadro reforçado de gestão de crédito, com mecanismos mais rigorosos de análise, monitoria e mitigação de riscos. O banco indica ainda que o rácio de crédito vencido até 90 dias reduziu de 6,10% em 2024 para 3,81% em 2025.
Para 2026, o BNI assume como objectivo consolidar esta tendência, com a ambição de reduzir o rácio de crédito em incumprimento para níveis inferiores a 5%. Esta meta é importante porque a qualidade da carteira continua a ser um dos principais factores de confiança para bancos de desenvolvimento, sobretudo num contexto em que a economia permanece condicionada por riscos fiscais, dívida pública elevada e recuperação ainda gradual do sector privado.
Solvabilidade Acima Da Média Do Sector
A melhoria da carteira foi acompanhada pelo reforço dos indicadores de capital. O rácio de solvabilidade regulamentar subiu para 36,45%, acima do mínimo regulamentar e também acima da média do sector bancário, estimada no relatório em cerca de 26%.
Os fundos próprios regulamentares cresceram 8%, fixando-se em 3,29 mil milhões de meticais, enquanto os capitais próprios totalizaram 4,14 mil milhões de meticais, um crescimento de 7% face ao exercício anterior.
Este reforço é particularmente relevante porque o BNI opera como banco de desenvolvimento e investimento, com mandato orientado para o financiamento de projectos estruturantes e sectores produtivos. A capacidade de preservar solvabilidade elevada aumenta a margem para apoiar novos investimentos, desde que a expansão do crédito seja feita com controlo rigoroso de risco.
A proposta de aplicação de resultados também reflecte esta preocupação prudencial. O Conselho de Administração propõe a retenção de 35% dos resultados líquidos em resultados transitados, após reserva legal de 30%, e a distribuição de dividendos ao accionista no valor de 56,36 milhões de meticais, correspondentes a 35% dos resultados.
BNI Aumenta Financiamento À Economia
Para além dos indicadores financeiros, o relatório procura sublinhar o papel do BNI como instrumento financeiro do Governo e como banco vocacionado para apoiar sectores estratégicos. Em 2025, o banco financiou projectos de investimento no valor global de 2,9 mil milhões de meticais, um aumento de 61% face aos 1,8 mil milhões de meticais registados no ano anterior.
Os sectores apoiados incluem indústria alimentar, combustíveis e energia, indústria extractiva, sector financeiro, comércio, transporte e logística e construção civil. O objectivo declarado é reforçar a capacidade produtiva nacional, valorizar cadeias de valor, reduzir importações, aumentar exportações e gerar emprego.
A indústria alimentar recebeu apoio financeiro de 1,05 mil milhões de meticais, direccionado ao processamento, transformação e comercialização de produtos alimentares para os mercados interno e externo. O banco destaca que este financiamento contribui para reforçar a capacidade produtiva, valorizar a cadeia agroalimentar e fortalecer a segurança alimentar.
No sector de combustíveis e energia, o BNI refere apoio de 196 milhões de meticais para importação, armazenamento e distribuição de combustíveis, bem como financiamento de 281,06 milhões de meticais para quatro projectos ligados à promoção do gás natural veicular, incluindo construção de bombas de abastecimento e conversão de veículos.
Garantias Bancárias Reforçam Papel Na Execução De Projectos
O banco também ampliou a sua actuação através de crédito por assinatura. Em 2025, emitiu garantias bancárias no valor de 3,87 mil milhões de meticais, contra 2,30 mil milhões de meticais em 2024, um crescimento de 68,26%.
Estas garantias foram usadas para mitigar riscos associados à importação de commodities e à execução de projectos estratégicos, sobretudo nos sectores de combustíveis, construção e indústria extractiva. No sector de combustíveis, por exemplo, as garantias bancárias ascenderam a 983,03 milhões de meticais, assegurando o fornecimento ao mercado nacional. Na indústria extractiva, as garantias atingiram 742,74 milhões de meticais.
Este tipo de instrumento é relevante porque, em economias com restrições de liquidez e custos elevados de financiamento, as garantias bancárias podem desbloquear operações essenciais, facilitar importações, reduzir risco de contraparte e viabilizar projectos cuja execução depende de confiança financeira.
Apoio Às PME Mantém Prioridade
O apoio às pequenas e médias empresas manteve-se como uma das prioridades do BNI. Através de linhas de crédito específicas, incluindo o Fundo Sasol e o Fundo Mulher, o banco disponibilizou 404,2 milhões de meticais para financiar projectos ajustados aos ciclos de investimento das empresas.
O relatório destaca duas frentes principais: a promoção do gás natural veicular e o empreendedorismo feminino. Esta orientação permite ligar a actividade do BNI a objectivos de inovação, inclusão económica, sustentabilidade ambiental e criação de emprego.
Mais do que uma linha de apoio pontual, este tipo de financiamento tem relevância estratégica num mercado em que muitas PME continuam a enfrentar dificuldades de acesso ao crédito, custos financeiros elevados, limitações de garantias e baixa capacidade de estruturação de projectos bancáveis.
O desafio para o BNI será transformar este apoio em impacto mensurável: empresas mais capitalizadas, maior produção, substituição de importações, geração de emprego e aumento da competitividade das cadeias de valor nacionais.
Recursos De Clientes Crescem 98%
O reforço da confiança no banco reflectiu-se também no crescimento dos recursos de clientes. Segundo o relatório, a carteira de recursos de clientes aumentou 98%, atingindo 6,76 mil milhões de meticais em 2025, contra 3,42 mil milhões de meticais em 2024.
Os recursos provenientes de outras instituições de crédito cresceram 22%, totalizando 1,53 mil milhões de meticais. O BNI mobilizou ainda uma facilidade de financiamento junto do Trade and Development Bank, no valor de 7,5 milhões de dólares, destinada ao financiamento de projectos estratégicos de investimento.
Estes dados mostram que o banco conseguiu reforçar a sua base de funding num ano desafiante para o sistema financeiro. A captação de recursos é um elemento crítico para um banco de desenvolvimento, sobretudo quando o objectivo é financiar projectos de médio e longo prazo, que exigem fontes de financiamento mais estáveis e compatíveis com ciclos longos de maturação.
Contexto Macroeconómico Continuou Adverso
O desempenho positivo do BNI ocorreu num ambiente macroeconómico particularmente exigente. O relatório indica que a economia moçambicana contraiu 0,5% em 2025, depois de crescer 2,1% em 2024, reflectindo o impacto das manifestações pós-eleitorais, a manutenção de condições monetárias ainda restritivas e a escassez de divisas.
Sectores como electricidade e água, comércio, transportes e comunicações e indústria transformadora registaram contracções. Em sentido contrário, a indústria extractiva cresceu 6,04%, impulsionada pelo aumento da produção e dos preços do gás natural liquefeito, sobretudo no âmbito do projecto Coral Sul FLNG.
O sector bancário também enfrentou pressões relevantes. A deterioração do risco de dívida soberana obrigou as instituições financeiras a reforçarem imparidades, de acordo com a NIRF 9. No caso do BNI, as imparidades aumentaram 107%, de 352 milhões de meticais em 2024 para cerca de 730 milhões de meticais em 2025.
Este dado é importante para equilibrar a leitura dos resultados. O lucro cresceu de forma expressiva, mas o banco operou num contexto de maior risco soberano, pressão sobre margens financeiras e necessidade de reforço prudencial.
Novos Produtos E Maior Proximidade Comercial
Em 2025, o BNI lançou quatro novos produtos: Internet Banking, Leasing Operacional, Desconto de Facturas e Descoberto Autorizado. Segundo o relatório, estes produtos procuram reforçar a conveniência, a flexibilidade e o acesso a soluções financeiras ajustadas às necessidades dos clientes.
A base de clientes activos cresceu de 563 em 2024 para 610 em 2025, reflectindo maior proximidade comercial e uma oferta mais diversificada. O banco intensificou campanhas comerciais nas principais praças do país, incluindo Maputo, Beira, Nampula e Nacala, mesmo em regiões onde ainda não dispõe de representação física.
Este movimento indica uma tentativa de reposicionar o BNI não apenas como banco de projectos estruturantes, mas também como parceiro financeiro mais próximo das empresas, com maior capacidade de oferecer soluções personalizadas.
Banco Estatal Com Mandato De Desenvolvimento
O BNI foi constituído em 14 de Junho de 2010 como banco moçambicano de desenvolvimento e investimento, vocacionado para financiar projectos que promovam inovação, dinamizem o sector empresarial e contribuam para o desenvolvimento sustentável do país. É detido a 100% pelo Estado moçambicano, através do Instituto de Gestão das Participações do Estado, com capital social de 2,24 mil milhões de meticais.
A natureza pública do banco torna a sua trajectória especialmente relevante. Num contexto em que o país procura acelerar investimento produtivo, diversificar a economia, reforçar cadeias de valor locais e melhorar a capacidade de financiamento de projectos estruturantes, o desempenho do BNI é também um indicador da capacidade do Estado de usar instrumentos financeiros especializados para apoiar o desenvolvimento.
O resultado de 2025 mostra um banco mais sólido, com melhor carteira, maior solvabilidade, maior base de clientes e maior intervenção em sectores produtivos. Mas também evidencia o desafio de consolidar esta recuperação num ambiente económico ainda frágil, marcado por restrições de crédito, risco soberano, escassez de divisas e necessidade de financiamento de longo prazo.
Consolidação Será O Teste De 2026
Para 2026, o principal teste do BNI será transformar a recuperação financeira de 2025 numa trajectória consistente de crescimento, impacto e sustentabilidade. A ambição de reduzir o crédito em incumprimento para menos de 5% será um indicador-chave dessa consolidação.
Outro desafio será expandir o financiamento à economia sem comprometer a prudência na gestão de risco. Como banco de desenvolvimento, o BNI é chamado a apoiar sectores estratégicos, mas esse mandato exige equilíbrio entre impacto económico e solidez financeira.
A evolução dos resultados mostra que o banco conseguiu melhorar indicadores essenciais num ano adverso. O passo seguinte será garantir que a rentabilidade não dependa excessivamente de ganhos extraordinários, que a margem financeira recupere de forma sustentável e que o financiamento concedido produza efeitos reais sobre a produção, o emprego, as exportações e a diversificação económica.
Em síntese, 2025 foi um ano de recuperação e reposicionamento para o BNI. O banco estatal encerrou o exercício mais lucrativo, mais eficiente, mais capitalizado e com menor crédito malparado. A questão central, agora, é saber se esta melhoria será consolidada como base para um papel mais robusto no financiamento do desenvolvimento económico de Moçambique.
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