Cheias Isolam Centenas de Famílias a Sul de Maputo e Agravam Crise Humanitária no Sul do País

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Boane e Guijá entre as zonas mais afectadas, com estradas cortadas, milhares de desalojados e alerta vermelho em vigor

Questões-Chave:
  • Centenas de famílias ficaram sitiadas no distrito de Boane, com a Estrada Nacional Número Dois (N2) cortada pelas cheias;
  • Mais de 3.000 pessoas têm casas inundadas no distrito de Guijá, província de Gaza, segundo a World Vision;
  • Governo decretou alerta vermelho nacional face ao agravamento da situação hidrológica;
  • Pelo menos 103 mortes e mais de 173 mil pessoas afectadas desde o início da época chuvosa.

As cheias provocadas pelas chuvas intensas que assolam Moçambique continuam a agravar-se, com centenas de famílias sitiadas no distrito de Boane, a cerca de 30 quilómetros a sul de Maputo, e milhares de pessoas afectadas na província de Gaza. A interrupção da Estrada Nacional Número Dois (N2) e a subida contínua das águas estão a dificultar os esforços de socorro, numa das épocas chuvosas mais severas dos últimos anos.

Boane isolada e resgates feitos por mar

No distrito de Boane, a inundação da N2 transformou a principal via de ligação para sul num ancoradouro improvisado, onde barcos da Marinha, da Protecção Civil e embarcações particulares realizam resgates contínuos. Centenas de pessoas permanecem isoladas em localidades como Mazambanine, com casas totalmente submersas e acesso limitado a bens essenciais.

Só durante a manhã de sábado, cerca de 200 pessoas foram resgatadas, incluindo uma grávida de sete meses, transportada directamente para uma unidade hospitalar. Técnicos de saúde, Cruz Vermelha e outras organizações prestam assistência imediata aos deslocados, distribuindo água, alimentos e apoio médico básico.

Necessidades humanitárias superam capacidade de resposta

Relatos no terreno apontam para mais de 400 pessoas ainda à espera de resgate em algumas zonas, num cenário descrito como de elevada ansiedade, sobretudo entre crianças. Equipas de voluntários e particulares juntaram-se às autoridades para reforçar os esforços, mas enfrentam limitações logísticas, com destaque para a escassez de combustível e meios de transporte.

Grupos como o SOS Resgate, que já haviam actuado nas cheias de 2023, regressaram ao terreno, sublinhando que a actual situação é mais grave do que a registada em anos anteriores. O trabalho de salvamento deverá prolongar-se por vários dias, dada a persistência das chuvas e a instabilidade do nível das águas.

Guijá com milhares de casas inundadas

Na província de Gaza, o distrito de Guijá enfrenta uma crise humanitária crescente. Pelo menos 3.000 pessoas têm as casas inundadas, segundo dados preliminares divulgados pela World Vision Moçambique. A localidade de Chinhacanine é apontada como a mais afectada, concentrando cerca de 2.000 pessoas desalojadas, quase metade das quais crianças.

A organização alerta que a capacidade de resposta nos centros de acomodação é limitada e que o número de afectados poderá aumentar, uma vez que se prevê a continuidade das chuvas e o risco de transbordo de barragens na região.

Alerta vermelho e impacto nacional

Face ao agravamento do quadro, o Governo decretou alerta vermelho nacional, reconhecendo a dimensão da crise. Dados oficiais indicam que, desde o início da época chuvosa, em Outubro, pelo menos 103 pessoas morreram e mais de 173 mil foram afectadas em todo o país, com 1.160 casas totalmente destruídas e mais de 4.000 parcialmente inundadas.

As autoridades continuam a apelar à evacuação preventiva das zonas de risco e à mobilização solidária, num contexto em que as cheias expõem, uma vez mais, a vulnerabilidade das infra-estruturas e das comunidades às alterações climáticas e aos fenómenos extremos.