Certificação Empresarial Um Investimento Adiado que Trava a Competitividade das PME Moçambicanas

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Apesar do papel estratégico da certificação no acesso aos megaprojectos, menos de 300 empresas cumprem normas internacionais. Falta de maturidade organizacional, fraca valorização do mercado e ausência de incentivos financeiros continuam a bloquear o processo.

Questões-Chave:
  • Certificação empresarial continua a ser excepção em Moçambique, expondo fragilidades estruturais do tecido empresarial;
  • Apenas 200 a 300 empresas certificadas num universo superior a 40 mil registadas no país;
  • O principal bloqueio não é o custo, mas a fraca maturidade organizacional e a ausência de cultura de boas práticas;
  • INSITE defende que a certificação deve resultar de transformação interna e não de um objectivo meramente formal;
  • Exclusão das PME dos megaprojectos decorre da incapacidade de cumprir requisitos, e não da certificação em si;
  • Digitalização, alinhamento sectorial e instrumentos financeiros dedicados são apontados como soluções estruturais.

Certificação Continua Longe da Realidade da Maioria das PME

Moçambique apresenta actualmente um dos níveis mais baixos de certificação empresarial na África Austral, com apenas 200 a 300 empresas certificadas num universo superior a 40 mil registadas. Num contexto económico cada vez mais integrado em cadeias de valor globais — do gás à mineração, energia, agronegócio e logística — esta realidade limita severamente a competitividade das pequenas e médias empresas nacionais.

A leitura é de Ricardo Velho, Director-Geral da INSITE, que considera que o problema central não reside nos custos da certificação, mas sim na fraca maturidade organizacional e na ausência de uma cultura de valorização de boas práticas empresariais.

Maturidade Organizacional Antes do Certificado

Segundo Ricardo Velho, os números revelam não apenas uma baixa adesão às normas internacionais, mas sobretudo a inexistência de políticas, processos e comportamentos internos capazes de sustentar a conformidade exigida.

“Mais do que não estarem certificadas, verifica-se uma ausência generalizada de organização interna, de políticas e processos que suportem a conformidade exigida”, sublinha, acrescentando que a certificação é uma consequência natural de práticas consolidadas, e não um ponto de partida.

As certificações mais comuns no país concentram-se nas normas ISO 9001 (qualidade), ISO 14001 (ambiente) e ISO 45001 (segurança e saúde ocupacional), com escassa progressão para referenciais mais especializados e exigentes.

Certificação Não Exclui, Incapacidade Exclui

O Director-Geral da INSITE rejeita a narrativa de que as normas internacionais funcionam como barreiras artificiais à participação das PME nos megaprojectos. Para o especialista, baixar requisitos ou criar versões “facilitadas” seria contraproducente e comprometeria a credibilidade das empresas nacionais.

“A certificação não exclui ninguém. O que exclui é a incapacidade de cumprir boas práticas que garantem segurança, qualidade e fiabilidade”, afirma, defendendo que o desafio passa por elevar o padrão das empresas moçambicanas, e não por ajustar as normas à fragilidade do mercado.

O Custo Não É o Principal Obstáculo

Contrariando um dos argumentos mais recorrentes entre empresários, Ricardo Velho sustenta que a certificação não é financeiramente inacessível. A implementação de um sistema ISO 9001, por exemplo, pode custar entre 300 e 400 mil meticais ao longo de oito a dez meses, o equivalente a cerca de 40 mil meticais por mês, enquanto a auditoria anual ronda os 60 a 90 mil meticais.

“Uma empresa que não consegue investir 40 mil meticais por mês não tem um problema de certificação, tem um problema de sustentabilidade”, observa.

Falta de Valorização do Mercado Desincentiva o Investimento

Um dos factores mais críticos identificados é a ausência de diferenciação efectiva entre empresas certificadas e não certificadas, tanto no sector público como no privado. Para o consultor, enquanto a certificação não for um critério real de selecção em concursos e contratações, o incentivo económico continuará ausente.

A digitalização e modelos colectivos de certificação podem reduzir custos, mas, alerta Velho, não substituem a transformação cultural interna, sem a qual o processo se torna insustentável.

Banca e Seguradoras Chamadas a Assumir Papel Mais Activo

Entre as soluções apontadas, destaca-se a necessidade de produtos financeiros específicos para certificação, bem como de prémios de seguro diferenciados para empresas certificadas em normas de segurança.

“Uma empresa com ISO 45001 tem menor risco de acidentes. Isso devia reflectir-se nas taxas de crédito e nos prémios de seguro”, defende.

Certificação Como Processo de Sustentabilidade, Não Como Fim

A experiência de projectos financiados após 2015 demonstra, segundo o especialista, que certificações implementadas sem transformação interna tendem a fracassar no médio prazo.

“Certificação não é fim. É consequência. É maturidade. É cultura”, conclui Ricardo Velho, sublinhando que a competitividade da economia moçambicana dependerá da capacidade de transformar estruturas internas e de criar um mercado que valorize efectivamente as boas práticas empresariais.

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