África Recorre Mais aos Multilaterais em 2026 à Medida que Riscos de Dívida Permanecem Elevados

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S&P aponta vulnerabilidades persistentes, mas vê potencial adicional de 90 a 120 mil milhões USD para o continente via novos empréstimos soberanos multilaterais.

Questões-Chave:
  • Mais de 20 países africanos enfrentam risco elevado de sobre-endividamento;
  • S&P indica que perspectivas de rating estão “ligeiramente inclinadas para o negativo”;
  • Multilaterais poderão mobilizar até 120 mil milhões USD adicionais para África;
  • Emissão de Eurobonds regista início de ano historicamente forte;
  • Moçambique mantém rating CCC+ com outlook negativo;
  • Custo médio de financiamento caiu para 7,7% em 2025.

Governos africanos deverão intensificar o recurso a instituições multilaterais de desenvolvimento em 2026, num contexto em que os riscos de sobre-endividamento continuam elevados e a volatilidade dos mercados internacionais permanece um factor de incerteza, segundo análise divulgada pela Reuters com base em declarações da S&P Global Ratings .

De acordo com Samira Mensah, responsável pelas classificações soberanas africanas na S&P, mais de 20 países do continente enfrentam actualmente risco elevado de distress da dívida ou vulnerabilidades severas, conforme dados do Fundo Monetário Internacional .

O alerta surge num momento em que a dinâmica de financiamento soberano em África apresenta sinais mistos: por um lado, redução média dos custos de emissão; por outro, fragilidade estrutural persistente em vários países.

Multilaterais ganham centralidade

A S&P antecipa que os Estados africanos procurarão cada vez mais apoio junto de bancos multilaterais de desenvolvimento, reduzindo dependência de janelas voláteis de Eurobonds denominados em dólares .

A lógica é financeira e estratégica. Instituições multilaterais com elevada classificação de risco conseguem captar recursos em condições mais favoráveis nos mercados internacionais e reemprestá-los a países africanos com spreads inferiores aos que estes obteriam isoladamente.

Além disso, a agência destacou que recentes ajustamentos nos critérios de classificação das instituições multilaterais poderão reduzir a intensidade de capital exigida para empréstimos a alguns soberanos de menor rating mas com histórico sólido de reembolso .

Tal mudança pode permitir a mobilização adicional de 600 a 800 mil milhões USD em novos empréstimos soberanos a nível global, o que, numa projecção proporcional, poderia traduzir-se em 90 a 120 mil milhões USD adicionais para África .

Emissões retomam, mas mercado é selectivo

Apesar dos riscos, o mercado de Eurobonds na África Subsariana registou o arranque de ano mais forte de sempre, com cerca de 6 mil milhões USD emitidos por países como Benim, Quénia e Costa do Marfim .

O custo médio de financiamento soberano africano caiu aproximadamente 100 pontos-base entre 2024 e 2025, situando-se em 7,7%. Contudo, a S&P sublinha que esta média esconde um mercado selectivo, onde alguns emissores continuam a enfrentar custos elevados e acesso condicionado .

A resiliência a choques externos permanece crucial, dado que a maior parte da dívida externa soberana está denominada em dólares, expondo países africanos à volatilidade cambial e às condições monetárias globais.

Ratings sob pressão

No relatório mais recente, a S&P referiu que as mudanças de outlook para África estão “ligeiramente inclinadas para o negativo”, com Senegal, Moçambique e Madagáscar entre os países que registaram pressões nas métricas de crédito .

Moçambique mantém classificação CCC+ com outlook negativo, enquanto Senegal está sob “credit watch developing” devido a preocupações de potencial incumprimento .

Por outro lado, a agência apontou melhorias em alguns casos, como África do Sul (BB com perspectiva positiva) e Nigéria (B- com perspectiva positiva), esta última descrita como um caso de viragem reformista, ainda que sob forte pressão de custos de serviço da dívida .

Entre disciplina e necessidade de financiamento

O recurso crescente a multilaterais reflecte um dilema estrutural: a necessidade de financiar desenvolvimento, infra-estruturas e diversificação económica, ao mesmo tempo que se preserva sustentabilidade fiscal.

Para muitos países africanos, a equação passa por combinar reformas internas, disciplina orçamental e financiamento concessionário.

A trajectória de 2026 poderá ser determinante.

Se por um lado o alívio nos custos de emissão oferece alguma margem, por outro a persistência de vulnerabilidades exige prudência estratégica.

África volta-se para os multilaterais não apenas por conveniência, mas por necessidade estrutural.