FMI Revê Crescimento De Moçambique Em Alta, Mas Alerta Para Choques Externos E Fragilidades Internas

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  • Fundo Monetário Internacional prevê expansão económica de 0,5% em 2026, após rever o crescimento de 2025 para apenas 0,2%, e considera que a recuperação continuará condicionada pelos preços internacionais das matérias-primas, situação fiscal e vulnerabilidades externas.
Questões-Chave:
  • FMI prevê crescimento económico de 0,5% para Moçambique em 2026;
  • Crescimento de 2025 foi revisto de -0,5% para apenas 0,2%;
  • Guerra no Médio Oriente e subida dos preços dos combustíveis pressionam as perspectivas regionais;
  • FMI alerta para agravamento do défice externo e fiscal em Moçambique;
  • Instituição defende reformas estruturais, mobilização de receitas e fortalecimento da governação económica.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a economia moçambicana registe um crescimento gradual de 0,5% em 2026, sinalizando uma recuperação modesta após um período marcado por forte desaceleração económica e por múltiplos choques internos e externos. A projecção foi apresentada em Maputo pelo representante residente da instituição, Olamide Harrison, durante uma mesa-redonda dedicada às Perspectivas Económicas Regionais para a África Subsariana e aos impactos dos recentes choques energéticos sobre as economias africanas.

A previsão surge num contexto em que o FMI continua a rever os seus cenários macroeconómicos para Moçambique à luz dos dados mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Segundo Harrison, a instituição está a incorporar novas informações que poderão conduzir a ajustamentos adicionais das projecções.

Recuperação Surge Após Um Dos Períodos Mais Fracos Dos Últimos Anos

O aspecto mais relevante da actualização prende-se com a revisão dos dados relativos a 2025.

Segundo o representante do FMI, o crescimento económico do ano passado foi revisto para apenas 0,2%, depois de anteriormente se estimar uma contracção de 0,5%. Apesar da revisão positiva, o desempenho continua a reflectir uma actividade económica extremamente moderada, particularmente nos sectores não extractivos.

Os dados apresentados pelo FMI mostram que Moçambique se destacou negativamente face ao conjunto da África Subsariana. Enquanto a região manteve crescimento positivo em 2025, o desempenho moçambicano ficou substancialmente abaixo da média regional e dos países ricos em recursos naturais. A trajectória ilustrada no relatório evidencia uma desaceleração pronunciada da economia nacional ao longo dos últimos anos.

Para o FMI, a recuperação prevista para 2026 será gradual e continuará dependente da evolução de factores externos e internos.

Guerra No Médio Oriente Agrava Incertezas

Um dos principais temas abordados pelo FMI diz respeito ao impacto da guerra no Médio Oriente sobre as economias africanas.

Segundo a apresentação regional do Fundo, o conflito provocou uma forte subida dos preços internacionais das matérias-primas, particularmente do petróleo e dos fertilizantes, ao mesmo tempo que elevou significativamente os níveis de incerteza na economia mundial. O gráfico apresentado pela instituição demonstra uma escalada expressiva dos preços destas commodities desde o início da crise.

Para Moçambique, enquanto importador líquido de combustíveis refinados, esta evolução representa um factor adicional de pressão sobre os custos de produção, a inflação e a balança de pagamentos.

O FMI alerta igualmente para o impacto das condições financeiras internacionais mais restritivas, do aumento dos prémios de risco e da maior volatilidade cambial, factores que tendem a afectar particularmente as economias emergentes e os países com necessidades significativas de financiamento externo.

Défice Externo E Pressão Fiscal Continuam A Preocupar

As projecções regionais do FMI identificam Moçambique como um dos países mais expostos ao agravamento dos desequilíbrios externos em 2026.

Segundo os dados apresentados pelo Fundo, o país deverá registar uma deterioração particularmente expressiva do saldo da conta corrente, destacando-se negativamente quando comparado com outras economias da África Subsariana.

Ao mesmo tempo, as perspectivas apontam igualmente para um agravamento do défice orçamental, reflectindo os desafios que continuam a afectar as finanças públicas nacionais. O FMI recorda que muitos países africanos enfrentam actualmente margens orçamentais reduzidas, elevados encargos com o serviço da dívida e menor espaço para acomodar novos choques económicos.

No caso de Moçambique, estes desafios tornam-se particularmente relevantes num contexto em que o Estado continua a lidar com pressões relacionadas com a dívida pública, necessidades de investimento em infra-estruturas e crescente procura por serviços públicos.

Política Económica Terá De Equilibrar Crescimento E Estabilidade

O relatório regional enfatiza que os decisores políticos enfrentam actualmente um complexo exercício de equilíbrio entre o controlo da inflação e o estímulo ao crescimento económico.

Segundo o FMI, nos países onde a inflação continua acima das metas ou apresenta tendência de aceleração, a política monetária deverá permanecer prudente e suficientemente restritiva para evitar a desancoragem das expectativas. A instituição sublinha igualmente que os países terão de calibrar cuidadosamente as suas respostas cambiais em função das reservas internacionais disponíveis e das características dos respectivos regimes monetários.

Em matéria orçamental, o Fundo recomenda uma gestão criteriosa da despesa pública, maior eficiência na utilização dos recursos e reforço dos mecanismos de protecção social dirigidos aos grupos mais vulneráveis.

Reformas Estruturais Continuam No Centro Da Agenda

Para além da gestão dos choques conjunturais, o FMI insiste que a aceleração sustentável do crescimento dependerá da implementação de reformas estruturais.

Entre as prioridades identificadas destacam-se o fortalecimento da governação económica, a melhoria do ambiente regulatório, a integração regional, a digitalização da administração pública e o desenvolvimento dos mercados financeiros domésticos. Segundo o relatório, estas reformas poderão contribuir para aumentar a produtividade, melhorar a mobilização de receitas e reforçar a resiliência das economias africanas.

O Fundo argumenta ainda que a redução para metade do actual défice de governação e competitividade face aos mercados emergentes poderia aumentar a produção económica da região em até 20% ao longo de cinco a dez anos.

Retirada Da Lista Cinzenta Reforça Confiança

Apesar dos desafios identificados, o FMI reconhece alguns sinais positivos na trajectória recente de Moçambique.

Durante a sua intervenção, Olamide Harrison destacou a retirada do país da lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), considerando-a um importante reforço da credibilidade internacional de Moçambique e um sinal positivo para investidores e mercados financeiros.

O responsável reiterou igualmente que o Fundo continuará a apoiar o Governo moçambicano na implementação de reformas destinadas a fortalecer a gestão das finanças públicas, melhorar a administração tributária e consolidar a governação económica.

Num ambiente internacional marcado por elevada incerteza, tensões geopolíticas e volatilidade dos mercados energéticos, a principal mensagem do FMI é clara: Moçambique deverá crescer em 2026, mas a velocidade e a sustentabilidade dessa recuperação dependerão da capacidade de preservar a estabilidade macroeconómica e acelerar reformas que fortaleçam a competitividade da economia.