
Salim Valá Propõe Cinco Transições Para Levar Agricultura Da Produção Ao Mercado
O Ministro da Planificação e Desenvolvimento defende que Moçambique precisa de converter uma agricultura socialmente extensa, mas economicamente fragmentada, numa plataforma de produtividade, agro-indústria, emprego juvenil e acesso aos mercados. A proposta inclui projectos conjuntos com Portugal, financiamento adaptado ao ciclo agrário e integração dos produtores nos corredores de desenvolvimento.
- Moçambique possui cerca de 5,17 milhões de pequenas e médias explorações agro-pecuárias, mas a área média cultivada permanece em apenas 1,3 hectare por unidade.
- As pequenas explorações representam mais de 98% das unidades produtoras de culturas como milho, arroz, soja, gergelim e mandioca.
- O Governo pretende passar da expansão da área cultivada para uma agricultura orientada pela produtividade, tecnologia, transformação e mercado.
- Salim Valá propõe uma rede de jovens empreendedores agro-alimentares de Moçambique e Portugal e uma carteira bilateral de projectos de investimento.
- O Ministro defende que os corredores de Maputo, Beira e Nacala devem transportar alimentos e estimular cadeias produtivas, e não servir apenas aos grandes projectos minerais.
- A transformação foi resumida em cinco transições: potencial para produtividade; produção primária para criação de valor; produtor isolado para cadeias organizadas; juventude à procura de emprego para juventude empreendedora; e comércio bilateral para co-produção.
Moçambique precisa de reorganizar o seu sistema agro-alimentar para que a produção deixe de terminar na machamba e passe a estar integrada com a indústria, o financiamento, a logística, a tecnologia e os mercados, defendeu o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá.
Intervindo esta quinta-feira, em Maputo, no Fórum Agro-Alimentar “Go To Market – Moçambique”, o governante sustentou que o principal desafio do País já não consiste apenas em produzir maiores quantidades de alimentos, mas em construir uma arquitectura económica que ligue o agricultor ao comprador e a produção à transformação.
“O mercado começa muito antes da colheita”, afirmou Salim Valá, explicando que a decisão sobre o que produzir deve considerar, desde o início, a procura, os padrões de qualidade, o financiamento, a disponibilidade de água e energia, o armazenamento, os custos logísticos e a capacidade de cumprir os calendários de fornecimento.
Na perspectiva do Ministro, um agricultor pode produzir e, ainda assim, não gerar rendimento quando a cadeia não assegura organização, escala, transporte, certificação ou comprador. A transformação agro-alimentar exige, por isso, que produzir, processar, transportar e comercializar sejam componentes de uma estratégia única.
Agricultura Entra Na Resposta À Desaceleração Económica
A defesa da agricultura surge num contexto económico que o Ministro classificou como particularmente exigente.
No primeiro trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto registou um crescimento real homólogo de apenas 0,1%. Os sectores terciário e secundário cresceram 3,5% e 3,2%, respectivamente, enquanto o sector primário contraiu 4,8%, influenciado pelo desempenho negativo da indústria extractiva.
A inflação homóloga atingiu 7,71% em Junho, num ambiente marcado pelo aumento dos preços dos combustíveis e transportes, pelos choques climáticos sobre a oferta de produtos e pela inflação importada. A previsão de crescimento económico para 2026 foi revista de 2,8% para 0,6%, enquanto a projecção de inflação passou de 3,6% para 8,7%, de acordo com os dados apresentados pelo Ministro.
Perante este quadro, Salim Valá defendeu que a resposta não pode ser a resignação, mas a concentração de esforços nos sectores com maior capacidade de produzir efeitos multiplicadores sobre o emprego, o rendimento, o abastecimento interno e a actividade empresarial.
Produzir mais alimentos em Moçambique poderá reduzir a exposição às importações, atenuar parte das pressões sobre os preços, gerar rendimento nas zonas rurais e estimular sectores complementares, como transporte, armazenagem, comércio, financiamento, equipamentos e assistência técnica.
A agricultura aparece, assim, não apenas como instrumento de segurança alimentar, mas como componente da política macroeconómica e da diversificação produtiva.
Cinco Milhões De Explorações, Mas Apenas 1,3 Hectare Por Unidade
Os resultados do Censo Agro-Pecuário 2023/2024 revelam a dimensão social da agricultura moçambicana.
O País possui aproximadamente 5,17 milhões de pequenas e médias explorações agro-pecuárias, que cultivam uma área conjunta estimada em 6,44 milhões de hectares. A superfície representa quase o dobro da registada no Censo Agro-Pecuário de 2009/2010.
Apesar dessa expansão, a área média cultivada permanece em apenas 1,3 hectare por exploração, demonstrando uma estrutura produtiva fragmentada e com limitada capacidade individual para atingir escala comercial.
“A agricultura moçambicana possui uma enorme escala social, territorial e humana, mas ainda precisa de ganhar maior escala económica, tecnológica e comercial”, declarou Salim Valá.
As pequenas explorações representam 98,2% das unidades produtoras de milho, 99,1% das produtoras de arroz, 98,3% das produtoras de soja, 98% das produtoras de gergelim e 98,8% das produtoras de mandioca.
Estes números significam que qualquer estratégia de modernização que não integre o pequeno produtor terá alcance económico limitado e deixará de fora a maioria da base produtiva nacional.
O Ministro afastou, porém, a ideia de substituir pequenas explorações por grandes unidades. O objectivo deverá ser organizar os produtores através de associações, cooperativas, contratos de produção, centros de agregação e relações mais equilibradas com compradores e indústrias.
Da Expansão Da Área Para O Aumento Da Produtividade
O crescimento da agricultura moçambicana tem sido sustentado, em parte, pela expansão da área cultivada. Salim Valá defendeu que esse modelo precisa de evoluir para uma agricultura capaz de produzir mais por hectare, utilizar melhor a água e responder às alterações climáticas.
A mudança pressupõe investimentos em investigação agrária, sementes adaptadas, fertilidade dos solos, irrigação, mecanização apropriada, extensão rural, informação meteorológica e seguros agrícolas.
Exige também que a exploração seja gerida como uma unidade económica. O produtor orientado para o mercado deve conhecer custos, calcular margens, planificar o calendário agrícola, avaliar riscos e negociar com compradores, fornecedores e instituições financeiras.
“A produtividade não resulta apenas da tecnologia. Resulta da combinação entre tecnologia, conhecimento, organização, financiamento e mercado”, afirmou o governante.
A formulação amplia o conceito de modernização agrícola. Equipamentos e insumos podem elevar a produção, mas dificilmente criam sustentabilidade comercial quando não existem gestão, informação sobre a procura e canais regulares de escoamento.
Milho, Arroz E Mandioca Podem Sustentar Uma Base Industrial
Moçambique já possui uma base produtiva que poderá alimentar unidades agro-industriais.
O milho ocupa cerca de 2,28 milhões de hectares e o arroz aproximadamente 467 mil hectares. Em comparação com o Censo de 2009/2010, a superfície cultivada de milho aumentou 59,1%, enquanto a área de arroz cresceu 65,5%.
A produção de milho aproxima-se de 1,7 milhões de toneladas, a de feijão-bóer ronda 277 mil toneladas e a de mandioca alcança aproximadamente 11 milhões de toneladas.
Segundo Salim Valá, estes volumes devem ser convertidos em matéria-prima para indústrias nacionais. O milho pode alimentar moageiras, fábricas de rações e indústrias de bebidas; a mandioca pode ser transformada em farinhas, amidos e alimentação animal; e o gergelim, amendoim e soja podem sustentar a produção de óleos e alimentos processados.
No caso do arroz, a conquista de uma parcela maior do mercado interno dependerá da produtividade, processamento, classificação, embalagem e regularidade do abastecimento.
A mensagem central é que a produção primária, por si só, retém apenas uma fracção do valor económico. Quando os produtos são exportados sem transformação, o País também transfere para o exterior empregos industriais, tecnologia, embalagem, marcas, margens comerciais e receitas.
Mercado Deve Orientar A Produção Desde O Início
O discurso propõe uma mudança na sequência tradicional da actividade agrícola.
Em lugar de produzir primeiro e procurar compradores no final da campanha, o produtor deverá conhecer antecipadamente o mercado, os volumes procurados, os padrões de qualidade, os preços de referência e o calendário de entrega.
Contratos de produção, cooperativas, agregadores, centros logísticos e plataformas digitais podem reduzir a distância entre agricultores e compradores, aumentando a previsibilidade para ambos.
O mercado interno também foi identificado como uma oportunidade relevante. Escolas, hospitais, unidades militares, hotéis, restaurantes, supermercados e empresas podem funcionar como compradores da produção nacional, desde que sejam assegurados qualidade, regularidade e cumprimento das regras de contratação.
Nesta perspectiva, a substituição de importações não deverá decorrer apenas de restrições administrativas à entrada de produtos, mas da criação de capacidade interna para fornecer alimentos competitivos, seguros e previsíveis.
Juventude Só Será Dividendo Com Capacidade Produtiva
Salim Valá dedicou uma parte central da intervenção ao potencial demográfico de Moçambique.
O País possui cerca de 35 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 72% têm menos de 30 anos. Cerca de 21 milhões ainda não completaram 24 anos e a idade média da população ronda 17 anos.
Contudo, o Ministro advertiu que a juventude populacional não constitui automaticamente um dividendo económico.
“Moçambique não possui ainda um dividendo demográfico assegurado; possui uma oportunidade demográfica que precisa de ser transformada em capacidade produtiva, emprego e prosperidade”, declarou.
A transformação exige educação, saúde, formação técnico-profissional, acesso à tecnologia, financiamento, activos produtivos e oportunidades de trabalho ou empreendimento.
O governante defendeu que os jovens não podem ser convidados para uma agricultura associada apenas à sobrevivência, trabalho manual, baixa produtividade e incerteza. A actividade deve tornar-se empresarial, tecnologicamente atractiva e economicamente compensadora.
O novo agricultor deverá utilizar informação climática, meios digitais de pagamento, plataformas de comercialização, irrigação eficiente, drones, sensores e soluções de agricultura de precisão. Ao mesmo tempo, precisará de dominar gestão, preparação de planos de negócio, cálculo de custos, negociação financeira e comunicação de marcas.
Mulheres Devem Ser Reconhecidas Como Agentes Económicos
A transformação agro-alimentar deverá igualmente alterar a posição das mulheres nas cadeias de valor.
Embora estejam amplamente presentes na produção, processamento, comercialização e segurança alimentar das famílias, as mulheres continuam a enfrentar maiores limitações no acesso ao crédito, formação, tecnologia e mercados formais.
Salim Valá defendeu que a mulher rural não deve ser considerada apenas beneficiária de iniciativas sociais, mas reconhecida como produtora, empresária, investidora, gestora e agente de transformação económica.
Aumentar o acesso das mulheres aos activos e mercados poderá elevar a produtividade, ampliar o rendimento das famílias e fortalecer a segurança alimentar das comunidades.
Crédito Convencional Não Acompanha O Ciclo Agrícola
A modernização agrícola continuará limitada enquanto o financiamento não estiver ajustado ao ciclo da actividade.
O período entre preparação da terra, sementeira, colheita, transformação e comercialização não coincide necessariamente com os prazos e modelos de pagamento utilizados nos produtos bancários convencionais.
O Ministro propôs mecanismos de garantia, seguros agrícolas, crédito de campanha, financiamento às cadeias de valor, leasing de equipamentos, fundos de garantia mútua, capital de risco e instrumentos de partilha de risco.
A aproximação entre bancos, empresas compradoras, fornecedores de insumos e produtores organizados poderá reduzir a incerteza. A existência de contratos de compra e assistência técnica fornece às instituições financeiras informação adicional para avaliar o risco.
O problema não está apenas no desenho dos produtos financeiros. Produtores e empresários também precisam de transformar ideias agrícolas em projectos tecnicamente consistentes, financeiramente viáveis, ambientalmente responsáveis e comercialmente fundamentados.
Corredores Devem Ligar A Machamba Aos Mercados
A estratégia agro-industrial depende das infra-estruturas que conectam as zonas produtivas aos centros de consumo e exportação.
Salim Valá defendeu que os corredores de Maputo, Beira e Nacala devem continuar a evoluir como plataformas de integração territorial, conectando zonas agrícolas, cidades intermédias, parques industriais, portos e mercados regionais.
Os corredores não devem servir apenas para transportar grandes volumes de recursos minerais. Devem também movimentar alimentos, insumos, equipamentos e produtos transformados.
O impacto depende, contudo, da ligação entre as infra-estruturas principais e as estradas secundárias e vicinais. Um corredor internacional pode atravessar uma província sem beneficiar directamente os agricultores que continuam sem acesso rodoviário entre as zonas de produção e a rede principal.
A energia e a logística deverão igualmente aproximar-se dos territórios produtivos, permitindo instalar armazéns, cadeias de frio, centros de agregação, unidades de processamento e plataformas de distribuição.
Recursos Minerais Devem Financiar A Diversificação
O Ministro estabeleceu uma ligação entre os grandes projectos extractivos e a agricultura.
Moçambique dispõe de recursos minerais e energéticos estratégicos que podem mobilizar investimento, receitas, infra-estruturas e oportunidades industriais. Contudo, uma economia excessivamente dependente de poucos grandes projectos permanece exposta às variações dos preços internacionais e às decisões de empresas externas.
As receitas e infra-estruturas associadas aos minerais críticos deverão apoiar sectores com maior capacidade de integrar a população, incluindo agricultura, agro-indústria, turismo e pequenas e médias empresas.
“Os corredores que transportam minerais devem poder transportar também alimentos. A energia que alimenta grandes projectos deve contribuir igualmente para irrigar campos, conservar produtos, operar agro-indústrias e dinamizar pequenas empresas”, defendeu Salim Valá.
A proposta corresponde a uma visão de transformação estrutural na qual os recursos extractivos funcionam como alavanca para diversificar a economia, em vez de ampliarem apenas o peso do próprio sector.
Turismo Pode Criar Mercado Para A Produção Nacional
O crescimento de 5,1% registado pelo ramo de Hotéis e Restaurantes no primeiro trimestre demonstra, segundo o Ministro, o potencial das ligações entre agricultura, turismo e gastronomia.
Hotéis, restaurantes, supermercados e operadores turísticos constituem mercados para frutas, vegetais, carnes, pescado, bebidas e produtos processados.
A entrada nesses segmentos, porém, requer continuidade, segurança alimentar, apresentação adequada e capacidade logística. A origem nacional, por si só, não garante preferência comercial quando o produto não cumpre os padrões exigidos pelo comprador.
A gastronomia foi apresentada como cultura e cadeia de valor, capaz de promover territórios, criar marcas, gerar emprego e ligar o consumidor à origem dos alimentos.
Portugal É Desafiado A Passar Da Venda Para A Co-Produção
A cooperação entre Moçambique e Portugal deverá avançar do intercâmbio comercial para a produção conjunta, transferência de tecnologia e criação de capacidades empresariais.
Portugal possui experiência em organização de produtores, certificação, irrigação, agricultura de precisão, processamento alimentar, embalagem e logística. Moçambique oferece diversidade agro-ecológica, recursos naturais, população jovem e acesso aos mercados da África Austral e do Oceano Índico.
“Moçambique não deve ser encarado apenas como um mercado de consumo. Deve ser visto como uma plataforma de produção, transformação e acesso aos mercados regionais”, defendeu o Ministro.
A relação bilateral deverá promover empresas conjuntas, produção de sementes, soluções de irrigação, assistência técnica, certificação, formação de fornecedores e transformação local.
A pergunta orientadora, segundo Salim Valá, não deve limitar-se ao que cada país pode vender ao outro, mas incluir aquilo que ambos podem produzir conjuntamente em Moçambique e colocar nos mercados africanos e internacionais.
Cinco Propostas Para O Período Depois Do Fórum
Para impedir que o encontro se limitasse à troca de intenções, o Ministro apresentou cinco propostas concretas.
A primeira consiste na criação de uma rede de jovens empreendedores agro-alimentares de Moçambique e Portugal, orientada para formação, mentoria, intercâmbio, tecnologia e desenvolvimento de negócios.
A segunda prevê a constituição de uma carteira de projectos conjuntos nas áreas de produção, transformação, irrigação, logística, certificação, agricultura digital, energias renováveis e serviços agrários.
A terceira propõe a selecção de cadeias de valor prioritárias para projectos-piloto, com metas de produção, emprego, incorporação local, transferência de conhecimento e acesso aos mercados.
A quarta consiste num mecanismo de aproximação entre produtores, compradores, instituições financeiras e empresas tecnológicas.
A quinta prevê intercâmbios entre jovens agricultores, instituições de formação, centros de investigação e empresas dos dois países.
“Os fóruns são importantes quando criam diálogo. Tornam-se economicamente relevantes quando o diálogo produz projectos, os projectos mobilizam investimento e o investimento melhora a vida das pessoas”, afirmou.
Cinco Transições Para Uma Nova Economia Agro-Alimentar
Salim Valá condensou a agenda apresentada em cinco transições fundamentais.
A primeira é passar do potencial para a produtividade. A segunda consiste em evoluir da produção primária para a transformação e criação de valor. A terceira é integrar o produtor isolado em cadeias de valor organizadas.
A quarta transição deverá levar a juventude da procura de oportunidades para a criação de empresas e emprego. A quinta propõe transformar uma relação bilateral centrada na troca de produtos numa parceria orientada para co-produção, inovação e acesso a novos mercados.
A formulação enquadra a agricultura na Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044, no Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 e nas iniciativas de recuperação e estímulo económico, incluindo o PRECE.
A mensagem é que a política agrária não pode actuar isoladamente. Precisa de estar articulada com as políticas industrial, comercial, financeira, energética, educativa, tecnológica e de infra-estruturas.
Para o Ministro, produzir continua a ser necessário, transformar tornou-se decisivo e organizar é indispensável. Chegar ao mercado é o momento em que o trabalho do agricultor se converte em rendimento, o investimento em retorno e o potencial económico em desenvolvimento.
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