Mediação Laboral Ganha Peso Na Agenda Da Produtividade E Do Ambiente De Investimento

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  • Nova obra de Rolinho Manuel Farnela recoloca no debate a eficácia dos mecanismos de prevenção e resolução de conflitos laborais em Moçambique, num contexto de crescimento do investimento e maior diversidade empresarial. Governo defende que paz laboral, produtividade, direitos dos trabalhadores e competitividade devem ser tratados como dimensões complementares do desenvolvimento económico.
Questões-Chave:
  • A obra Mediação Laboral em Moçambique: Gestão de Conflitos e Construção da Paz Social defende maior atenção à prevenção e resolução dos conflitos entre trabalhadores e empregadores;
  • Rolinho Manuel Farnela considera que a legislação laboral deve acompanhar a transformação do mercado de trabalho e assegurar mecanismos suficientemente robustos para responder aos novos desafios;
  • A actual Lei do Trabalho deixou de tornar obrigatória a passagem pela mediação, passando a permitir que os conflitos sejam submetidos à conciliação e mediação antes da arbitragem ou da via judicial;
  • O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, considera que paz laboral e produtividade são complementares e que relações laborais previsíveis contribuem para a confiança e o investimento;
  • O debate ganha relevância num contexto de entrada de novos investimentos e empresas de diferentes nacionalidades, aumentando a importância da previsibilidade normativa e do conhecimento da legislação laboral;
  • Formação, diálogo social, instituições de mediação credíveis, maior utilização de tecnologia e melhor informação de trabalhadores e empregadores surgem entre as áreas identificadas para melhorar a gestão dos diferendos;

As relações laborais podem parecer, à primeira vista, uma matéria circunscrita ao direito, à gestão de recursos humanos ou à administração da justiça.

Mas a frequência, duração e forma como os conflitos entre trabalhadores e empregadores são resolvidos têm também consequências directas sobre produtividade, custos empresariais, confiança institucional e ambiente de investimento.

É esta dimensão mais ampla que emerge do lançamento da obra Mediação Laboral em Moçambique: Gestão de Conflitos e Construção da Paz Social, da autoria do jurista e antigo Vice-Ministro do Trabalho e Segurança Social, Rolinho Manuel Farnela.

Apresentada esta semana na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, a obra analisa os conflitos laborais, os mecanismos de mediação e as relações entre trabalhadores e empregadores, defendendo que a legislação deve acompanhar a realidade do mercado e preservar instrumentos eficazes de resolução dos diferendos.

Conflito Laboral Também Tem Um Custo Económico

Uma empresa permanentemente afectada por conflitos internos dificilmente consegue operar com a mesma eficiência que uma organização onde existem canais previsíveis para resolver divergências.

Paralisações, litígios prolongados, deterioração das relações entre trabalhadores e gestão, perda de confiança e elevados níveis de rotatividade podem reduzir produtividade e aumentar custos.

Foi precisamente esta ligação que o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, destacou na intervenção realizada em representação do Presidente da República, Daniel Chapo.

Segundo o governante, “paz laboral e produtividade não são agendas concorrentes”, da mesma forma que direitos dos trabalhadores e competitividade empresarial não devem ser colocados em campos opostos.

A mensagem coloca as relações laborais dentro de uma lógica económica mais abrangente.

Empresas competitivas precisam de trabalhadores qualificados e motivados, mas também de instituições capazes de resolver conflitos de forma rápida, acessível e previsível.

Nova Lei Alterou O Paradigma Da Mediação

Uma das questões centrais levantadas pelo autor prende-se com a mudança introduzida pela actual Lei do Trabalho.

A Lei n.º 13/2023, de 25 de Agosto, alterou o modelo anteriormente existente, passando a prever que os conflitos laborais possam ser submetidos à conciliação e mediação antes da arbitragem ou da via judicial, em vez de impor essa passagem como obrigatória.

Rolinho Farnela manifesta reservas relativamente à alteração.

Na sua leitura, a retirada da obrigatoriedade pode reduzir a utilização preventiva da mediação e permitir que determinados conflitos avancem prematuramente para outras instâncias.

O autor esclarece, contudo, que a obra não procura confrontar a legislação em vigor, mas ampliar o debate sobre a forma como as relações laborais são geridas e sobre as emoções, expectativas e percepções que frequentemente acompanham os diferendos.

A mudança legislativa coloca, porém, uma questão institucional relevante: se a mediação deixou de ser obrigatória, precisa de tornar-se suficientemente eficaz para ser escolhida voluntariamente pelas partes.

Da Obrigatoriedade Para A Credibilidade

Na leitura apresentada por Salim Valá, a alteração do paradigma jurídico torna ainda mais importante a confiança nas instituições responsáveis pela mediação.

Se trabalhadores e empregadores dispõem de outras vias, a mediação terá de demonstrar rapidez, acessibilidade, competência e percepção de justiça para continuar a ser utilizada.

A força do mecanismo passa, assim, progressivamente da imposição normativa para a credibilidade dos seus resultados.

Este aspecto tem consequências económicas.

Quanto mais rápido e previsível for o tratamento de um conflito, menor tende a ser o custo associado à incerteza.

Empresas conseguem planear melhor as suas operações. Trabalhadores podem procurar soluções sem permanecer durante longos períodos numa situação de indefinição. E o sistema judicial pode evitar absorver matérias susceptíveis de resolução consensual.

Investimento Aumenta Necessidade De Previsibilidade

O debate ocorre igualmente num período em que Moçambique procura atrair novos investimentos e aprofundar o desenvolvimento de grandes projectos.

Farnela considera que esta transformação reforça a necessidade de uma legislação laboral robusta e de empresas plenamente conscientes das regras aplicáveis no País.

O jurista adverte que a necessidade de captar capital não deve conduzir à relativização das normas, defendendo que investimento e respeito pela legislação laboral não são objectivos incompatíveis.

Esta questão adquire maior relevância à medida que empresas de diferentes nacionalidades, modelos de gestão e culturas organizacionais entram no mercado moçambicano.

Um ambiente de investimento competitivo não depende apenas de impostos, infra-estruturas, energia ou acesso a financiamento.

Depende igualmente da previsibilidade das relações entre capital e trabalho.

Mercado De Trabalho Mais Complexo Exige Instituições Mais Capazes

A transformação da economia tende também a tornar as relações laborais mais complexas.

Grandes investimentos em energia, mineração, logística, construção, indústria e serviços criam novas ocupações, exigem competências diferentes e introduzem modelos de organização do trabalho que podem não ter a mesma expressão nos sectores tradicionais.

Quanto mais diversificada se torna a economia, maior é a necessidade de instituições laborais capazes de acompanhar essa transformação.

A mediação assume particular importância porque permite procurar soluções antes de determinados diferendos evoluírem para processos mais longos e potencialmente mais dispendiosos.

Farnela aponta ainda a morosidade de alguns processos laborais como um dos problemas que continuam a afectar trabalhadores e empregadores, considerando que a sua obra pode contribuir para a reflexão dos tribunais e demais intervenientes na administração da justiça laboral.

Dados Mostram Espaço Para Soluções Consensuais

A investigação recupera dados relativos à actividade dos Centros de Mediação e Arbitragem Laboral.

Segundo a intervenção apresentada no lançamento, milhares de casos foram mediados em 2020 e uma proporção significativa terminou através de solução consensual.

Mais do que o número absoluto, o dado evidencia uma característica económica importante da mediação: nem todo conflito precisa terminar num processo de confronto prolongado.

Quando as partes encontram uma solução consensual, podem preservar a relação laboral ou empresarial, reduzir custos e retomar mais rapidamente a normalidade produtiva.

A mediação não elimina a existência de interesses divergentes.

Cria uma estrutura para que esses interesses possam ser negociados.

Comunicação Pode Evitar Que Problemas Escalem

A obra também chama atenção para factores que antecedem o conflito formal.

Problemas de comunicação, desconhecimento da legislação, liderança inadequada e deterioração da confiança podem ampliar desacordos que inicialmente seriam administráveis.

Salim Valá

Salim Valá observa que muitos conflitos aparentemente relacionados com salários, horários, contractos ou condições de trabalho podem ser agravados precisamente pela ausência de informação e capacidade de escuta.

Esta perspectiva é particularmente relevante para a gestão empresarial.

Prevenir um conflito tende a custar menos do que resolvê-lo depois de se transformar numa ruptura.

Por isso, sistemas internos de comunicação, recursos humanos preparados, representação laboral funcional e conhecimento das normas podem ser entendidos também como instrumentos de eficiência organizacional.

Tecnologia Pode Reduzir Custos De Acesso

Entre as recomendações analisadas encontram-se ainda maior formação e sensibilização de trabalhadores e empregadores, fortalecimento das instituições de mediação, promoção do diálogo social e maior utilização de instrumentos tecnológicos.

A digitalização pode ter particular relevância numa economia geograficamente extensa.

Plataformas digitais podem facilitar submissão de processos, acompanhamento de casos, acesso a informação laboral e, em determinadas circunstâncias, realização de sessões de conciliação sem necessidade de longas deslocações.

Isto pode reduzir custos tanto para empresas como para trabalhadores e ampliar o alcance dos mecanismos de mediação fora dos principais centros urbanos.

Mediação Como Parte Do Capital Social

A intervenção do Ministro acrescenta ainda uma leitura menos habitual do tema.

O desenvolvimento, segundo Salim Valá, não depende apenas de capital financeiro, infra-estruturas, tecnologia e capital humano.

Depende também de capital social — confiança, cooperação, capacidade de diálogo e instituições credíveis.

Nesta perspectiva, a mediação laboral deixa de ser apenas um instrumento jurídico.

Passa a funcionar como mecanismo de construção de confiança entre actores económicos que necessariamente possuem interesses diferentes.

Empregadores procuram produtividade, eficiência e sustentabilidade financeira.

Trabalhadores procuram remuneração, segurança, progressão e condições dignas.

A qualidade das instituições determina, em grande medida, se essas diferenças conduzem a negociação produtiva ou a confronto permanente.

Relações Laborais Também Competem Por Investimento

Para investidores, previsibilidade não significa necessariamente ausência de conflitos.

Significa saber que existem regras claras, instituições funcionais e mecanismos razoavelmente céleres para tratar os problemas quando estes surgem.

Esta distinção é importante.

Nenhuma economia moderna elimina os conflitos entre capital e trabalho.

As economias mais institucionalizadas conseguem, porém, reduzir os custos económicos desses conflitos através de negociação colectiva, mediação, arbitragem e sistemas judiciais eficientes.

É esta capacidade que ajuda a transformar relações laborais estáveis numa componente do ambiente de negócios.

Paz Social Também Se Constrói Na Empresa

A principal contribuição económica da obra poderá estar precisamente em recolocar a paz social numa escala quotidiana.

Não apenas nas grandes decisões políticas, mas também dentro das empresas.

Um trabalhador que encontra mecanismos para apresentar uma preocupação; um empregador que dispõe de regras claras para gerir a organização; sindicatos capazes de negociar; instituições públicas que mediam divergências — todos estes elementos reduzem o risco de pequenos diferendos evoluírem para rupturas maiores.

Por isso, relações laborais não são apenas uma questão entre empregador e trabalhador.

Fazem parte da infra-estrutura institucional de uma economia.

A mensagem que emerge do lançamento da obra de Rolinho Farnela é, nesse sentido, particularmente pertinente para uma economia que procura atrair capital, criar emprego e aumentar produtividade: investimento sustentável precisa de empresas competitivas, mas também de relações laborais capazes de transformar conflito em diálogo e diálogo em confiança.

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