
Chapo Revoga Nomeação De Waldemar De Sousa E Entrega Banco De Moçambique A Felisberto Navalha
Presidente da República altera a composição inicialmente anunciada para o banco central, nomeando Benedita Guimino Vice-Governadora, num momento decisivo para a política monetária e financeira do País.
- Felisberto Navalha foi nomeado Governador do Banco de Moçambique e Benedita Guimino Vice-Governadora;
- Nova liderança reúne dois quadros com experiência no banco central e conhecimento das áreas monetária e financeira;
- Transição ocorre num contexto de crescimento económico moderado e agravamento das projecções de inflação;
- Política monetária terá de conciliar estabilidade dos preços, disponibilidade de divisas e recuperação do crédito à economia;
- Supervisão bancária, inclusão financeira e modernização dos sistemas de pagamentos integram a agenda do novo ciclo;
- Nomeação associa a estabilidade monetária e financeira à estratégia nacional de Independência Económica.
O Presidente da República, Daniel Chapo, nomeou o economista Felisberto Dinis Navalha para o cargo de Governador do Banco de Moçambique e Benedita Maria Guimino para Vice-Governadora, colocando dois quadros com experiência na instituição à frente do banco central num dos períodos mais exigentes para a gestão monetária e financeira do País.
De acordo com o comunicado da Presidência da República, as nomeações foram efectuadas ao abrigo das competências conferidas ao Chefe do Estado pela Constituição da República. Felisberto Navalha toma posse esta quarta-feira, 2 de Setembro, enquanto a data da investidura de Benedita Guimino será posteriormente anunciada.
As decisões sucedem à revogação, por “questões supervenientes”, dos instrumentos que haviam nomeado Waldemar Fernando de Sousa para Governador e Felisberto Navalha para Vice-Governador. O novo despacho eleva Navalha à liderança da instituição e entrega a vice-governação a Benedita Guimino, até agora Administradora do Pelouro de Estabilidade Financeira.
Continuidade Institucional Com Nova Liderança
A escolha de Felisberto Navalha representa, antes de tudo, uma solução de continuidade institucional. Economista, docente e antigo administrador do Banco de Moçambique, o novo Governador conhece a estrutura, os instrumentos e os processos de decisão da autoridade monetária.
Navalha integrou anteriormente o Conselho de Administração do banco central, onde esteve ligado ao Pelouro de Estabilidade Monetária. A sua trajectória confere-lhe familiaridade com as áreas de política monetária, análise económica e gestão dos riscos que influenciam a inflação, as taxas de juro, a liquidez bancária e o mercado cambial.
Benedita Guimino acrescenta experiência nas áreas de estabilidade financeira, emissão, tesouraria e sistemas de pagamentos. A sua promoção à vice-governação preserva conhecimento institucional no núcleo superior de decisão e introduz uma ligação directa entre a condução da política monetária e a supervisão do sistema financeiro.
O simbolismo das nomeações reside, assim, menos numa ruptura com o ciclo anterior e mais numa transição conduzida a partir do interior da instituição. O desafio será imprimir uma nova orientação à resposta do banco central sem comprometer a credibilidade construída em matéria de estabilidade monetária e prudência financeira.
Economia Exige Novo Equilíbrio Monetário
A nova liderança assume funções quando a economia moçambicana procura consolidar uma recuperação ainda moderada. O cenário actual do Cenário Fiscal de Médio Prazo 2027–2029 reviu a previsão de crescimento económico para 2026 de 2,8% para 0,6%, enquanto a projecção de inflação passou de 3,6% para 8,7%.
A revisão traduz a materialização de choques internos e externos, a desaceleração da actividade económica, as perturbações logísticas e o aumento dos riscos associados aos preços internacionais dos combustíveis e de outros bens importados.
Neste quadro, o Banco de Moçambique terá de gerir um equilíbrio complexo: conter a inflação sem retirar à economia a liquidez necessária para financiar a produção, o investimento e o emprego.
Em Julho, o Comité de Política Monetária manteve a taxa MIMO em 9,25%, justificando a decisão com a redução da liquidez em moeda nacional no sistema bancário e com a persistência de riscos elevados sobre as projecções de inflação. O banco central destacou, entre os factores de incerteza, o conflito no Médio Oriente, os efeitos sobre as cadeias logísticas e a volatilidade dos preços internacionais dos combustíveis, segundo o Banco de Moçambique.
Apesar da redução acumulada da taxa de política monetária nos últimos anos, o custo do financiamento continua elevado para grande parte das empresas e famílias. A prime rate do sistema financeiro mantém-se em 15,50% em Setembro, antes da incorporação dos spreads de risco aplicados pelos bancos comerciais.
Divisas Continuam No Centro Das Preocupações
A disponibilidade de moeda externa será outra das matérias centrais da nova administração. As dificuldades de acesso a divisas afectam a importação de matérias-primas, equipamentos, combustíveis e bens essenciais, com efeitos directos sobre os custos de produção e sobre a capacidade de funcionamento das empresas.
A resposta não se limita à política cambial. A estabilidade do mercado de divisas está igualmente associada à capacidade da economia para gerar exportações, atrair investimento, repatriar receitas e reduzir a dependência de importações.
O banco central terá, por isso, de manter o rigor na gestão das reservas internacionais e assegurar maior previsibilidade no funcionamento do mercado cambial. A coordenação com a política fiscal e com as estratégias de promoção das exportações será determinante para evitar que os desequilíbrios externos sejam tratados exclusivamente através de instrumentos monetários.
Estabilidade Deve Chegar À Economia Real
A transição no Banco de Moçambique ocorre também num momento em que o Governo coloca a Independência Económica no centro da agenda nacional. No comunicado que anuncia as nomeações, a Presidência identifica expressamente o banco central como uma das instituições estruturantes dessa estratégia.
Esta associação amplia o significado económico da mudança. A estabilidade monetária deixa de ser observada apenas através da inflação, da taxa de câmbio ou da solidez dos bancos. Passa também a ser avaliada pela sua contribuição para um ambiente favorável ao investimento produtivo, ao desenvolvimento das empresas nacionais e à inclusão financeira.
O mandato legal do Banco de Moçambique permanece centrado na preservação do valor da moeda e na estabilidade do sistema financeiro. Mas a qualidade das decisões monetárias também será percebida pelos seus efeitos sobre o crédito, o investimento e a capacidade das empresas para operar num quadro previsível.
O desafio da nova liderança será manter a independência e a credibilidade da instituição, melhorar a comunicação das decisões e calibrar os instrumentos monetários de acordo com uma economia caracterizada por baixa profundidade financeira, forte peso da informalidade e elevada exposição a choques externos.
Supervisão E Modernização Do Sistema Financeiro
Além da política monetária e cambial, Felisberto Navalha e Benedita Guimino terão pela frente a consolidação da supervisão bancária, a protecção dos consumidores financeiros e a modernização das infra-estruturas de pagamento.
A entrada em funcionamento do METIX, sistema nacional de pagamentos instantâneos, abriu uma nova etapa na digitalização das transacções. A expansão destas soluções poderá reduzir custos, ampliar a inclusão financeira e melhorar a circulação de recursos entre famílias, empresas e instituições.
Ao mesmo tempo, o crescimento dos serviços financeiros digitais exige maior capacidade de supervisão tecnológica, segurança cibernética e protecção dos utilizadores. A inovação deverá avançar acompanhada por regras claras, concorrência e mecanismos eficazes de prevenção de riscos.
O novo ciclo no Banco de Moçambique começa, portanto, com uma liderança conhecedora da instituição, mas perante uma conjuntura diferente. Felisberto Navalha e Benedita Guimino assumem a responsabilidade de preservar a estabilidade monetária e financeira enquanto a economia procura recuperar crescimento, mobilizar
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