Modernizar A FACIM Para Uma Nova Geração De Investimentos E Negócios

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Problemas crónicos de acesso ao recinto, insuficiências nos balneários, limitações nas comunicações e ausência de serviços essenciais evidenciam a necessidade de uma reforma estrutural que transforme a FACIM numa plataforma internacional de negócios, investimento e intermediação económica.

QUESTÕES-CHAVE
  • Os problemas de acesso, circulação e estacionamento condicionam o funcionamento da FACIM e a experiência de expositores, investidores e visitantes;
  • A qualidade e a capacidade dos balneários permanecem incompatíveis com a dimensão e o estatuto internacional do evento;
  • A instabilidade das comunicações e da conectividade limita pagamentos electrónicos, demonstrações tecnológicas, transmissões e contactos empresariais;
  • A modernização do recinto deve abranger energia, água, saneamento, segurança, sinalização, serviços de emergência e acessibilidade universal;
  • A FACIM precisa de evoluir de uma feira predominantemente expositiva para uma plataforma integrada de negócios, investimento e correspondência empresarial;
  • Um novo modelo de gestão poderá profissionalizar a organização, melhorar os serviços e assegurar a monitoria dos negócios gerados durante o certame;
  • A transformação digital pode prolongar a actividade da FACIM para além da semana da feira e assegurar o acompanhamento dos contactos estabelecidos;

Com mais de seis décadas de existência, a Feira Internacional de Maputo continua a ser a maior concentração anual de empresas, instituições, produtos, delegações estrangeiras e oportunidades de investimento realizada em Moçambique.

A capacidade de mobilização permanece elevada. O mesmo não pode ser dito das condições que o recinto de Ricatla oferece a quem pretende utilizá-lo para fazer negócios.

Os congestionamentos nos acessos, o estacionamento insuficiente, a degradação e reduzida capacidade dos balneários, a instabilidade das comunicações, as limitações de climatização e a indisponibilidade de serviços essenciais deixaram de poder ser tratados como dificuldades secundárias de organização. São factores que reduzem a produtividade comercial da feira, aumentam os custos dos participantes e afectam a credibilidade internacional do certame.

A 61.ª edição mostrou sinais de evolução na organização interna, na sinalização, na diversidade dos expositores e na incorporação de algumas soluções tecnológicas. Mostrou também que o crescimento da FACIM não foi acompanhado, na mesma proporção, pela modernização das infra-estruturas e funcionalidades necessárias a uma plataforma internacional de negócios.

A questão já não consiste apenas em melhorar a aparência dos pavilhões. A FACIM precisa de uma reforma estrutural do recinto, dos acessos, dos serviços, da programação e do modelo de gestão.

Acessibilidades Condicionam O Funcionamento Do Evento

A modernização deve começar pela forma como pessoas e mercadorias chegam ao Centro Internacional de Feiras e Exposições de Ricatla.

Nos períodos de maior afluência, longas filas de viaturas formam-se nas vias de acesso. A entrada e a saída pelo mesmo corredor, associadas ao estacionamento desordenado, atrasam visitantes, expositores, fornecedores e delegações empresariais.

“Há muito problema com os sítios para parqueamento. Está claro que não estamos preparados, não temos espaço suficiente para albergar tamanha gente”, observou o visitante Lárcio Nhatumbo.

O problema tem uma consequência económica directa. Cada minuto perdido no trânsito reduz o tempo disponível para reuniões, visitas aos pavilhões, apresentações comerciais e negociações.

Marcos, empresário brasileiro presente na feira, estimou que a deslocação entre a estrada principal e o recinto chegou a consumir entre 30 e 40 minutos.

“É um tempo que poderíamos estar a usar para fazer mais negócios. Para quem está a fazer negócios, é um desperdício”, afirmou.

Os 30 ou 40 minutos gastos no acesso não representam apenas desconforto. Constituem custo de oportunidade para empresas que mobilizam trabalhadores, equipamentos, materiais promocionais e recursos financeiros para participar na feira.

Quando o acesso limita o número de encontros que um empresário consegue realizar, reduz igualmente o retorno económico da sua participação. O congestionamento torna-se, assim, parte do custo da FACIM.

A solução exige separação dos fluxos de entrada e saída, novas alternativas de circulação, zonas de carga e descarga, estacionamento ordenado e circuitos próprios para expositores, delegações, fornecedores, transportes colectivos e serviços de emergência.

João Luiz, visitante da feira, reconheceu os progressos alcançados dentro do recinto, mas considerou que os acessos continuam a comprometer a experiência geral.

“A exposição está bem localizada e bem sinalizada. O único senão são as vias de acesso para chegar e sair daqui”, declarou.

A intervenção terá de considerar a ocupação crescente da zona envolvente. Novas vias e parques de estacionamento exigirão planeamento territorial, coordenação com as autoridades locais e protecção das áreas necessárias à futura expansão da feira.

Balneários E Serviços Básicos Exigem Requalificação

A qualidade dos balneários permanece incompatível com a dimensão e o estatuto internacional da FACIM.

Instalações insuficientes, degradadas ou sem manutenção permanente afectam a experiência de milhares de visitantes e expositores. Também projectam uma imagem de impreparação perante delegações empresariais, representantes diplomáticos e investidores estrangeiros.

Numa feira internacional, instalações sanitárias funcionais não constituem uma comodidade adicional. Fazem parte da infra-estrutura básica do evento, tal como a energia, a água, a segurança e as comunicações.

A requalificação do recinto deve incluir balneários em número adequado, abastecimento regular de água, saneamento, limpeza contínua, recolha de resíduos, iluminação, zonas de alimentação, espaços de descanso e condições de utilização por pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A manutenção não pode limitar-se aos dias imediatamente anteriores à abertura. Um recinto que pretende funcionar como plataforma económica permanente necessita de padrões regulares de conservação, fiscalização e prestação de serviços.

A FACIM dificilmente poderá posicionar-se como espaço internacional de investimento enquanto não assegurar, de forma previsível, as funcionalidades elementares exigidas a qualquer centro moderno de feiras e exposições.

Comunicações Limitam Operações E Negócios

A instabilidade das comunicações e da conectividade afecta pagamentos electrónicos, demonstrações tecnológicas, transmissões em directo, contactos empresariais e acesso a plataformas digitais.

O problema é especialmente contraditório num evento que apresenta a transformação digital como uma das prioridades da economia. Não é consistente promover serviços financeiros digitais, comércio electrónico e inovação tecnológica num recinto onde empresas e visitantes enfrentam dificuldades para realizar operações básicas através da Internet.

Uma feira orientada para negócios exige conectividade de alta capacidade, cobertura integral, energia estável, sistemas de redundância, pontos de carregamento de equipamentos e assistência técnica permanente.

Para os expositores, a falha da rede pode impedir uma demonstração, atrasar um pagamento ou inviabilizar o acesso a catálogos e sistemas empresariais. Para os órgãos de comunicação social, limita transmissões e envio de conteúdos. Para investidores e compradores, reduz a capacidade de recolher informação e manter contacto imediato com potenciais parceiros.

A conectividade deve, por isso, ser tratada como infra-estrutura produtiva da FACIM e não como serviço complementar.

Funcionalidades Compatíveis Com Uma Feira Internacional

A reforma do recinto deve estabelecer um padrão mínimo de funcionamento: sinalização clara e multilingue, credenciamento digital, controlo de acessos, segurança, assistência médica, prevenção e combate a incêndios, salas equipadas para negociações reservadas, serviços bancários e cambiais, centros de informação, apoio logístico e armazenamento temporário.

A climatização dos pavilhões e a conservação dos produtos alimentares exigem igual atenção.

Expositores ligados à agricultura e à alimentação enfrentam dificuldades para manter produtos frescos durante os sete dias do certame. A ausência de sistemas adequados de frio obriga à substituição frequente dos produtos e aumenta os custos de participação.

“Neste pavilhão não temos ar condicionado. Se tivéssemos, provavelmente ajudaria na conservação dos nossos produtos frescos”, explicou o expositor Luís Lifanissa.

Segundo o expositor, os produtos que começam a perder qualidade são retirados e substituídos por outros. O procedimento preserva a apresentação do stand, mas transfere para as empresas um custo que poderia ser reduzido através de infra-estruturas apropriadas.

“Para as áreas onde há produtos frescos, pelo menos o sistema de frio ou de ar condicionado deve estar em condições para poder conservar”, defendeu.

A ausência de climatização também afecta visitantes e trabalhadores. Cacilda Janice observou que alguns stands dispõem de ar condicionado, mas outros se tornam abafados quando aumenta a concentração de pessoas.

Estas condições influenciam o tempo de permanência no recinto, a qualidade das reuniões e a capacidade dos expositores para apresentarem produtos e receberem compradores. Não são apenas problemas de conforto: afectam a funcionalidade económica da feira.

De Exposição A Plataforma De Intermediação Económica

A modernização física será insuficiente se a FACIM continuar a ser avaliada principalmente pelo número de visitantes, expositores, stands e países representados.

Esses indicadores medem dimensão e mobilização, mas não revelam quantos negócios foram efectivamente gerados.

A FACIM precisa de passar de uma feira predominantemente expositiva para uma plataforma de intermediação económica, capaz de identificar oportunidades, seleccionar projectos, aproximar investidores e empresas e acompanhar os contactos até decisões concretas.

Isso pressupõe agendas empresariais preparadas antecipadamente, encontros B2B e B2G, missões de compradores, sessões de apresentação de projectos, acesso a financiadores e mecanismos de correspondência entre procura e oferta.

Cacilda Janice reconheceu esta capacidade de aproximação: “Estou aqui a aproveitar a oportunidade de networking. Consegui estabelecer contactos com alguns empreendedores que podem tornar-se possíveis parceiros do meu negócio.”

A FACIM já gera contactos. O desafio é transformá-los em encomendas, contratos, financiamento, investimento e integração de empresas nacionais nas cadeias de fornecimento.

A medição dos resultados deve passar a incluir reuniões empresariais realizadas, manifestações de interesse recebidas, contratos assinados, projectos financiados, encomendas efectuadas, parcerias constituídas e investimentos mobilizados.

Sem estes indicadores, o elevado fluxo de visitantes pode produzir visibilidade sem permitir avaliar o retorno económico do evento.

Cadeias De Valor Devem Organizar A Exposição

A organização do espaço em sucessões de stands institucionais e empresariais limita a compreensão das ligações existentes entre sectores, fornecedores, compradores e investidores.

A exposição pode ser estruturada em torno de cadeias de valor e oportunidades de investimento: agricultura e agro-indústria, energia, recursos minerais, logística, turismo, economia azul, infra-estruturas, serviços financeiros e transformação digital.

Cada área deveria reunir projectos financiáveis, necessidades tecnológicas, fornecedores nacionais, instrumentos de financiamento, mercados disponíveis e oportunidades de parceria.

Essa organização permitiria ao investidor perceber, num mesmo espaço, onde se encontra a matéria-prima, que infra-estruturas estão disponíveis, quais empresas podem fornecer serviços, que incentivos existem e quem pode financiar o projecto.

A feira deixaria de apresentar sectores isolados e passaria a mostrar a arquitectura económica necessária para transformar recursos em produção, emprego e exportações.

Programação Orientada Para Resultados Comerciais

Seminários, fóruns e apresentações devem estar directamente ligados aos objectivos comerciais da FACIM.

Debates genéricos, sem empresas-alvo, projectos identificados ou resultados esperados, ocupam tempo da programação, mas produzem pouco valor empresarial mensurável.

As sessões devem incidir sobre oportunidades sectoriais, financiamento, garantias de investimento, certificação, requisitos de exportação, conteúdo local e acesso aos mercados regionais. Devem também abrir espaço para apresentações de projectos, sessões de pitch, reuniões com financiadores e demonstrações de tecnologias aplicáveis à economia nacional.

Cada actividade precisa de público previamente identificado, objectivo comercial e mecanismo de seguimento.

Uma feira orientada para resultados não termina quando o painel encerra. Deve registar manifestações de interesse, facilitar reuniões subsequentes e acompanhar o desenvolvimento das negociações.

Plataforma Digital Pode Prolongar A FACIM

Uma plataforma electrónica pode tornar a FACIM activa durante todo o ano.

Perfis de expositores, catálogos, projectos, oportunidades de investimento e agendas de reuniões poderiam ser disponibilizados antes da abertura, permitindo que empresas e investidores seleccionassem interlocutores e preparassem encontros.

Depois da feira, a mesma plataforma serviria para acompanhar contactos, propostas, manifestações de interesse e evolução dos negócios iniciados em Ricatla.

O formato híbrido permitiria ainda a participação de compradores, investidores e financiadores que não conseguem deslocar-se fisicamente ao recinto.

A digitalização deve, porém, estar ligada à função económica do evento. Não basta reproduzir conteúdos institucionais numa página electrónica. É necessário criar instrumentos de pesquisa, correspondência empresarial, agendamento, apresentação de projectos e monitoria de resultados.

Novo Modelo De Gestão Abre Espaço Para Mudanças

A possibilidade de introdução de um novo modelo de gestão a partir de 2027, admitida pelo Presidente da República, abre uma oportunidade para rever a governação da FACIM.

Uma estrutura profissional, com responsabilidades claras pela gestão do recinto, manutenção das infra-estruturas, prestação de serviços, atracção de investidores e acompanhamento dos negócios, poderá responder às insuficiências acumuladas.

A participação do sector privado, das associações empresariais, das instituições financeiras e das entidades de promoção do investimento poderá aproximar a organização das necessidades concretas das empresas.

O modelo também deverá estabelecer indicadores de desempenho, padrões de serviço e mecanismos de responsabilização. O objectivo não deve ser apenas gerir a semana da feira, mas transformar a FACIM numa plataforma permanente de promoção do investimento e desenvolvimento empresarial.

A expositora Liberdade reconheceu os progressos alcançados, mas resumiu a principal contradição: “A feira evoluiu muito. Este ano os serviços estão bons. Uma coisa que ainda deixa a desejar é o acesso.”

A FACIM preserva valor histórico, capacidade de mobilização e reconhecimento nacional. Mas a sua longevidade não pode substituir modernização, eficiência e resultados económicos.

A próxima geração da feira terá de oferecer acessos funcionais, estacionamento organizado, balneários adequados, conectividade estável, climatização, conservação de produtos, salas de negociação e serviços capazes de suportar transacções.

Terá também de demonstrar quantos contactos se converteram em negócios, quantos projectos encontraram financiamento e quantas empresas moçambicanas passaram a integrar novas cadeias de fornecimento.

Modernizar a FACIM significa transformar o fluxo de pessoas em actividade económica mensurável. Sem essa mudança, continuará a ser uma grande montra anual. Com ela, poderá tornar-se a plataforma internacional de negócios e investimento que a economia moçambicana necessita.

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