Industrialização Redefine Agenda Económica Entre Moçambique E Portugal

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  • Nova etapa deverá combinar investimento produtivo, transferência de tecnologia, integração de fornecedores e acesso conjunto aos mercados da SADC e da Europa.
Questões-Chave:
  • Cerca de 500 empresas de capitais portugueses operam actualmente em Moçambique;
  • Mais de mil empresas portuguesas mantêm relações comerciais com o mercado moçambicano;
  • Aproximadamente 25 das 100 maiores empresas de Moçambique possuem capitais portugueses;
  • Parceria deverá avançar das trocas comerciais para investimento, produção conjunta e transferência de tecnologia;
  • Energia, agro-indústria, logística, turismo, economia digital e indústria transformadora emergem como sectores prioritários;
  • Moçambique é apresentado como plataforma de acesso aos mercados da África Austral;
  • Nova etapa deverá ser avaliada pelo capital investido, fornecedores integrados, empregos criados e projectos executados;

Moçambique e Portugal pretendem reposicionar as suas relações económicas, transferindo o enfoque do comércio bilateral para uma parceria orientada para investimento produtivo, industrialização, transferência de tecnologia e integração empresarial.

A ambição foi apresentada no Fórum Empresarial Moçambique–Portugal, dedicado à competitividade, ao conteúdo local e às novas oportunidades de investimento, realizado no contexto da 61.ª edição da FACIM.

Representantes dos dois governos e do sector empresarial defenderam que a proximidade histórica, linguística e cultural constitui uma vantagem económica, mas precisa de ser convertida em fábricas, empresas, competências, empregos e valor acrescentado.

A mensagem central do encontro foi de que o futuro da relação bilateral não deverá ser medido apenas pelo volume das exportações e importações, mas pela capacidade de os dois países investirem, produzirem e acederem conjuntamente a novos mercados.

Relação Empresarial Já Possui Escala

O Embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, afirmou que cerca de 500 empresas de capitais portugueses operam actualmente no mercado moçambicano e mais de mil empresas portuguesas mantêm relações comerciais com o País.

Cerca de 25 das 100 maiores empresas moçambicanas possuem capitais portugueses, demonstrando uma presença empresarial que atravessa diferentes sectores e ciclos económicos.

Para o diplomata, estes indicadores revelam uma relação empresarial madura, diversificada e com capacidade de resistência. Todavia, o nível de presença já alcançado exige uma ambição económica diferente.

“A questão que nos devemos colocar hoje não é saber qual é o valor das trocas comerciais, mas quanto podemos investir juntos, quanto podemos produzir juntos e quanto valor podemos criar juntos”, declarou.

Esta formulação desloca a relação bilateral de um modelo baseado na venda de bens e serviços para uma estratégia de produção conjunta, na qual empresas dos dois países combinam capital, conhecimento, mercados e capacidade de execução.

Moçambique Oferece Recursos E Portugal Capacidade De Execução

Moçambique possui recursos energéticos, potencial hidroeléctrico, minerais, terra arável, uma extensa costa e uma posição geográfica que permite servir os mercados do interior da África Austral.

Portugal dispõe, por sua vez, de empresas com experiência em construção, engenharia, energia, gestão da água, agro-indústria, metalomecânica, tecnologias digitais, banca, seguros, transportes, logística e turismo.

A complementaridade cria condições para parcerias em que os recursos e a localização moçambicana sejam associados à tecnologia, financiamento, qualificação e capacidade empresarial portuguesa.

O Embaixador Jorge Monteiro defendeu que estas vantagens precisam de ser transformadas em projectos concretos, particularmente nos sectores capazes de aumentar a capacidade transformadora de Moçambique.

Na visão apresentada, Portugal não deverá limitar-se a fornecer bens e serviços. As empresas portuguesas são chamadas a investir na transformação local dos recursos, permitindo que uma parte maior do valor permaneça na economia moçambicana.

Governo Procura Parceiros Que Produzam Em Moçambique

O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defendeu que Moçambique não procura apenas empresas portuguesas interessadas em vender para o mercado nacional.

“Procuramos parceiros que inovem e produzam com Moçambique numa perspectiva de longo prazo”, afirmou.

A posição traduz uma mudança no tipo de investimento pretendido. Mais do que importação de soluções acabadas, Moçambique procura projectos capazes de criar capacidade empresarial interna, formar trabalhadores, integrar fornecedores nacionais e transferir tecnologia.

Segundo o Ministro, a proximidade histórica deve ser transformada em investimento produtivo, produção conjunta, qualificação dos jovens, emprego e valor acrescentado para os dois países.

Salim Valá advertiu que a transferência de tecnologia sem formação de pessoas cria dependência, enquanto o financiamento sem capacidade empresarial aumenta a probabilidade de fracasso.

A combinação entre capital, conhecimento técnico e desenvolvimento de competências deverá, por isso, constituir uma condição para que os investimentos produzam efeitos duradouros.

Projectos Bancáveis Devem Substituir Intenções

Um dos principais desafios identificados no Fórum foi a passagem dos acordos e planos para projectos executáveis.

Salim Valá defendeu que a melhor estratégia de promoção do investimento consiste em apresentar uma carteira de projectos bancáveis, acompanhada por regras previsíveis, ambiente de negócios atractivo e capacidade comprovada de execução e gestão.

O Ministro considerou igualmente que o planeamento deve deixar de estar concentrado na elaboração de documentos e transformar-se numa disciplina de execução, com impactos mensuráveis e sustentáveis.

Esta abordagem implica preparar projectos com estudos de viabilidade, modelos financeiros, identificação de riscos, procura demonstrada e responsabilidades institucionais claramente definidas.

Para os investidores, a existência de projectos estruturados reduz a incerteza e facilita a mobilização de financiamento. Para o Estado, permite orientar o capital para sectores prioritários e acompanhar os resultados económicos e sociais.

Corredores Podem Transformar Moçambique Numa Plataforma Regional

A localização de Moçambique e os seus corredores logísticos foram apresentados como componentes estratégicos da parceria bilateral.

Os corredores de Maputo, Beira e Nacala oferecem às empresas portuguesas a possibilidade de utilizar Moçambique como plataforma de acesso aos países do interior da África Austral.

A dimensão do mercado deixa, assim, de estar limitada à procura interna moçambicana. A partir dos portos e corredores nacionais, os investimentos podem servir economias como África do Sul, Eswatini, Zimbabwe, Zâmbia, Malawi e República Democrática do Congo.

O Secretário de Estado da Economia de Portugal, João Rui Ferreira, considerou que Moçambique pode dar maior escala às empresas portuguesas, permitindo-lhes ampliar a presença na região através de investimentos, parcerias e joint ventures.

Para que esta vantagem se materialize, serão necessários investimentos em transportes, energia, conectividade digital, facilitação comercial e eficiência das operações fronteiriças.

Dois Momentos Económicos Criam Oportunidades Distintas

João Rui Ferreira identificou dois momentos na evolução próxima da economia moçambicana.

O primeiro corresponde ao período anterior à entrada em funcionamento dos grandes investimentos e infra-estruturas, marcado por maiores dificuldades económicas. Ainda assim, esta fase deverá criar oportunidades na construção, engenharia, logística e fornecimento de bens e serviços.

As pequenas e médias empresas poderão beneficiar da procura gerada pela preparação e execução dos projectos, desde que possuam capacidade técnica, financeira e de gestão para responder às exigências das cadeias de fornecimento.

O segundo momento deverá surgir quando os grandes investimentos começarem a produzir, aumentando o PIB, o rendimento e a procura por bens transaccionáveis e de consumo.

A estratégia empresarial deverá, portanto, combinar posicionamento imediato nas cadeias de fornecimento com preparação para a futura expansão do mercado interno e regional.

Reformas Condicionam A Conversão Da Confiança Em Capital

Os representantes portugueses reconheceram a existência de dificuldades relacionadas com divisas, estabilidade e ambiente de negócios, mas destacaram a intenção das empresas de permanecerem e ampliarem a presença em Moçambique.

Jorge Monteiro declarou que Portugal apoia a agenda de reformas do Governo moçambicano, particularmente a melhoria do ambiente empresarial, a segurança jurídica, a simplificação administrativa, a transformação digital do Estado e o combate à corrupção.

Estas reformas influenciam directamente a decisão de investimento. A confiança política e cultural pode facilitar o relacionamento, mas não substitui previsibilidade regulatória, acesso a divisas, cumprimento de contratos e celeridade administrativa.

João Rui Ferreira sublinhou que a confiança empresarial é construída através da credibilidade, do cumprimento dos compromissos e da conformidade dos produtos e serviços.

A continuidade das empresas portuguesas em Moçambique demonstra uma perspectiva de longo prazo, mas a expansão do investimento dependerá da redução dos custos e riscos associados à actividade económica.

Financiamento E Seguros Podem Mitigar Riscos

Portugal pretende mobilizar diferentes instrumentos para apoiar a internacionalização das suas empresas e as parcerias com operadores moçambicanos.

Durante o Fórum, João Rui Ferreira fez referência a mecanismos da AICEP, programas de apoio às pequenas e médias empresas e a uma nova linha do Banco Português de Fomento destinada a facilitar seguros de crédito à exportação.

Estes instrumentos podem reduzir o risco de entrada em novos projectos, facilitar o financiamento e permitir que empresas portuguesas com menor capacidade financeira participem em investimentos em Moçambique.

A articulação com empresas locais poderá ampliar o impacto desses mecanismos, particularmente quando os projectos incluírem fornecimento nacional, formação, transferência de conhecimento e produção para os mercados da região.

Resultados Passam A Ser A Nova Medida Da Relação

Salim Valá defendeu que a próxima etapa da cooperação deve ser menos dispersa e mais exigente.

Em vez do número de acordos assinados, a relação deverá ser avaliada pelo capital efectivamente investido, pelas empresas instaladas, pelos fornecedores integrados, pela tecnologia transferida, pelos jovens capacitados, pelos empregos criados e pelos projectos concluídos.

Esta abordagem introduz uma medida económica concreta para uma relação tradicionalmente apresentada através da proximidade histórica e institucional.

Portugal poderá contribuir com tecnologia, financiamento, experiência empresarial e acesso aos mercados europeus. Moçambique oferece recursos, oportunidades de investimento, ligação à SADC e uma população jovem.

A agenda resultante não é apenas de cooperação bilateral. É uma proposta de integração produtiva entre empresas dos dois países, orientada para transformar recursos em produtos, corredores em plataformas comerciais e afinidade cultural em prosperidade partilhada.

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