Robustez Empresarial Sobe Apenas Um Ponto Apesar Da Melhoria Macroeconómica

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• Índice da CTA avançou de 26% para 27%, num trimestre em que a escassez de combustíveis, as restrições cambiais, as dívidas do Estado e o crédito caro continuaram a limitar a actividade das empresas.

Questões-Chave:
  • O Índice de Robustez Empresarial aumentou de 26% para 27% entre o primeiro e o segundo trimestres de 2026;
  • O Índice do Ambiente Macroeconómico avançou de 55% para 58%, apoiado pela procura agregada, estabilidade cambial e evolução das taxas de juro;
  • O prejuízo médio por unidade produzida diminuiu de 522 para 483 meticais, com as receitas a crescerem acima dos custos;
  • O preço do gasóleo aumentou cerca de 46%, afectando a indústria, os transportes, a agricultura e as cadeias de abastecimento;
  • As empresas continuam a enfrentar dificuldades no acesso a divisas para importar combustíveis, equipamentos, matérias-primas e outros insumos;
  • A Prime Rate do sistema financeiro situa-se em 15,50%, antes da aplicação dos spreads de risco dos bancos comerciais;
  • A CTA defende a retoma do CPMO+1 para melhorar o diálogo entre o Banco de Moçambique e o sector privado.

O desempenho das empresas moçambicanas registou uma recuperação marginal no segundo trimestre de 2026, com o Índice de Robustez Empresarial a subir de 26% para 27%, segundo dados apresentados pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).

A evoluçãoA subida de apenas um ponto percentual ocorreu num período em que o ambiente macroeconómico apresentou uma evolução relativamente mais favorável, mas as empresas continuaram a enfrentar dificuldades no abastecimento de combustíveis, acesso a divisas, financiamento e funcionamento das cadeias de fornecimento.

Os resultados foram apresentados pelo Presidente da CTA, Álvaro Massingue, durante a 22.ª edição do Economic Briefing, realizada esta quinta-feira, 10 de Setembro, em Maputo, para avaliar o desempenho empresarial do segundo trimestre e as perspectivas para os próximos meses.

O indicador mostra que a melhoria macroeconómica ainda está a chegar de forma limitada às empresas. O aumento dos custos operacionais, a escassez de moeda externa e as dívidas do Estado aos fornecedores continuam a reduzir a capacidade de produção, investimento e criação de emprego.

Ambiente Macroeconómico Avança Para 58%

O Índice do Ambiente Macroeconómico aumentou de 55% no primeiro trimestre para 58% no segundo trimestre de 2026.

Segundo a CTA, a evolução foi sustentada pelo ligeiro aumento da procura agregada, pela manutenção da estabilidade cambial, pelo comportamento moderado do índice geral de preços e pela trajectória das taxas de juro.

A aceleração deste indicador não produziu, porém, uma melhoria proporcional na robustez empresarial. Enquanto o ambiente macroeconómico avançou três pontos percentuais, o índice que mede o desempenho das empresas cresceu apenas um ponto.

A diferença sugere que os ganhos registados ao nível dos indicadores gerais continuam a ser absorvidos pelos constrangimentos operacionais que afectam directamente a actividade produtiva.

O segundo trimestre ficou igualmente marcado pela recuperação dos efeitos das cheias nas províncias de Gaza e Maputo. Os danos provocados nas estradas e noutras infra-estruturas afectaram a circulação de pessoas e mercadorias, aumentando os custos logísticos e os prazos de abastecimento.

Prejuízo Por Unidade Produzida Recua Para 483 Meticais

O prejuízo médio por unidade produzida diminuiu de 522 para 483 meticais durante o trimestre.

De acordo com a CTA, a redução indica que as receitas das empresas cresceram a um ritmo superior ao dos respectivos custos. A campanha de comercialização agrícola e a relativa estabilidade do Metical contribuíram para esta evolução.

Embora o indicador permaneça negativo, a diminuição do prejuízo unitário sinaliza uma melhoria na relação entre receitas e despesas operacionais.

A permanência de perdas médias demonstra, contudo, que parte considerável das empresas ainda não alcançou níveis de produtividade, preços ou volumes de venda suficientes para cobrir integralmente os custos de produção.

Esta situação reduz a capacidade de reinvestimento, limita a contratação de trabalhadores e enfraquece a posição financeira das empresas perante os bancos e fornecedores.

Gasóleo Mais Caro Aumenta Custos Em Toda A Economia

O abastecimento de combustíveis foi identificado pela CTA como o problema mais imediato enfrentado pelo sector empresarial durante o período.

O preço do gasóleo aumentou cerca de 46%, num contexto também marcado pela escassez da oferta. O impacto estendeu-se à indústria, agricultura, transportes e distribuição de mercadorias.

O gasóleo possui um peso importante na estrutura de custos da economia moçambicana, devido à dependência do transporte rodoviário e à utilização de geradores por empresas que enfrentam limitações no fornecimento de electricidade.

O seu encarecimento aumenta o custo de movimentação das matérias-primas, escoamento da produção agrícola, funcionamento das máquinas e distribuição dos bens aos mercados.

Parte destes encargos tende a ser incorporada nos preços finais, afectando o poder de compra das famílias e reduzindo a procura disponível para as próprias empresas.

A CTA considera que a normalização do abastecimento será determinante para sustentar a recuperação da actividade empresarial nos próximos meses.

Escassez De Divisas Condiciona Produção

As dificuldades de acesso à moeda externa continuaram a limitar a capacidade das empresas de importarem matérias-primas, equipamentos, peças, combustíveis e outros factores necessários à produção.

Mesmo num contexto de relativa estabilidade da taxa de câmbio, a disponibilidade efectiva de divisas permanece um problema para as empresas.

A estabilidade nominal do Metical nãonão elimina o impacto económico da insuficiência de moeda externa. Quando não conseguem efectuar pagamentos internacionais dentro dos prazos, as empresas enfrentam atrasos nas encomendas, interrupções da produção e custos adicionais perante os fornecedores.

A CTA advertiu que a falta de matérias-primas reduz a produção e compromete as exportações e a continuidade dos postos de trabalho.

O sector privado solicita, por isso, maior previsibilidade no funcionamento do mercado cambial e uma gestão que considere as necessidades das actividades produtivas.

Crédito Continua Caro Para As Empresas

O custo do financiamento permanece elevado, apesar da redução acumulada da taxa de política monetária do Banco de Moçambique.

A Prime Rate do sistema financeiro situa-se em 15,50%, antes da adição dos spreads de risco aplicados pelos bancos comerciais. Na prática, as taxas cobradas às empresas permanecem acima deste nível.

Para a CTA, a redução das taxas de referência deverá produzir uma transmissão mais efectiva para a economia real, tornando o crédito progressivamente menos oneroso.

O elevado custo do financiamento limita a aquisição de equipamentos, o reforço do fundo de maneio, a expansão das instalações e a entrada das empresas em novos mercados.

A organização empresarial manifesta também preocupação com o efeito de compressão do crédito ao sector privado. O aumento do endividamento público interno absorve recursos do sistema financeiro e torna os títulos do Estado uma alternativa atractiva para os bancos, em comparação com o financiamento das empresas.

Este quadro reduz a parcela de crédito disponível para a produção e pode enfraquecer a resposta empresarial mesmo quando os indicadores macroeconómicos apresentam melhorias.

Dívidas Do Estado Afectam Tesouraria Empresarial

A acumulação de dívidas do Estado ao sector privado permanece entre os factores que condicionam a liquidez das empresas.

Quando os pagamentos públicos são efectuados com atraso, os fornecedores enfrentam dificuldades para cumprir salários, impostos, prestações bancárias e compromissos com outros operadores.

O problema tende a propagar-se através da cadeia empresarial. Uma empresa que não recebe do Estado pode também atrasar pagamentos aos seus próprios fornecedores, ampliando as dificuldades de tesouraria no sector privado.

A CTA inclui ainda a burocracia e a degradação das estradas entre os factores que aumentam o custo de fazer negócios em Moçambique.

A redução dos atrasados do Estado, a manutenção regular das infra-estruturas e a simplificação dos procedimentos administrativos são apresentadas como condições necessárias para melhorar o desempenho das empresas.

CTA Quer Retoma Do Diálogo Após Decisões Monetárias

A CTA defende a retoma do Comité de Política Monetária Alargado, conhecido como CPMO+1, mecanismo de diálogo entre o Banco de Moçambique e o sector privado após as reuniões do Comité de Política Monetária.

O encontro permitia ao banco central apresentar as razões subjacentes às suas decisões e esclarecer as dúvidas dos empresários sobre a condução das políticas monetária e cambial.

A organização considera necessária uma maior coordenação entre as políticas monetária, fiscal, cambial e financeira, bem como uma comunicação mais previsível com os agentes económicos.

Para o sector privado, a previsibilidade é essencial para definir investimentos, organizar importações, negociar financiamento e assumir compromissos de longo prazo.

A retoma deste mecanismo poderia reduzir a diferença entre a leitura do banco central sobre a conjuntura e a experiência das empresas no acesso a divisas e ao crédito.

Agricultura E Gás Sustentam Expectativas De Recuperação

A CTA antecipa a continuidade de uma recuperação moderada da actividade empresarial nos próximos meses.

A perspectiva está apoiada na possível normalização do abastecimento de combustíveis, na campanha de comercialização agrícola e na intensificação das actividades ligadas aos projectos de gás natural na Bacia do Rovuma.

A retoma dos grandes projectos pode estimular a procura de transporte, construção, alimentação, alojamento, manutenção, serviços profissionais e outros fornecimentos.

A dimensão do efeito sobre as empresas moçambicanas será influenciada pela sua capacidade de cumprir requisitos de qualidade, escala, financiamento e certificação, assim como pelas políticas de conteúdo local adoptadas pelos operadores.

Persistem, entretanto, riscos associados à volatilidade dos preços internacionais dos combustíveis e às tensões geopolíticas. A subida do petróleo para níveis próximos ou superiores a US$ 100 por barril poderá criar novos aumentos nos custos domésticos de energia e transporte.

Os indicadores do segundo trimestre apontam, assim, para uma actividade empresarial em recuperação, mas ainda distante de uma posição de robustez. O avanço de 26% para 27% mostra que a estabilização macroeconómica precisa de ser acompanhada por maior disponibilidade de combustíveis e divisas, redução do custo do crédito, pagamento das dívidas do Estado e melhoria das condições operacionais das empresas.