
Biocombustíveis Podem Crescer 68% Até 2030 E Exigir Mais 36 Milhões De Hectares
- Crise energética provocada pelo conflito no Golfo acelera mandatos de mistura em grandes economias, mas expansão coloca pressão sobre alimentos, florestas e uso da terra; Moçambique também prevê incorporar biocombustíveis nos combustíveis importados
- Produção mundial de biocombustíveis poderá subir cerca de 68% entre 2025 e 2030, de aproximadamente 105 para 176 milhões de toneladas equivalentes de petróleo;
- Novos mandatos anunciados desde o início da crise do Golfo poderão exigir mais 36 milhões de hectares, uma área comparável à Alemanha;
- Estados Unidos, Brasil e Indonésia deverão concentrar parte significativa do crescimento da produção;
- Petróleo subiu cerca de 40% desde o início do conflito, enquanto milho e açúcar acumulam aumentos próximos de 20%;
- Utilização intensiva de culturas alimentares para etanol e biodiesel aumenta riscos sobre preços dos alimentos, água, florestas e segurança alimentar;
- Moçambique identifica a mistura de biocombustíveis nos transportes como instrumento de substituição parcial de importações, emprego e investimento agro-industrial;
- Resíduos agrícolas, óleos usados e biocombustíveis avançados apresentam menor conflito directo com a produção alimentar.
A corrida mundial por alternativas ao petróleo está a acelerar a produção de biocombustíveis a uma velocidade que poderá alterar simultaneamente os mercados de energia, agricultura e terra até ao final da década.
Um estudo da Chatham House e do Forest Stewardship Council estima que a produção global de biocombustíveis poderá aumentar cerca de 68% entre 2025 e 2030, impulsionada por novos mandatos de mistura adoptados ou propostos por algumas das maiores economias mundiais em resposta à crise energética associada ao conflito entre Estados Unidos e Irão e às restrições no Estreito de Hormuz.
A produção poderá passar de aproximadamente 105 milhões para 176 milhões de toneladas equivalentes de petróleo, segundo os cálculos apresentados pela Chatham House.
O movimento procura reduzir exposição ao petróleo importado, reforçar segurança energética e limitar os efeitos económicos de choques no mercado de crude. A expansão, contudo, transfere parte da pressão energética para outro conjunto de recursos: terra agrícola, água, milho, açúcar, soja, óleo de palma e outras matérias-primas utilizadas na produção de etanol e biodiesel.
A dimensão desta transferência é significativa. Se os novos mandatos forem integralmente implementados, o mundo poderá necessitar de 36 milhões de hectares adicionais para culturas destinadas aos biocombustíveis até 2030, uma extensão aproximadamente equivalente ao território da Alemanha.
Crise Do Petróleo Reforça A Competitividade Dos Biocombustíveis
A aceleração surge num contexto económico muito específico.
Os preços do petróleo aumentaram cerca de 40% desde o início do conflito com o Irão, no final de Fevereiro, enquanto açúcar e milho registaram subidas próximas de 20%, segundo os dados citados no estudo.
Quando gasolina e diesel ficam mais caros, etanol e biodiesel tornam-se relativamente mais competitivos. Ao mesmo tempo, governos procuram reduzir a vulnerabilidade criada pela concentração de uma parcela relevante das exportações mundiais de petróleo no Golfo.
Brasil, China, Índia, Indonésia, Estados Unidos e União Europeia encontram-se entre as economias que aumentaram ou propuseram elevar os níveis obrigatórios de incorporação de biocombustíveis desde o início da crise.
A Agência Internacional de Energia já tinha revisto em alta, antes da actual aceleração, as perspectivas para a procura de biocombustíveis até 2030, impulsionada sobretudo por políticas adoptadas nos Estados Unidos, Brasil, Europa, Indonésia e Índia. (IEA)
A crise do Golfo acrescentou uma motivação adicional: segurança energética.
Estados Unidos, Brasil E Indonésia Lideram A Expansão
O gráfico apresentado no estudo mostra uma concentração importante da produção adicional nos grandes mercados.
Os Estados Unidos permanecem destacados como maior produtor, com expansão projectada de cerca de 40 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2025 para mais de 60 milhões em 2030.
O Brasil surge em segundo lugar, aproximando-se de 30 milhões, enquanto União Europeia e Reino Unido, Indonésia, Índia e China apresentam também crescimento relevante.
A representação gráfica da segunda página evidencia que a aceleração não resulta de uma única política nacional. Trata-se de uma resposta disseminada entre economias produtoras, consumidoras e importadoras de petróleo.
O resultado poderá transformar os biocombustíveis numa componente ainda mais relevante do mercado internacional de transportes líquidos antes que veículos eléctricos, hidrogénio e outras alternativas atinjam escala suficiente em várias economias.
36 Milhões De Hectares Criam Nova Disputa Pela Terra
O principal alerta do estudo encontra-se no uso da terra.
Os autores calculam que os novos mandatos pós-crise podem fazer com que a área dedicada às matérias-primas utilizadas nos biocombustíveis mais do que duplique face aos níveis de 2023.
A segunda representação gráfica do relatório mostra uma expansão particularmente acentuada nos Estados Unidos, seguidos pelo Brasil e pela Indonésia. A procura adicional pós-conflito amplia significativamente a área requerida em relação às projecções anteriores à crise.
O problema económico surge quando a mesma terra possui usos concorrentes.
Um hectare utilizado para milho destinado a etanol pode deixar de produzir alimentos. A expansão de óleo de palma ou soja pode deslocar outras culturas ou estimular abertura de novas áreas agrícolas. Maior procura por terra pode igualmente aumentar rendas agrícolas e custos de produção.
Neste ponto, segurança energética e segurança alimentar entram directamente na mesma equação.
Alimentos Podem Absorver Parte Do Choque Energético
Os biocombustíveis de primeira geração são produzidos principalmente através de culturas que também possuem utilização alimentar ou animal.
Milho, cana-de-açúcar, soja e óleo de palma figuram entre as matérias-primas dominantes.
A Chatham House alerta que uma expansão rápida dos mandatos pode elevar a procura agrícola antes de mecanismos de sustentabilidade, certificação, ordenamento territorial e fiscalização conseguirem acompanhar o novo ritmo de produção.
O risco torna-se maior quando outros choques ocorrem simultaneamente.
Secas, cheias, El Niño, fertilizantes mais caros ou restrições ao comércio agrícola podem reduzir a oferta precisamente quando o sector energético aumenta a procura pelas mesmas culturas.
O estudo alerta, por isso, para a possibilidade de uma política concebida para reduzir vulnerabilidade energética gerar maior vulnerabilidade alimentar no médio prazo.
Segunda Geração Reduz O Conflito Com A Produção Alimentar
Nem todos os biocombustíveis apresentam a mesma estrutura de risco.
Os chamados biocombustíveis de segunda geração ou avançados podem utilizar resíduos agrícolas, biomassa residual, óleos alimentares usados e outros materiais que não exigem necessariamente a conversão de novas áreas agrícolas.
O estudo distingue precisamente estas alternativas dos combustíveis de primeira geração, produzidos a partir de culturas como milho e cana-de-açúcar.
Esta diferença deverá ganhar peso económico à medida que aumentam os critérios de sustentabilidade nos mercados consumidores.
Países capazes de desenvolver cadeias baseadas em resíduos agrícolas, subprodutos agro-industriais e matérias-primas produzidas em terrenos adequados podem obter parte dos benefícios energéticos sem reproduzir integralmente a pressão sobre alimentos e florestas.
A Chatham House recomenda limites mais claros de utilização da terra, critérios de sustentabilidade mais exigentes, protecção contra desflorestação e maior integração entre políticas energéticas, agrícolas e ambientais.
África Pode Ganhar Um Novo Mercado Agrícola
Para África, o crescimento mundial dos biocombustíveis apresenta uma oportunidade económica evidente.
O continente dispõe de extensas áreas agrícolas, produção de cana-de-açúcar, milho, oleaginosas e grandes volumes de resíduos provenientes da agricultura e agro-indústria.
Vários países estão a estruturar políticas próprias. Angola, por exemplo, aprovou uma Estratégia de Biocombustíveis 2025–2050 que prevê início da produção comercial até 2030 e metas iniciais de incorporação de 5% de bioetanol e entre 1% e 3% de biodiesel.
O aumento da procura internacional pode atrair investimento para agricultura comercial, biorrefinarias, logística e processamento.
Mas existe uma condição económica central: a expansão precisa de acrescentar produtividade agrícola e capacidade industrial, em vez de simplesmente transferir terra da produção alimentar para culturas energéticas.
Este ponto assume particular importância em economias africanas onde a produtividade agrícola permanece baixa e a insegurança alimentar continua elevada.
Moçambique Já Tem Uma Política De Mistura De Biocombustíveis
Em Moçambique, a expansão dos biocombustíveis cruza-se com a política nacional de incorporação de bioetanol e biodiesel nos combustíveis líquidos importados, concebida para reduzir a factura energética, estimular a agro-indústria e criar novas oportunidades de investimento e emprego.
O País aprovou uma Política e Estratégia de Biocombustíveis em 2009 e, posteriormente, estabeleceu um regulamento específico para biocombustíveis puros e respectivas misturas com produtos petrolíferos.
A base de políticas acompanhada pela Agência Internacional de Energia regista metas progressivas para incorporação de bioetanol na gasolina e biodiesel no gasóleo.
Há, contudo, uma evolução importante no calendário.
A versão de trabalho da NDC 3.0 de Moçambique, publicada em 2026, refere uma implementação diferida da Política e Estratégia Nacional de Biocombustíveis para o período 2030–2038, através da obrigatoriedade de incorporação da produção nacional nos combustíveis líquidos importados.
O documento estabelece quatro objectivos económicos: substituição parcial das importações de combustíveis, criação de emprego, desenvolvimento da agro-indústria e atracção de investimento privado e estrangeiro para a cadeia agrícola.
A NDC estima ainda que a mistura de biocombustíveis poderá representar cerca de 97% do potencial de redução de emissões previsto para as medidas do sector dos transportes até 2035, tornando esta política uma das componentes centrais da agenda climática do sector.
Substituir Importações Cria Uma Oportunidade Para Moçambique
A componente económica merece particular atenção.
Moçambique importa grande parte dos combustíveis líquidos utilizados no transporte. Produzir internamente uma parcela do etanol ou biodiesel necessário para mistura permitiria substituir parte dessas importações e criar procura doméstica para produção agrícola e agro-industrial.
A cadeia pode incluir agricultores, empresas agrícolas, processadores, transportadores, armazenagem, biorrefinarias e distribuidores.
Existe igualmente potencial para cogeração de electricidade a partir de resíduos da cana-de-açúcar e valorização de subprodutos agrícolas.
Um desenho bem estruturado pode criar novas ligações entre energia, agricultura, indústria e desenvolvimento rural.
O mercado internacional em expansão pode também abrir possibilidades de exportação, sobretudo para combustíveis certificados e produzidos segundo critérios ambientais exigidos pelos principais mercados consumidores.
A Escolha Das Culturas Define Parte Do Risco
A experiência internacional coloca, entretanto, uma advertência importante para Moçambique.
A expansão baseada em grandes áreas dedicadas exclusivamente a matérias-primas energéticas pode criar competição com culturas alimentares, pressionar comunidades rurais e acelerar alterações no uso da terra.
A própria NDC 3.0 reconhece que a conversão de florestas para agricultura constitui actualmente um dos principais factores de desflorestação no País.
Isto torna a selecção das matérias-primas particularmente relevante.
Resíduos de cana-de-açúcar, subprodutos agro-industriais, óleos usados e culturas adequadas a condições agroecológicas específicas podem apresentar uma equação diferente da expansão de monoculturas sobre terras férteis destinadas à produção alimentar.
O desafio económico consiste em elevar simultaneamente produção agrícola, produção energética e rendimento rural, sem converter segurança energética numa fonte adicional de pressão alimentar.
A Nova Corrida Aos Biocombustíveis Exige Uma Estratégia Diferente
A projecção de crescimento de 68% até 2030 confirma que os biocombustíveis estão a regressar ao centro da política energética mundial.
A razão imediata é o petróleo.
A razão estrutural é a procura por sistemas energéticos capazes de combinar segurança de abastecimento, redução de importações e descarbonização dos transportes.
Mas os 36 milhões de hectares adicionais calculados pela Chatham House revelam o custo potencial de expandir esta solução através dos mesmos modelos agrícolas utilizados no passado.
A aceleração global dos biocombustíveis pode ampliar em Moçambique o investimento na agricultura e agro-indústria, apoiar a substituição parcial de combustíveis importados e criar novas cadeias de emprego e rendimento. A concretização destes ganhos exige critérios rigorosos na escolha das matérias-primas e na utilização da terra e da água, preservando a produtividade agrícola e a segurança alimentar.
A oportunidade económica encontra-se numa cadeia de biocombustíveis que utilize produção nacional, resíduos, tecnologia e processamento doméstico, assegurando que a expansão energética também fortaleça a agricultura e a indústria.
A corrida mundial já começou. Para países com elevado potencial agrícola, a questão central passa por definir quanto valor conseguem criar por hectare sem comprometer a produção de alimentos e o capital natural que sustenta a economia rural.
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