
Caju Gera US$ 82,9 Milhões, Mas Exportação em Bruto Mantém Valor Por Capturar em Moçambique
- Castanha continua a dominar as receitas agrícolas externas, enquanto o país prepara um programa de US$ 374 milhões para multiplicar a produção e elevar a capacidade de processamento para mais de 482 mil toneladas até 2034
- exportações de castanha de caju crua renderam US$ 82,9 milhões no primeiro semestre de 2026, apesar de uma queda homóloga de 17,7%;
- receitas totais das exportações agrícolas cresceram 5%, para US$ 108,5 milhões;
- Vietname e Índia continuam entre os principais compradores da castanha moçambicana, duas economias com grandes indústrias de processamento;
- Moçambique processou cerca de 15 mil toneladas de caju em 2025, segundo dados divulgados pela African Cashew Alliance;
- Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034 prevê elevar a produção para 689 mil toneladas e a capacidade de processamento para mais de 482 mil toneladas;
- experiência da Côte d’Ivoire mostra como produção, processamento industrial, infra-estruturas e acesso a capital podem aumentar a retenção doméstica de valor.
A castanha de caju manteve-se como principal produto agrícola de exportação de Moçambique no primeiro semestre de 2026, gerando US$ 82,9 milhões. O desempenho confirma a importância económica de uma cultura que envolve centenas de milhares de produtores, mas expõe também uma característica estrutural da cadeia: uma parcela significativa da castanha continua a sair do país em bruto para alimentar indústrias de processamento localizadas nos principais mercados compradores.
Dados de desempenho do primeiro semestre divulgados pelo Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas indicam que as exportações agrícolas totalizaram US$ 108,5 milhões, crescendo 5% relativamente aos US$ 103,2 milhões registados no mesmo período de 2025. A castanha de caju crua representou mais de três quartos da receita reportada para este conjunto de exportações.
O resultado do caju foi, contudo, inferior ao do ano anterior. As receitas recuaram 17,7%, dos US$ 100,7 milhões registados no primeiro semestre de 2025 para US$ 82,9 milhões este ano. Em volume, a redução foi bastante menor: as exportações passaram de 74.664 para 73.391 toneladas.
A diferença entre a evolução do volume e a queda da receita indica que o desempenho externo não pode ser explicado apenas pela quantidade exportada. Preços, qualidade da castanha, composição das vendas e condições dos mercados compradores influenciam directamente o valor recebido pelo país.
A estrutura comercial acrescenta outra dimensão. Vietname e Índia foram novamente os principais destinos da castanha moçambicana, seguidos pela África do Sul. Vietname e Índia ocupam posições centrais no processamento mundial do caju e dependem parcialmente da importação de matéria-prima para alimentar as respectivas indústrias.
Exportação em Bruto Transfere Parte da Cadeia Industrial Para o Exterior
A castanha crua constitui matéria-prima para uma cadeia que continua depois de atravessar a fronteira moçambicana.
O processamento envolve secagem, calibragem, tratamento térmico, descasque, separação, classificação e embalagem da amêndoa. A cadeia pode ainda produzir derivados, incluindo óleo da casca, manteiga de caju, bebidas, farinhas e outros produtos alimentares.
A Autoridade de Desenvolvimento das Exportações de Produtos Agrícolas e Alimentares da Índia (APEDA) identifica, além da amêndoa, produtos como óleo da casca da castanha, bolo de casca, derivados do falso fruto e goma entre as possibilidades económicas associadas ao processamento. A Índia exportou US$ 265,08 milhões em amêndoas de caju no exercício de 2025/26, além de US$ 24,62 milhões em produtos torrados e de maior valor acrescentado e US$ 26,76 milhões em óleo da casca.
Para Moçambique, a discussão sobre captura de valor passa, portanto, pela quantidade de etapas da cadeia realizadas dentro do país.
A produção agrícola gera rendimento para o produtor. O processamento acrescenta procura por trabalhadores, equipamento, embalagem, transporte, serviços empresariais e financiamento. A comercialização de produtos acabados introduz novas margens e exige acesso directo aos mercados consumidores.
Quanto maior for a parcela dessas actividades realizada internamente, maior poderá ser a circulação doméstica do rendimento criado pelo caju.
Processamento Caiu Para Cerca de 15 Mil Toneladas em 2025
A distância entre produção e processamento ajuda a dimensionar a oportunidade industrial.
Segundo dados da consultora de commodities N’kalô divulgados pela African Cashew Alliance, Moçambique processou aproximadamente 15 mil toneladas em 2025, uma redução de 28% relativamente ao ano anterior. Em 2020, o processamento rondava 40 mil toneladas.
A trajectória contrasta com a recuperação da produção e comercialização. O Instituto de Amêndoas de Moçambique (IAM) informou que a campanha 2024/25 alcançou cerca de 195,4 mil toneladas de castanha comercializada, aproximando o país dos níveis históricos registados no início da década de 1970.
Produção crescente acompanhada por processamento reduzido cria uma estrutura em que a matéria-prima disponível supera largamente a quantidade transformada internamente.
Os constrangimentos são conhecidos no sector. Um levantamento da TechnoServe sobre a agro-indústria moçambicana identificou dificuldades de acesso a capital circulante e gestão do fluxo de caixa entre os factores associados ao encerramento de unidades de processamento. O mesmo estudo registou casos em que fábricas incapazes de liquidar empréstimos deixaram de conseguir financiamento para comprar matéria-prima nas campanhas seguintes.
A existência de fábricas, por si só, não assegura produção industrial. Uma unidade precisa de comprar castanha em quantidade suficiente, financiar stocks durante a campanha, operar equipamentos, pagar trabalhadores e manter acesso aos compradores internacionais.
US$ 374 Milhões Para Alterar a Escala da Cadeia
O Governo colocou a industrialização no centro do Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034.
O programa está avaliado em mais de US$ 374 milhões e pretende fortalecer investigação, fomento, extensão, comercialização e processamento. O Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas associa a iniciativa ao aumento da produção e do rendimento dos produtores e à criação de emprego.
As metas representam uma mudança significativa de escala.
A produção anual deverá passar das 158 mil toneladas para 689 mil toneladas até 2034. O número de produtores apoiados deverá aumentar de cerca de 230 mil para mais de 600 mil, enquanto a capacidade de processamento deverá crescer de 40 mil para mais de 482 mil toneladas.
A concretização simultânea dessas metas alteraria a relação entre agricultura e indústria na cadeia nacional.
Uma produção de 689 mil toneladas criaria uma oferta de matéria-prima superior em várias vezes aos níveis actuais. Uma capacidade industrial acima de 482 mil toneladas permitiria processar internamente uma parcela muito maior dessa produção.
O investimento necessário ultrapassa a construção de fábricas. Exige produtividade agrícola, qualidade uniforme da castanha, financiamento de campanha, armazenamento, logística, energia, tecnologia industrial, certificação e contratos com compradores.
Novas Regras Procuram Organizar Produção, Indústria e Comércio
O enquadramento regulatório também está a ser revisto.
Em Agosto, o Governo aprovou novas regras para implementar a Lei do Caju de 2023, substituindo o regime em vigor desde 2018. O quadro estabelece normas para cultivo, produção, secagem, embalagem, armazenamento, comercialização, transporte, processamento, exportação e importação.
A regulamentação procura harmonizar as diferentes fases da cadeia e reforçar a competitividade do produto moçambicano.
O aprovisionamento das fábricas constitui uma das áreas sensíveis dessa articulação. Em Dezembro de 2025, o Ministério da Agricultura aprovou preços de referência de exportação entre US$ 1.250 e US$ 1.440 por tonelada, dependendo da qualidade, e determinou a abertura das exportações a partir de 19 de Dezembro, procurando assegurar previamente o abastecimento da indústria nacional.
A política precisa equilibrar interesses distintos. Produtores procuram o melhor preço possível pela castanha. Processadores necessitam de matéria-prima a custos que permitam competir internacionalmente. Exportadores procuram aproveitar compradores externos. E o Estado procura aumentar rendimento rural, emprego, exportações e transformação industrial.
Uma estrutura em que o processamento doméstico seja competitivo reduz a necessidade de administrar essa relação exclusivamente através de restrições comerciais.
Côte d’Ivoire Aumenta Processamento e Cria Emprego
A experiência da Côte d’Ivoire oferece uma referência africana para a industrialização do caju.
Segundo o Banco Mundial, a capacidade de processamento do país passou de 68.515 toneladas em 2015 para 350 mil toneladas em 2024. Os investimentos associados à cadeia contribuíram para a criação de mais de 18.321 empregos, 66% ocupados por mulheres, além do desenvolvimento de zonas agro-industriais e construção ou reabilitação de 1.800 quilómetros de estradas de acesso.
O país pretende processar internamente mais de metade da sua produção até 2030.
A estratégia combina capacidade industrial, infra-estruturas, acesso a mercados, tecnologia, formação de produtores e financiamento. O Banco Mundial identifica o acesso a capital circulante entre os factores necessários para continuar a expandir o processamento.
Os resultados mais recentes indicam que a industrialização está a ganhar escala. Dados divulgados em Setembro pelo portal especializado PWIC apontam para uma produção ivoiriense de 1,55 milhão de toneladas em 2025, das quais cerca de 600 mil toneladas foram processadas localmente.
A comparação mostra que aumentar a produção agrícola e construir uma indústria competitiva são processos relacionados, mas exigem instrumentos próprios.
Vietname Compra Matéria-Prima e Vende Produto Processado
A posição do Vietname na cadeia mundial ilustra a economia do processamento sob outro ângulo.
O país possui uma indústria cuja capacidade excede largamente a oferta doméstica de castanha, levando os processadores vietnamitas a importar matéria-prima de África e de outros produtores. O Departamento indiano de promoção das exportações agrícolas assinala que a indústria vietnamita continua fortemente dependente de castanha africana importada.
É nesse circuito que entra parte da produção moçambicana: Moçambique exporta castanha crua para um país especializado em transformar, classificar, embalar e comercializar amêndoas nos grandes mercados consumidores.
A relação comercial é economicamente racional enquanto os processadores vietnamitas conseguirem realizar essas actividades de forma competitiva e os produtores moçambicanos encontrarem nesses compradores um mercado remunerador.
Para Moçambique, a oportunidade consiste em desenvolver capacidade para executar internamente uma parcela crescente das mesmas etapas, preservando simultaneamente mercados para a produção que não possa ser absorvida pela indústria nacional.
Meta de 482 Mil Toneladas Exige uma Nova Economia Industrial do Caju
A passagem de 40 mil para mais de 482 mil toneladas de capacidade de processamento até 2034 implica uma expansão superior a dez vezes.
A dimensão da meta exige investimento privado, fábricas competitivas, financiamento de campanha e capacidade de operar próximo dos níveis instalados. A experiência recente do próprio país mostra que capacidade nominal e processamento efectivo podem divergir significativamente.
Também será necessário encontrar mercados para volumes muito superiores de amêndoa processada. A expansão da indústria deverá, por isso, avançar em paralelo com certificação, qualidade, promoção comercial e relações directas com compradores na Europa, Ásia, Médio Oriente, América do Norte e mercados regionais.
O crescimento da procura internacional oferece espaço para essa estratégia. O International Nut and Dried Fruit Council assinalou em 2025 procura firme por caju na Europa, China e Médio Oriente, apesar das mudanças nas condições comerciais e nos custos internacionais.
A indústria nacional terá de competir nesses mercados com processadores que acumularam escala, tecnologia, redes comerciais e experiência durante décadas.
US$ 82,9 Milhões Mostram Peso do Caju — e Dimensão do Valor Por Capturar
A liderança do caju nas exportações agrícolas confirma a relevância económica alcançada pela cultura. Os US$ 82,9 milhões obtidos em seis meses representam uma fonte importante de divisas e rendimento para uma cadeia com forte presença nas zonas rurais.
O próximo ciclo de crescimento está associado à forma como o país utilizará a matéria-prima que produz.
A meta de 689 mil toneladas de produção e mais de 482 mil toneladas de capacidade de processamento aproxima agricultura, indústria e exportação numa escala muito superior à actual. O efeito económico poderá aparecer na criação de emprego industrial, serviços logísticos, embalagens, financiamento, manutenção, comércio e novos produtos derivados do caju.
O percurso da Côte d’Ivoire mostra que o aumento do processamento pode criar milhares de empregos e desenvolver novas infra-estruturas produtivas. A experiência moçambicana demonstra, por sua vez, que fábricas precisam de capital circulante, fornecimento regular de castanha e condições competitivas para permanecer operacionais.
Moçambique já recuperou parte significativa da sua capacidade de produzir caju. A meta para 2034 coloca agora o centro da estratégia económica na capacidade de transformar uma parcela muito maior dessa produção dentro do país e vender ao
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