Liquidez, Crédito ao Estado e Divisas: O Que Revela o Mercado Monetário no Arranque de Outubro

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  • Os dados do Banco de Moçambique mostram uma passagem do final de Setembro para Outubro marcada por forte oscilação da liquidez bancária, recurso crescente à Facilidade Permanente de Cedência e manutenção de cerca de 154,5 mil milhões de MT em Bilhetes do Tesouro utilizados pelo Estado. No mercado cambial, a taxa de referência permanece estável, enquanto os fluxos efectivos de divisas apresentam elevada volatilidade.
QUESTÕES-CHAVE
  • Desvio de liquidez em moeda nacional atingiu -9,55 mil milhões de MT em 2 de Outubro;
  • Facilidade Permanente de Cedência aumentou para 4,9 mil milhões de MT, enquanto os depósitos dos bancos no Banco de Moçambique recuaram para 1,66 mil milhões;
  • Saldo dos Bilhetes do Tesouro em utilização pelo Estado manteve-se em cerca de 154,5 mil milhões de MT;
  • Bancos detinham 146,6 mil milhões de MT em BT adquiridos no mercado primário e 168,9 mil milhões associados a operações de reverse repo;
  • Compras de dólares dos bancos ao público caíram para US$ 19,46 milhões em 2 de Outubro, enquanto as vendas recuaram para US$ 18,47 milhões;
  • Taxa de câmbio de referência permaneceu em 63,91 MT/USD, apesar das oscilações nas transacções efectivas dos bancos e das casas de câmbio.

Os primeiros dias de Outubro revelam alterações importantes nas condições de liquidez do sistema bancário moçambicano, num contexto em que o mercado monetário continua a acomodar simultaneamente as necessidades de tesouraria das instituições financeiras, o financiamento do Estado e os fluxos de moeda externa.

A leitura conjunta dos Diários dos Mercados do Banco de Moçambique, entre o final de Setembro e 2 de Outubro, mostra uma mudança particularmente expressiva na posição de liquidez em moeda nacional.

Em 29 de Setembro, o desvio de liquidez relativamente às reservas obrigatórias era positivo em 2,28 mil milhões de MT. No dia seguinte, situava-se em 2,75 mil milhões. Já no início de Outubro, a situação alterou-se significativamente e, em 2 de Outubro, o indicador apresentava um défice de 9,55 mil milhões de MT.

O movimento foi acompanhado por maior recurso dos bancos à Facilidade Permanente de Cedência do Banco de Moçambique e por uma redução acentuada dos recursos colocados na Facilidade Permanente de Depósito.

Os números oferecem uma leitura da forma como as condições monetárias se estão a ajustar depois das decisões anunciadas pelo Comité de Política Monetária e ajudam a identificar as tensões que permanecem no funcionamento quotidiano do sistema financeiro.

Bancos Recorrem Mais à Cedência de Liquidez

A utilização da Facilidade Permanente de Cedência passou de 3,5 mil milhões de MT no final de Setembro para 4,9 mil milhões em 2 de Outubro.

No sentido inverso, a Facilidade Permanente de Depósito registou uma redução muito expressiva.

Num dos últimos registos de Setembro, os bancos mantinham 28,73 mil milhões de MT nesta facilidade. Posteriormente, o montante caiu para 4,25 mil milhões, depois para 2,66 mil milhões, 1,71 mil milhões e finalmente 1,66 mil milhões de MT em 2 de Outubro.

A combinação dos dois movimentos — maior recurso à cedência e menor colocação de excedentes na facilidade de depósito — aponta para condições de liquidez significativamente diferentes das observadas alguns dias antes.

A evolução não deve, contudo, ser interpretada a partir de um único dia. As facilidades permanentes respondem às necessidades diárias de gestão de tesouraria dos bancos e podem apresentar oscilações consideráveis.

A sequência observada entre o final de Setembro e o início de Outubro mostra, ainda assim, uma redução substancial da disponibilidade imediata de liquidez no sistema.

Défice de Liquidez Supera 9,5 Mil Milhões de MT

Em 2 de Outubro, a taxa média efectiva das reservas obrigatórias em moeda nacional situava-se em 37,53%, enquanto o desvio de liquidez atingia -9,55 mil milhões de MT.

O indicador representa uma alteração importante relativamente aos valores positivos observados no final de Setembro.

No segmento em moeda externa, o quadro era diferente. A taxa média efectiva das reservas obrigatórias situava-se em 31,63% e o desvio de liquidez permanecia positivo em US$ 55,55 milhões.

Os dois movimentos mostram que as condições de liquidez em meticais e moeda externa não estavam a evoluir da mesma forma.

A gestão destes desequilíbrios é particularmente importante para a transmissão da política monetária. Quando a liquidez em moeda nacional se torna mais limitada, os bancos podem recorrer ao mercado interbancário ou às facilidades do banco central para responder às suas necessidades de curto prazo.

Em 2 de Outubro, as operações repo overnight entre bancos totalizaram 1,6 mil milhões de MT, acima dos 1,45 mil milhões registados anteriormente, mantendo uma taxa média ponderada de 9,25%.

Foram igualmente transaccionados 200 milhões de MT em permutas de liquidez overnight, à mesma taxa.

Bilhetes do Tesouro Continuam a Absorver Recursos

A posição dos Bilhetes do Tesouro acrescenta outra dimensão à leitura do mercado monetário.

Em 2 de Outubro, os bancos comerciais detinham 146,63 mil milhões de MT em BT adquiridos no mercado primário. Outros 168,92 mil milhões encontravam-se associados a operações de reverse repo.

As instituições financeiras não monetárias detinham 25,85 mil milhões de MT, enquanto empresas e particulares possuíam cerca de 10,91 mil milhões.

O valor descontado da carteira de BT do Tipo A e o saldo em dívida utilizado pelo Estado situavam-se ambos em 154,54 mil milhões de MT.

A relação entre liquidez bancária e financiamento público merece particular acompanhamento num ambiente em que o sistema financeiro continua a desempenhar um papel relevante na absorção de títulos públicos.

Quando uma parcela significativa dos recursos disponíveis permanece aplicada em instrumentos do Estado, as condições gerais de liquidez e o custo relativo das diferentes aplicações financeiras tornam-se relevantes para as decisões de concessão de crédito.

Os dados diários, isoladamente, não permitem concluir que os BT estejam a provocar uma redução específica do crédito ao sector privado. Mostram, contudo, a dimensão da exposição do sistema aos instrumentos de dívida pública e a necessidade de acompanhar a sua evolução em conjunto com o crédito à economia.

Mercado Cambial Mantém Taxa de Referência Estável

No mercado cambial, a estabilidade da taxa de referência continua a contrastar com oscilações nos volumes negociados.

Entre os bancos comerciais e o público, as compras de dólares atingiram US$ 82,33 milhões num dos últimos dias de Setembro, enquanto as vendas chegaram a US$ 50,44 milhões.

No dia seguinte, as compras recuaram para US$ 34,62 milhões e as vendas para US$ 27,24 milhões.

Em 1 de Outubro, as operações voltaram a aumentar: os bancos compraram US$ 42,46 milhões e venderam US$ 36,90 milhões. Em 2 de Outubro, os volumes diminuíram novamente para US$ 19,46 milhões em compras e US$ 18,47 milhões em vendas.

A sucessão destes movimentos mostra a volatilidade dos fluxos diários de moeda externa, embora os bancos tenham mantido uma posição líquida positiva em dólares nos dias analisados.

Considerando todas as moedas convertidas em dólares, o saldo de 2 de Outubro foi ligeiramente negativo, em US$ 0,41 milhão, com compras de US$ 26,83 milhões e vendas de US$ 27,24 milhões.

Mercado Acumulou Saldo Líquido Próximo de US$ 1 Mil Milhões

Uma perspectiva mais ampla surge dos dados acumulados disponibilizados pelo Banco de Moçambique.

Entre Janeiro e Setembro, as operações dos bancos comerciais com o público, considerando todas as moedas convertidas para dólares, totalizaram cerca de US$ 6,40 mil milhões em compras e US$ 5,40 mil milhões em vendas.

A diferença corresponde a um saldo líquido acumulado de aproximadamente US$ 996,6 milhões.

No segmento específico do dólar, as compras acumuladas alcançaram US$ 5,43 mil milhões e as vendas US$ 4,01 mil milhões, resultando num saldo positivo de cerca de US$ 1,42 mil milhões.

Os dados também mostram diferenças significativas entre moedas. No rand, por exemplo, as vendas acumuladas superaram as compras, gerando um saldo negativo superior a US$ 530 milhões, compatível com a importância da moeda sul-africana nas relações comerciais e nos pagamentos efectuados pelas empresas e famílias.

Estes números medem as operações realizadas entre os bancos comerciais e o público e, por isso, não correspondem directamente à disponibilidade líquida de divisas de toda a economia. Constituem, contudo, um indicador relevante dos fluxos que atravessam o mercado cambial formal.

Metical Mantém Referência em 63,91 Por Dólar

Apesar das oscilações dos volumes transaccionados, a taxa média de referência USD/MZN permaneceu em 63,91 MT por dólar durante o período analisado.

As taxas efectivamente praticadas pelos bancos apresentaram pequenas variações.

Em 2 de Outubro, a taxa média ponderada dos bancos comerciais situou-se em 64,02 MT/USD, contra 64,13 no dia anterior. Nas casas de câmbio, a média passou de 70,07 para 69,85 MT/USD.

A diferença entre a taxa de referência e as taxas praticadas nos diferentes segmentos mostra que a estabilidade do indicador oficial convive com movimentos nas condições efectivas de compra e venda de moeda externa.

A disponibilidade efectiva de divisas continua, por isso, a ser uma variável importante para empresas dependentes de importações, sobretudo num período em que combustíveis, transportes e outros custos externos permanecem elevados.

Liquidez Torna-se Indicador a Acompanhar Depois do CPMO

A evolução dos primeiros dias de Outubro acrescenta informação à leitura das recentes decisões de política monetária.

O Banco de Moçambique continua a operar num contexto em que precisa gerir simultaneamente inflação, liquidez do sistema bancário, funcionamento do mercado cambial e transmissão das suas decisões para a economia.

Os dados diários mostram que a liquidez pode sofrer alterações significativas num intervalo curto. Entre o final de Setembro e 2 de Outubro, o sistema passou de excedentes relativamente confortáveis para uma posição deficitária em moeda nacional, acompanhada por maior recurso à Facilidade Permanente de Cedência.

Ao mesmo tempo, a exposição aos Bilhetes do Tesouro permanece elevada e os fluxos cambiais apresentam oscilações significativas, apesar da estabilidade da taxa de referência.

Será importante observar, nas próximas semanas, se o défice de liquidez em meticais se mantém, como evolui o recurso dos bancos às facilidades do Banco de Moçambique e que trajectória assume a carteira de títulos públicos.

Esses indicadores ajudarão a avaliar a forma como as condições monetárias estão a ajustar-se no último trimestre do ano e os seus possíveis efeitos sobre o custo e a disponibilidade do crédito, o financiamento do Estado e o funcionamento do mercado cambial.

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