
BNI: Dez anos de superação e ajustamentos estratégicos
Em quase 10 anos de existência, o BNI parece ter experimentado já de tudo um pouco que uma instituição secular passa. O Presidente do Conselho de Administração, Tomás Matola, fala sobre isso com certa reserva, recusa triunfalismos, porque se acha inconformado. “Podíamos ter conseguido mais, nesses 10 anos”, afirma. Mas, satisfeito com a maturidade institucional conseguida em relativamente pouco tempo de vida para uma instituição empresarial, sobretudo, no ramo financeiro, lembra-se que o banco teve que se reinventar várias vezes, desde 2010, até hoje. “Não podíamos nos resignar”, recorda.
Faz omeletes sem ovos? Perguntámos. “Não é bem assim, mas quem não tem cão caça com gato”, ripostou, fitando nos olhos.
Segredos? “Estar preparado para mudanças sempre que eles se mostrem a solução apropriada a cada momento ou desafio. Não temas dogmas”, retorquiu.
Siga a entrevista com este jovem gestor de topo do ramo financeiro, em exclusivo para O.Económico

Tomás Matola – Presidente do Conselho de Administração
Como é que o BNI entra para 2020?
O BNI entra para o ano de 2020 com muita esperança e, sobretudo, com muita espectativa de realização dos seus objetivos traçados já desde o ano passado. Além disso, o BNI entende que estão já criadas as condições para avançar com os trabalhos no ano de 2020, mas numa perspectiva de recuperação dos seus principais indicadores de desempenho, que nos últimos dois anos têm vindo a deteriorar-se em virtude da crise financeira e económica que assolou o país. Portanto, a nossa expectativa em relação a 2020 é muito boa. O nosso plano de actividades e orçamento para 2020 também está em alinhamento com o nosso plano estratégico, e os pressupostos macroeconómicos indicam igualmente que há condições criadas para um ano de sucesso.
Em todo o mundo, bancos de desenvolvimento estão avaliando sua actuação e observando onde esses esforços têm mais impacto. Tendo em conta aquilo que é a missão e o objectivo do BNI, qual é a avaliação que faz da actuação do banco? Olhando para o ambiente em que actuamos nesses últimos anos, e tendo em conta os recursos de que dispúnhamos, faço uma avaliação muito positiva, pois, num ambiente de muitas adversidades e com poucos recursos, o BNI conseguiu fazer face a sua missão, financiando a economia e mobilizando recursos financeiros para financiar aqueles projectos que não podíamos financiar com o nosso próprio balanço. Todavia, quando faço uma avaliação em função daquilo que efectivamente devia ser o papel de um banco de desenvolvimento, eu diria que ainda não estou satisfeito porque em virtude de o banco ainda não receber recursos financeiros públicos para financiar a economia a preços mais acessíveis, sinto que ainda não estamos num bom nível, ainda não estamos a desempenhar devidamente o nosso papel, porque ainda não dispomos dos recursos adequados para financiar o real desenvolvimento.
Porém, julgo importante explicar o que é um banco de desenvolvi- mento. Um banco de desenvolvimento é uma instituição financeira normalmente detida pelo Estado a 100% ou então parcialmente, cuja função é de repassar para a economia fundos públicos, isto é, recursos financeiros do Estado destinados a financiar o Desenvolvimento, em condições de preços e prazos que sejam ajustados ao perfil de risco e retorno dos projectos de Desenvolvimento (isto é, taxas de juro mais baixas e prazos de vencimento mais longos). É necessário, para além disso, que haja esses recursos para financiar projectos de infra-estruturas, cujos retornos esperados são mais baixos e os prazos são mais longos, no entanto, têm maiores impactos sociais e económicos para além de impactos intersectoriais e que por consequência interessam ao Estado. Portanto, estes projectos são financiados por fundos públicos através de um banco de desenvolvimento. Isso para dizer que um banco de desenvolvimento não funciona com recursos do mercado. Um banco de desenvolvimento não pode ir ao mercado financiar-se a preços do mercado, porque ao fazer isso terá que repassar esses recursos à economia a preço do mercado, o que não é adequado para certos sectores da economia como infra-estruturas e agricultura, sobretudo. Sabemos que a agricultura requer condições muito especiais principalmente no nosso país, onde está actividade é basicamente familiar. A agricultura em Moçambique não é maioritariamente mecanizada, precisa de condições especiais e o banco de desenvolvimento tem este papel de financiar as condições especiais, mas para tal esses recursos devem vir ou de fundos públicos ou do próprio Estado, ou então de parceiros financeiros de desenvolvimento, também com preços mais ajustados aos sectores que o banco tem que financiar.
Aonde o BNI concentra, neste momento, os seus maiores esforços? E porquê?
Ora, sendo um banco do Estado, sempre olhamos para aquilo que são as prioridades do Governo. Por exemplo, no mandato passado, as áreas prioritárias eram quatro, nomeadamente: infra-estruturas, agricultura, energia e turismo. Logo, no nosso modelo de negócios, olhamos para estes sectores como prioritários, não descorando naturalmente os outros sectores que são igualmente importantes. Nós actuamos à volta destes sectores, procurando encontrar soluções para as diferentes necessidades, para os diferentes problemas que os operadores destes sectores enfrentam.
Começando pela área de infra-estruturas, como se pode imaginar, requer recursos financeiros avultados que com o nosso próprio balanço não conseguimos fazer face. Tal como disse, nós nunca recebemos dinheiro do Estado, então, o que fazemos para participar nesses sectores é mobilizando estes fundos junto dos nossos bancos congéneres, outros bancos de desenvolvimento com maior capacidade e balanços mais robustos; e olhamos para outras instituições financeiras de desenvolvimento. Fazemos parcerias e procuramos mobilizar recursos financeiros para financiar directamente os projectos ou então para financiar os projectos através do balanço do BNI, isto é, financiando-se o BNI pelo parceiro e, posteriormente, o BNI financiar os beneficiários finais. Assim, trabalhamos um pouco nesses dois modelos. No primeiro caso, dependendo das condições que o próprio financiador ou parceiro apresenta, nós actuamos apenas como mobilizador de recursos em que o financiador financia directamente o projecto e nós ganhamos um sucess fee, ou seja, uma taxa de sucesso. Mesmo que não tenhamos sido directamente nós a financiar, ainda assim, sentimos que contribuímos, pois, conseguimos trazer um parceiro com recursos para concretizar um projecto, transformar um projecto no papel em realidade que vai gerar impacto no desenvolvimento.
A outra forma, além da descrita anteriormente, o parceiro financia-nos até ao máximo do limite da nossa capacidade e nós repassamos para os projectos. Nos outros casos fazemos cofinanciamento com o parceiro, em que entramos com até o máximo da nossa capacidade regulamentar em termos de exposição por cliente (25% dos nossos fundos próprios) e o nosso parceiro entra com a maior parte do valor e assim conseguimos financiar um projecto grande que, normalmente, requer recursos mais avultados que com o nosso balanço não conseguiríamos financiar. No sector de infraestruturas conseguimos actuar utilizando esta abordagem. No caso da A agricultura, conforme disse, é um sector que requer condições muito especiais. Os recursos do nosso balanço neste momento, são, mobilizados no mercado através da emissão de obrigações onde os principais investidores que compram os nossos títulos são os mesmos que também financiam o sector financeiro, através de depósitos e/ou aquisição de títulos, o que significa que as taxas de juro não são muito diferentes das taxas do mercado. Assim, o nosso custo de funding não é muito diferente do custo de funding dos outros operadores, por isso que ao repassar esses recursos para a economia não conseguimos aplicar as taxas de juro que são adequadas, por exemplo, para a agricultura. Por isso, olhando para as nossas fontes do recurso do balanço, não estaríamos em condições de financiar a agricultura. Então qual é a estratégia que nós adoptamos? Porque sentimos que sendo um banco de desenvolvimento temos a obrigação de financiar a agricultura, não tendo recursos adequados, temos que encontrar soluções alternativas, porque também estamos aqui para encontrar soluções perante as adversidades que o país apresenta.
Assim, a solução que encontramos para financiar a Agricultura foi a constituição de fundos ou linhas de crédito específicas, financiadas por outras instituições com recursos mais baratos e que também actuam na promoção do desenvolvimento, e aí actuamos como gestores dessas linhas/fundos. Os parceiros têm os recursos, nós constituímos fundos ou linhas de crédito, desenhamos as condições em coordenação com o próprio financiador, anunciamos aos beneficiários e começamos a financiar. Assim, só nessas condições que conseguimos intervir na agricultura com condições efectivamente ajustadas ao perfil de risco e retorno deste sector. Alguns exemplos: temos um projecto chamado FAE (Linha de Financiamento ao Agronegócio e Empreededorismo) que foi financiado pelo Reino dos Países Baixos através da Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze e desenhamos um conceito que foi muito interessante e até agora estamos felizes. É uma linha que envolve toda a cadeia, portanto começamos a preparar os agricultores desde a forma como preparar o Business Plan, com a assessoria do Instituto para Promoção de Pequenas e Médias Empresas (IP- EME). Há recursos para fazer face ao pagamento dessa assessoria e depois, uma vez financiados, segue-se um componente de monitoria e acompanhamento do processo de produção para assegurar que de facto os produtores vão implementar os projectos de acordo com os planos desenhados e depois tem um último componente de comercialização, onde aparecemos a apoiar os produtores na comercialização, através de financiamento dos próprios intervenientes de distribuição da produção final. Portanto, aí asseguramos a especialização temos os produtores apenas a produzirem e temos os distribuidores a assegurarem a distribuição e a venda do produto final. Está sendo uma experiência interessante e parte significativa de fornecimentos de produtos agro-pecuários na zona centro é assegurada pelos beneficiários do projecto FAE.
Temos outros projectos. Apoiamos também o SUSTENTA na implementação do projecto como parceiro financeiro, e criámos outras linhas com o FDA e o INCAJU, destinados a promover maior acesso ao crédito bancário, para apoiar projectos agrícolas e do subsector do cajú, sobretudo hortícolas, cereais e carnes vermelhas em todo país no valor global de 250 milhões de meticais. Para a operacionalização deste fundo, o banco criou uma linha de credito dedicada ao agro-negócio, no valor inicial de MT 100M com condições de taxas de juro bonificadas, entre 8-12%. Agora estamos na fase final de estruturação de uma linha de financiamento aos projectos de empreendedores rurais financiado pelo FIDA. São cerca de USD 60 milhões nos próximos cinco a seis anos. Trata-se de um projecto que vai financiar todas as actividades nas zonas rurais para promover o desenvolvimento de pequenos empresários e dinamizar ainda mais a economia. Neste momento, estamos a negociar com outros parceiros recursos financeiros mais baratos que vão permitir dar continuidade do apoio ao sector agrícola. Dizer que em todos estes projectos as taxas de juro estão a um dígito, ou seja, abaixo de 10%. De contrário não seria possível financiar a agricultura. Esta é a estratégia que nós adoptamos para actuar no sector da agricultura. No Sector de Energia, não é diferente de como actuamos no de Infra-estruturas, trabalhamos com bancos de desenvolvimento através daque les dois modelos num em que actuamos como mobilizador de recursos e noutro em que recebemos recursos como nosso “passivo” e depois repassamos para os projectos. Neste Sector de Energia, por exemplo, tivemos uma parceria relevante e financiamos um projecto chamado “Projecto de Emergência da Electricidade de Moçambique”, avaliado em cerca de USD 162 milhões, dos quais fechou-se a primeira fase, no ano passado, no valor de cerca de USD 81.3 milhões, financiamento assegurado pelo DBSA, Banco de Desenvolvimento da África do Sul, que é o nosso parceiro muito forte com quem temos estado a trabalhar e com resultados visíveis e muito bons. Para além disso, participamos no financiamento da Coral Sul, projecto de liquificação do Gás Natural, onde, neste momento, a plataforma está em construção na Correia do Sul. Aqui nós entramos com USD 100 milhões, contudo por não termos condições para financiar com esse valor, negociamos com o TDB para passar-nos parte do financiamento, USD 8 milhões, ficando eles com o remanescente em USD 92 milhões. Como se vê, mesmo sem recursos do nosso balanço conseguimos participar de um projecto de grande dimensão num sector tão complexo. No Sector do Turismo, que entramos com o nosso balanço. Trata-se de um sector comercial e com boas margens comerciais, há espaço para ter financiamento a taxas de juro de mercado/comerciais daí que procuramos entrar usando o nosso próprio balanço, aplicando taxas comerciais.
Os bancos de desenvolvimento se tornam peça cada vez mais fundamentais à medida que o mundo busca angariar recursos necessários para atingir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Como é que o BNI tem contribuído para o alcance dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável em Moçambique?
Eu acho que nós contribuímos de forma muito óbvia, porque só a própria definição da nossa missão de financiar aqueles projectos que têm impacto não só económicos, mas sobretudo só ciais, o que significa que quando nós avaliamos os projectos não olhamos apenas para a viabilidade económico-financeira, mas também olhamos e com muito destaque, para a viabilidade social dos projectos. Quais os impactos sociais que estes projectos vão gerar? Olhando para a questão de emprego, financiamos projectos que para além de empregos directos, as actividades que o projecto vai desenvolver, vão gerar outros pequenos negócios que, por sua vez, vão criar mais empregos.
Mas também pensamos que actuando nas zonas rurais ou financiando projectos de empreendedores rurais, desenvolvendo as economias locais, contribuímos, por exemplo, para a redução da fome; para a melhoria da qualidade de vida das populações, com redução, por exemplo, da desnutrição crónica; criamos maior acesso à educação àquelas famílias que não tinham rendimento, pois, tendo acesso a uma empresa financiada por BNI e que faz fo mento da produção local, significa que estas famílias passam a produzir tendo noção de a quem entregar a sua produção e, automaticamente, passam a ter rendimento que conseguem comprar material escolar e alimentar melhor as suas crianças, para melhorar o seu desempenho escolar e crescerem saudáveis. É desta forma que contribuímos para o alcance dos objectivos de desenvolvimento sustentável.
O BNI foi constituído em 2010 pelo Estado, para financiar o desenvolvimento através da concessão de produtos de crédito a taxas de juro bonificadas. Entretanto, actualmente, aposta em recursos com características comerciais tal como qualquer outra instituição do sistema financeiro nacional. Por que o BNI mudou a sua abordagem?
Eu não chamaria isso de mudança de abordagem, chamaria sim de estratégia de sobrevivência ou redefinição de estratégia. Isso justifica-se da seguinte forma: para desempenhar o papel de banco de desenvolvimento, o BNI precisa de recursos do Estado. Aqueles recursos do orçamento destinados a apoiar o desenvolvimento devem ser repassados a economia através do BNI. Todavia, durante este período, o BNI não recebeu dinheiro nenhum do Estado, por conseguinte, não estava em condições de financiar a economia a taxas de juro baixas ou ajustadas ao nível de receitas dos sectores de desenvolvimento, e nessa perspectiva ou então o Banco fechava ou encontrávamos uma solução de continuar a sobreviver e ser resilientes. Então, como solução, tivemos de fazer um mix, pois, apesar do Governo ter nos atribuído esta nova função de banco de desenvolvimento em 2013, a nossa licença é universal, o que nos permite desenvolver todas actividades que os bancos comerciais desenvolvem. Então nós decidimos que não vamos ficar parados. O país está a enfrentar dificuldades, o Governo está a enfrentar dificuldades e nós estamos a acompanhar, então vamos encontrar alternativas, vamos diversificar as nossas fontes de recursos financeiros, as nossas fontes de receitas. Foi, a partir daí, que desenvolvemos serviços similares dos bancos comerciais, adicionando-os aos nossos produtos típicos de banca de desenvolvimento e de investimento, mas que nos permitem gerar uma receita para podermos ser mais resilientes até uma altura que o país estiver em condições de nos prover recursos, tal como tem que ser na nossa qualidade de banco de desenvolvimento. Assim, alargamos os nossos produtos, fizemos um mix dos produtos de banca de desenvolvimento e produtos de banca comercial. Mas atenção, os produtos da banca comercial são destinados àqueles projectos cujo perfil da receita é ajustado para receber crédito comercial. O que acontece, assim, é que nós, para a agricultura, desenhamos produtos específicos, por isso a agricultura tem taxas de juro baixas, usando recursos dos nossos parceiros de desenvolvimento, depois desenhamos produtos de banca comercial com o nosso balanço, o dinheiro que nós vamos buscar no mercado através da emissão de obrigações, a preço de mercado.
Portanto, foi um mix que nos permitiu diversificar as receitas e tornar o banco rentável. Como resultado disso é que apesar destas adversidades, sempre produzimos lucros e sempre pagamos os dividendos. Portanto, foi essa estratégia que nós adoptamos para sobreviver, pois nós pensamos que estamos aqui para encontrar soluções. Ao invés de ficar todo o tempo a reclamar, a chorar, procuramos encontrar soluções e mostramos a sociedade que o BNI é um projecto viável. Agora, não tenho dúvidas para afirmar que o BNI é um projecto viável, porque operou todo este período sem recursos do Estado, encontrou soluções que o permitiram gerar lucros e inclusivamente pagar dividendos ao accionista, o que quer dizer que numa situação em que recebesse os recursos do Estado aí os resultados seriam muito mais. Como se diz em gíria popular: nós fizemos omelete sem ovos.
À que distância se encontra o BNI de se assumir na plenitude como um Banco de Desenvolvimento, volvidos perto de 10 anos após a sua fundação?
Neste momento, posso garantir lhe que o único recurso que precisamos para efectivamente operarmos como banco de desenvolvimento é o dinheiro. Nós como banco estamos consolidados, temos uma estrutura de governação que apesar de ser um banco de Estado opera normalmente tal como os outros bancos. A nível interno, temos todas as áreas de fiscalização e controlo, nomeadamente, Gabinete de Gestão de Risco, Gabinete de Compliance e Controlo Interno e Gabinete de Auditoria Interna. A nível de órgãos estatutários de fiscalização e controlo, temos um Conselho Fiscal e uma Comissão de Controlo Interno, Compliance, Risco e Auditoria Interna, ambos compostos por membros externos ao Banco. Quanto à fiscalização e controlo por entidades externas, temos Auditor Externo e estamos sujeitos à supervisão prudencial do Banco Central. O Banco Central faz inspecções, constata algumas coisas que não estão boas e recomenda-nos. E nós trabalhamos para melhorar, estamos em constante comunicação com o Banco Central, procuramos sempre melhorar a nossa forma de actuação sobretudo sob ponto de vista de governance.
Relativamente aos mercados, acho que também estamos consolidados, aqueles que são os nossos mercados-alvo já estão consolidados. Quer no segmento de banca de desenvolvimento, que no segmento de banca de investimento sabemos quais sãos os mercados que temos que atacar, os principais parceiros com quem temos que trabalhar. Já temos todos os produtos dos dois seguimentos desenhados e bem estruturados. Portanto, o que nós precisamos são os recursos. Do ponto de vista de capital humano, posso-lhe garantir que estamos muito bem servidos, apostamos muito na contratação de mão-de-obra formada e qualificada, mas também temos feito uma coisa interessante, que são as parcerias com universidades, em que no final de cada ano recebemos os melhores estudantes dos cursos afins, aos quais oferecemos estágios remunerados e no fim dos estágios os avaliamos e sempre ficamos com os melhores. Então posso garantir que aqui no banco temos mão-de-obra bem qualificada e asseguro ainda que temos estado a ser alvo de ataques por parte dos outros operadores. Por exemplo, esta semana, perdemos dois colaboradores. No final do ano passado, perdemos outros dois colaboradores. Todos foram aliciados e contratados por outros operadores. Isso porque apostamos muito na formação do nosso pessoal. Nossos colaboradores têm muita qualidade e despertam atenção e cobiça, e não estou a falar de pequenos operadores, estou a falar de grandes operadores, instituições financeiras internacionais que procuram os nossos colaboradores. Portanto, isto significa que temos uma mão- de-obra com qualidade. Do ponto de vista técnico, para operar com um banco de desenvolvimento, temos capacidade. Estamos bem extruturados, a máquina está montada. O nosso foco é fazer deste banco lucrativo e que paga dividendos dentre várias empresas do Estado, mesmo aqueles que têm mais recursos do que nós não conseguem pagar dividendos, mas nós temos feito isso, o que mostra que estamos capacitados. Se com poucos recursos conseguimos fazer o que fazemos, significa que temos capacidade técnica para multiplicar os recursos que recebemos. Do ponto de vista de imagem do banco, procuramos sempre trabalhar no sentido de manter uma imagem de respeito, quer no mercado interno, quer no mercado externo. A prova disso é que mesmo em ambientes difíceis temos conseguido firmar parceiras com investidores que trouxeram dinheiro ao BNI, ou financiaram projectos que indicamos, isso porque confiam em nós e na nossa imagem, na nossa capacidade. Todo o trabalho de Due Dilligence que fizeram deram-se por satisfeitos pela nossa estrutura de governance, por isso confiaram em nós. O nosso modelo operacional, e com a capacidade técnica dos nossos colaboradores. Ficaram satisfeitos, por isso eles confiam em nós e investem nos projectos que indicamos e mantém recursos inclusivamente no nosso próprio balanço. Já estamos a funcionar como banco de desenvolvimento, por isso estamos a financiar a agricultura, as infraestruturas, a energia, turismo entre outros sectores como indústria. Precisamos de mais recursos. Precisamos crescer. Precisamos expandir, não necessariamente em termos territoriais, porque isso não é o mais importante, mas em termos de abrangência dos nossos financiamentos, em todos os sectores e segmentos, a nossa actuação a nível nacional, precisamos chegar mais nas zonas rurais e precisamos provocar o desenvolvimento verdadeiro. Mas para isso precisamos de recursos financeiros. Vamos buscar recursos financeiros, só que em condições limitadas do que se recebêssemos recursos financeiros do Estado. Mas nós compreendemos que durante esses anos o país estava a enfrentar dificuldades, o próprio Governo também estava a enfrentar dificuldades financeiras, e nós não podíamos, vendo claramente que também estão a enfrentar dificuldades financeiras, pressionar para que nos dessem dinheiro. Daí que encontramos essas saídas para sair desta situação e continuamos a trabalhar e a acrescer. Temos estado a crescer um pouco em todos os indicadores. Desde que começámos este mandato, em 2015, praticamente duplicou o tamanho do nosso balanço. Além disso, os nossos fundos próprios têm estado a crescer, através dos resultados positivos que produzimos, fazemos a in- corporação e isso contribui na melhoria dos fundos próprios.
Os passivos, naturalmente, têm estado a acrescer porque temos que os aumentar para podermos ter dinheiro para financiar. Os recursos humanos também cresceram significativamente, apesar da nossa forma de crescimento de recursos humanos depender do volume de negócio, ou seja, nós só crescemos em pessoal quando o negócio de facto justifica, mas ainda assim desde 2015 o nosso pessoal duplicou. Portanto, o Banco tem estado a crescer mesmo nesse ambiente de adversidades, o que significa que recebendo recursos financeiros do Estado, muito rapidamente o BNI estará a desempenhar de facto o papel de banco de desenvolvimento e estará a ombrear com os outros bancos de desenvolvimento da região e do mundo.
Que vantagens comparativas o BNI oferece neste momento em relação aos outros bancos?
Ora, esta é uma questão difícil e não enquadrada, pois o BNI, funcionando como um banco de desenvolvimento, não compete com a banca comercial, pelo contrário, a complementa. E esse é o papel enquanto banco de desenvolvimento, complementar a banca comercial, para juntos formarem um sistema financeiro robusto, a bem da economia como um todo. O BNI é um complemento à banca comercial porque, olhando para as limitações que a banca comercial tem, não pode financiar determinados projectos e determinados sectores por causa da sua própria natureza. A banca comercial financia-se no mercado, e depois tem que repassar os recursos a economia à taxas de juro de mercado. Então, nestas condições, estamos a dizer que tem que aparecer um banco de desenvolvimento que tem recursos mais baratos para financiar aqueles projectos e/ou sectores que a banca comercial não pode financiar, porque não pode dar taxas mais baixas, que aquelas que está a praticar. E aí é que entra a importância de um banco de desenvolvimento, que financia a agricultura e outros sectores que requerem condições muito mais especiais e específicas. O banco de desenvolvimento financia as infra-estruturas que requer em prazos de retorno muito mais longos e as taxas de retorno esperadas são mais baixas e, consequentemente, só se viabiliza com taxas de juro ainda mais baixas. Nesse sentido, existindo um banco de desenvolvimento que utiliza recursos que vem do sector público, o banco entra nestes sectores e financia. Portanto, não é necessariamente uma vantagem que o BNI tem em relação aos bancos comercias, mas é um complemento.
Os bancos comerciais não têm produtos que sejam ajustados a determinados sectores, como por exemplo a agricultura, daí que é preciso encontrar-se outro tipo de recursos financeiros e são esses, os tais recursos, que normalmente são oferecidos por um banco de desenvolvimento. Se nós tivéssemos recursos como um banco de desenvolvimento as reclamações que têm estado a acompanhar, relativamente as dificuldades de financiamento do sector de agronegócio não existiriam.
Em suma, o BNI como um banco de desenvolvimento, e os bancos comercias complementam-se. A exemplo disso temos trabalhado muito com os bancos comerciais e temos tido projectos em que cofinanciamos, onde um determinado banco tem um projecto e convida-nos, tendo uma determinada taxa de juro que é de mercado, nós com recursos a uma taxa de juro mais acessível e dessa combinação conseguimos oferecer um produto melhor para o cliente. Às vezes somos nós que temos um projecto e achamos que com o nosso próprio balanço não temos capacidade de fazer face àquele nível de financiamento que se pretende, e abordamos um banco comercial que aparece com os seus recursos e fazemos um mix e conseguimos oferecer um produto acessível ao cliente.
Nós trabalhamos com muitos bancos, praticamente com todos para o financiamento de muitos projectos. Agora, temos um projecto que está em processo de cofinanciamento com os bancos comerciais. Isso significa que um sistema financeiro com a banca comercial e com um banco de desenvolvimento que funcionam bem, esse sistema financeiro será completo, robusto e mais forte, pois, tem todo o tipo de produtos financeiros, tem produtos financeiros ajustados a todos os níveis de actividades económicas, incluindo os sectores mais especiais e que requerem produtos mais específicos. Nesse sentido, quando os bancos comerciais e os de desenvolvimento funcionam como um único sistema a economia é que ganha.

De acordo com o estudo divulgado pelo Banco de Moçambique no seu 44.o Conselho Consultivo em 2018, o Sector do Agronegócio debata-se com dois constrangimentos fundamentais que são o défice em infra-estruturas e financiamento inadequado. Tendo em conta os serviços financeiros que o BNI oferece ao mercado, como é que tem atacado estes constrangimentos, tendo em conta que o BNI se propõe financiar quer infra-estruturas quer projectos com ligações intersectoriais?
Relativamente ao primeiro aspecto, défice de infra-estruturas (ou quando se reclama sobre melhoramento das infra-estruturas) referem-se a vias de acesso, vias de comunicação, que inclui estradas, pontes, e provavelmente barragem, etc. E nós, para este segmento, conforme já expliquei, não temos capacidades para financiar uma estrada, uma ponte e outras infra-estruturas. O que fazemos é abordar instituições responsáveis por essas infra-estruturas e pedimos o mandato para mobilizarmos o financia mento para o efeito, e assim conseguimos financiar através dos nossos parceiros. É assim que nós atacamos a problemática de infra-estruturas. Mas vais entender que esta questão de infra-estruturas faz parte daquilo que é o plano do próprio Governo relativamente a infra-estruturação do país. Portanto, não temos, digamos, muita margem de manobra de resolução deste problema como banco de desenvolvimento. Quer dizer, os projectos de desenvolvimento devem existir e nós temos que ter mandato para podermos mobilizar o financiamento. Então, acho que este problema é mais estrutural. Aliás, sinto que o Governo tem estado a atacar este problema com muita força, a quantidade de estradas e pontes que têm vindo a ser inaugurados nos últimos anos, visando necessariamente resolver este défice é prova desse comprometimento do Governo com esse problema. De facto, há distritos que produzem, mas não é suficiente produzir, é necessário que haja vias de escoamento de produtos para os mercados consumidores. Aí entra a questão de infra-estruturas e temos acompanhado que o Governo tem estado a trabalhar de forma incansável para prover essas infra-estruturas: estradas, pontes e sistema de abastecimento de água entre outras.
O Governo tem procurado resolver esse défice, e nós, nos casos em que somos chamados, fazemos o nosso papel que é mobilizar recursos para o financiamento dessas infraestruturas. Relativamente a segunda reclamação que me coloca, que é sobre dificuldades de acesso ao financiamento, de facto os empresários reclamam o acesso, ao financiamento, mas é importante dizer que não é só o acesso mas também as condições em que o financiamento é disponibilizado. A agricultura, sobretudo na forma como ela é praticada em Moçambique, é vista como uma actividade de alto risco e é verdade que o nível de risco determinado para agricultura naturalmente vai ser completamente diferente de outros sectores que as taxas de retorno são mais altas. As taxas médias de retorno esperadas na agricultura, no formato em que é maioritariamente praticada em Moçambique, não passam 12%, então é óbvio que os bancos quando olham para a agricultura, olham-na como uma actividade de risco e porque os recursos financeiros quando são emprestados devem ser reembolsados, quando eles vê que a probabilidade de reembolso é baixa, naturalmente que eles vão se retrair demonstrando pouco apetite e interesse em financiar. Por isso, a solução para a agricultura são recursos financeiros que estejam adequados aos perfis de risco, retorno e cashflows da agricultura, e para estarem ajustados a este perfil, os recursos financeiros para financiar a agricultura devem ser mais baratos, ou seja, uma taxa de juro baixa e prazos de reembolso e de diferimento mais flexíveis. Então, são estes recursos que devem ser disponibilizados à economia através de um banco de desenvolvimento e naturalmente devem ser fundos públicos, do Estado. Existem muitos fundos públicos espalhados por ai, os chamados fundos de fomento, que recebem recursos do Estado e tem estado a fazer realmente a sua parte, dando financiamento à agricultura, só que, por um lado, há muita assimetria de informação porque nem todos os produtores conseguem ter conhecimento nem aceder a esses fundos, mas, por outro lado, há limitação do próprio tamanho desses fundos que existem para fazer face às necessidades de todo um país.
Quais são os sectores ou projectos prioritários que o banco pretende investir no novo ciclo de governação?
Para os próximos cinco anos, conforme disse, nós não podemos fugir muito daquilo que são as prioridades do Governo ou do Estado. Para além das prioridades que nós vínhamos olhando, agora vamos olhar muito para o sector da indústria, para a industrialização do país, porque esta é uma fraqueza que nós temos, apesar de todas essas reclamações que vários produtores apresentam, o país produz, mas temos um grande problema: não acrescentamo valor a nossa produção, exportamos matéria-prima e isso é reflexo da falta de indústria ou de fragilidades da nossa indústria, e exportar matérias-primas traz todo tipo de problema que se pode imaginar: o valor dos nossos recursos é muito baixo, não conseguimos valorizar, não conseguimos acrescentar valor. O outro aspecto fundamental de referir é que se nós, como país, não conseguimos acrescentar valor aos nos produtos de exportação, aquilo que conseguimos amealhar das receitas de exportações é muito pouco. Segundo, continuamos a ser um país que mais importa do que exporta, pois muitos dos produtos que importamos são acabados, gerados por matéria-prima que nós produzimos e exportamos.
Portanto, a partir do momento que em que potencializarmos a nossa indústria, a operar como deve ser, começaremos a processar a nossa madeira, a nossa castanha de caju, a nossa macadâmia, o nosso gergelim e a nossa soja, entre outros produtos de exportação. Todas as matérias-primas que produzimos e exportamos em bruto, a partir dessa altura, o jogo vai mudar completamente. Exportando a matéria-prima temos um determinado valor, mas exportando produto acabado teríamos outro valor, mais alto, sem necessariamente aumentar as quantidades nominais de produção de matéria-prima, e isso tem seu impacto, nomeadamente, na estabilização e melhoria da nossa taxa de câmbio, na melhoria das nossas reservas internacionais líquidas, melhoria da nossa balança comercial e, consequentemente, da balança de pagamentos, sendo que por último vai contribuir para o crescimento do PIB.
Por outro lado, esta situação tem outro impacto, pois transformando a nossa matéria-prima passaremos a ter produtos acabados que vão fazer face a procura interna que era suportada pelas importações. Isso significa que vamos começar a entrar no processo de substituição de importações, que tem um impacto muito grande, porque deixamos de exportar divisas.
Numa outra perspectiva, o processo de gestão da inflação fica mais fácil porque ficamos cada vez menos vulneráveis a inflação importada, pois muitas vezes nós sofremos por causa da inflação importada, pois estamos vulneráveis. A título de exemplo, se formos a ver, quando na África do Sul há uma subida de preços dos produtos que importamos, nós ressentimo-nos disso, porque estamos a importar produtos básicos daquele país.
Por sua vez, a África do Sul é vulnerável, por exemplo, aos Estados Unidos da América (EUA). As variações de alguns indicadores nos EUA afectam a África do Sul e vão afectar consequentemente a nós como resultado final. Portanto, acabamos ficando muito vulneráveis aos factores exógenos que não podemos controlar. Então, se começarmos a transformar a nossa produção iremos reduzir essa vulnerabilidade e teremos uma inflação mais estável e que vai reflectir efectivamente aquilo que é a nossa actividade económica. Ora, entendo que foi por causa dessa situação que o Governo definiu o Sector de Industrialização como mais um sector prioritário para os próximos cinco anos. Nós também olhamos para este sector como prioritário, pois a industrialização do país rumo ao desenvolvimento é inevitável. Nessa senda, no ano passado, começamos a trabalhar com a CTA e o Ministério da Indústria e Comércio na criação de um fundo para a industrialização do país. Desta feita, estamos num processo muito avançado estando o modelo operacional já desenhado e já foram identificadas e mapeadas as indústrias
Este trabalho já iniciou e estamos a trabalhar para que fechemos um pacote de pelo menos USD 500 milhões ainda este ano para a industrialização do país. A partir de 2021, a situação começará a mudar e efectivamente começaremos financiar a indústria. Financiaremos de forma adequada com condições que sejam ajustadas ao perfil de risco e retorno e sobretudo de Cashflow de cada subsector da indústria.prioritárias. Sabemos quais são os sectores que vamos atacar e quais são as indústrias que vão ser envolvidas. Mas, neste momento, precisamos de recursos financeiros e estamos a fazer um Roadshow visando fazer a apresentação do projecto aos potenciais financiadores.
É preciso salientar que a forma como estruturamos o modelo operacional, não se cinge apenas para financiamentos no formato de empréstimos, mas também no formato de equity através da participação no capital social das empresas industriais, por forma a permitir que numa primeira fase as empresas possam arrancar sem necessaria- mente precisar de pagar juros. Pois, o problema do empréstimo, quando é tomado logo a seguir tem que se começar a pagar juros, e algumas indústrias nacionais, nas situações que se encontram, não estão em condições de receber um financiamento e logo a seguir começar a pagar juros.
Portanto, as empresas precisam de um determinado tempo para reerguer-se e consolidar-se. Então o formato ideal seria um misto ou então 100%, através de uma sociedade capital de risco em que a sociedade financia através de aquisição de uma participação minoritária no capital da empresa, e aí a empresa não tem que pagar juros, ou então, dependendo da situação de cada empresa pode se usar um sistema misto que tem uma componente de empréstimo bancário e outra componente de equity, fazendo com que uma determinada empresa consiga arrancar e funcionar sem grandes dificuldades. Estas são alguma acções que iniciamos para apoiar a industrialização do país.


















