
Receitas Do Estado Atingem 20% Da Meta, Mas Queda Do IVA Levanta Sinais Sobre Ritmo Da Actividade Económica
- Arrecadação total ascendeu a 81,5 mil milhões de meticais no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pelos impostos sobre rendimento, enquanto a tributação sobre bens e serviços registou uma contracção expressiva que poderá reflectir fragilidades do consumo e das importações.
- Estado arrecadou 81,5 mil milhões de meticais no primeiro trimestre, equivalentes a 20% da meta anual;
- Receitas correntes atingiram 78,4 mil milhões de meticais e continuam a sustentar a execução orçamental;
- IRPC e IRPS registaram crescimento e mantiveram-se como principais motores da receita fiscal;
- Impostos sobre bens e serviços sofreram uma quebra nominal de 25,2% face ao período homólogo;
- Evolução da cobrança sugere recuperação económica desigual entre os diferentes sectores da economia.
A cobrança da receita do Estado atingiu 81.536,3 milhões de meticais nos primeiros três meses de 2026, valor correspondente a 20% da previsão anual estabelecida pelo Governo, num desempenho que, à primeira vista, sugere uma trajectória compatível com os objectivos orçamentais definidos para o presente exercício.
Contudo, uma análise mais detalhada da estrutura da arrecadação revela sinais mistos sobre a evolução da economia nacional, com os impostos sobre rendimento a apresentarem um comportamento relativamente robusto, enquanto a tributação sobre bens e serviços registou uma contracção expressiva, sugerindo que a recuperação da actividade económica continua a ocorrer de forma desigual entre os diversos sectores.
Segundo dados do relatório de execução orçamental divulgado pelo Ministério das Finanças, as receitas correntes totalizaram 78.368,4 milhões de meticais durante o período em análise, enquanto as receitas de capital atingiram 3.167,9 milhões de meticais.
Impostos Sobre Rendimento Continuam A Sustentar A Receita Fiscal
O principal suporte da arrecadação fiscal continuou a ser assegurado pelos impostos sobre rendimento.
Os dados oficiais indicam que os impostos sobre rendimento geraram receitas de 29.664 milhões de meticais, equivalentes a 17,5% da previsão anual, representando um crescimento nominal de 3,8% face ao período homólogo do ano anterior.
Dentro desta categoria, o Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares (IRPS) registou uma cobrança de 16.296,8 milhões de meticais, correspondente a 23,4% da meta anual e traduzindo um crescimento nominal de 2,7% relativamente ao primeiro trimestre de 2025.
De acordo com o Ministério das Finanças, este desempenho foi influenciado pelo reforço do controlo das retenções na fonte e pelo acompanhamento mais rigoroso das entregas efectuadas pelas empresas e pela Função Pública.
Já o Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas (IRPC) arrecadou 13.289,3 milhões de meticais, o equivalente a 13,4% da previsão anual, registando um crescimento nominal de 5,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
O comportamento destes dois impostos sugere que os rendimentos formais e a actividade empresarial continuam a assegurar uma base relevante para a arrecadação fiscal, apesar das dificuldades enfrentadas por diversos sectores da economia.
Queda Do IVA E Dos Impostos Sobre Consumo Levanta Interrogações
O aspecto mais relevante dos dados do primeiro trimestre surge, contudo, na evolução da tributação sobre bens e serviços.
O grupo composto pelo Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), Imposto sobre o Consumo Específico de Produção Nacional, Imposto sobre o Consumo Específico de Produtos Importados e Imposto sobre o Comércio Externo arrecadou 33.718,2 milhões de meticais, correspondentes a 21,5% da meta anual.
Apesar de representar uma parcela significativa da receita total, este grupo de impostos registou um decréscimo nominal de 25,2% relativamente ao mesmo período de 2025.
A dimensão da queda merece atenção especial por parte dos analistas económicos, uma vez que estes impostos tendem a reflectir directamente o comportamento do consumo, da procura interna, das importações e da actividade comercial.
Uma redução desta magnitude pode indicar uma desaceleração das transacções tributáveis, menor dinamismo do comércio ou uma diminuição do volume de bens importados sujeitos a tributação.
Num contexto em que a economia moçambicana procura consolidar a recuperação após a contracção registada em 2025, o desempenho desta componente da receita poderá constituir um dos indicadores mais relevantes para avaliar a intensidade da retoma económica ao longo do ano.
Consumo Continua A Dar Sinais Mistos
A evolução da cobrança do IVA assume particular relevância porque este imposto é geralmente considerado um dos melhores termómetros da actividade económica corrente.
Quando o consumo das famílias aumenta, as empresas vendem mais bens e serviços, o volume de operações tributáveis cresce e a arrecadação do IVA tende a acompanhar essa dinâmica.
Em sentido contrário, quando o consumo abranda ou quando as importações diminuem, a receita associada ao IVA e aos impostos indirectos tende igualmente a ressentir-se.
Embora os dados disponíveis não permitam identificar com precisão quais os factores específicos que explicam a redução registada no primeiro trimestre, a tendência parece consistente com um ambiente económico ainda marcado por desafios ao nível da procura interna, da disponibilidade de divisas e da recuperação do investimento privado.
Execução Mantém-Se Compatível Com Os Objectivos Orçamentais
Apesar dos sinais de desaceleração em algumas componentes da arrecadação, o desempenho global da receita continua alinhado com a trajectória necessária para o cumprimento dos objectivos fiscais estabelecidos para 2026.
Atingir 20% da meta anual durante o primeiro trimestre é, em termos agregados, um resultado compatível com a sazonalidade habitual da cobrança fiscal, sobretudo tendo em conta que parte significativa da arrecadação associada ao rendimento empresarial tende a concentrar-se nos trimestres subsequentes.
Contudo, os próximos meses serão determinantes para confirmar se a melhoria observada nos impostos sobre rendimento conseguirá compensar a fragilidade evidenciada pelos impostos sobre consumo e comércio.
Mais do que o montante global arrecadado, a composição da receita fiscal poderá tornar-se um dos principais indicadores da velocidade e da qualidade da recuperação económica moçambicana ao longo de 2026.








