Eni Atinge Quase US$ 1 Mil Milhão Em Contratos Com Fornecedores Moçambicanos Desde 2016

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Relatório que assinala 20 anos da petrolífera em Moçambique coloca desenvolvimento de fornecedores, qualificação de capital humano e investimento social no centro da expansão do gás, numa altura em que o Coral Norte prepara uma nova fase da indústria de LNG

Questões-Chave:
  • Eni atribuiu quase US$1 mil milhão em contratos a fornecedores moçambicanos desde 2016;
  • Mais de 200 empresas nacionais participaram em iniciativas de aproximação à cadeia de fornecimento em 2025;
  • Programas de educação abrangem cerca de 6.000 estudantes e iniciativas de saúde chegaram a aproximadamente 40.000 mulheres e crianças;
  • Mais de 37.000 pessoas beneficiaram de intervenções de água, saneamento e meios de subsistência em Mecúfi;
  • Coral Norte deverá entrar em operação em 2028 e elevar para mais de 7 milhões de toneladas anuais a capacidade combinada de LNG dos projectos Coral.

A Eni Rovuma Basin atribuiu quase US$ 1 mil milhão em contratos a fornecedores moçambicanos desde 2016, um indicador que coloca o conteúdo local entre as dimensões económicas mais relevantes dos 20 anos de presença da companhia em Moçambique e que ganha importância acrescida com a preparação de uma nova fase de expansão dos projectos de gás natural na Bacia do Rovuma.

O dado consta da terceira edição do Relatório Local de Sustentabilidade da companhia, “20 Anos da Eni em Moçambique: Juntos Crescemos 2025”, apresentado esta quinta-feira, 24 de Setembro, em Pemba, durante um fórum que reuniu representantes do Governo, parceiros institucionais, sociedade civil e outros actores ligados à actividade da empresa.

O relatório coloca em evidência uma dimensão decisiva para a economia moçambicana: a capacidade de os grandes investimentos no sector extractivo gerarem negócios para empresas nacionais, desenvolverem competências, criarem emprego qualificado e ampliarem os benefícios económicos associados à exploração dos recursos naturais.

Essa dimensão deverá ganhar ainda maior relevância à medida que o Coral Norte avança para a fase de desenvolvimento, ampliando a escala da indústria de LNG do país.

Conteúdo Local Aproxima-se Da Marca De US$ 1 Mil Milhão

Desde 2016, a Eni afirma ter adjudicado contratos avaliados em aproximadamente US$ 1 mil milhão a empresas moçambicanas, ao mesmo tempo que desenvolveu programas de formação nacional e internacional destinados aos seus trabalhadores locais.

Em 2025, a companhia intensificou as iniciativas de aproximação às empresas nacionais através dos Eni Open Days, que envolveram mais de 200 empresas moçambicanas de diferentes sectores.

O número é particularmente relevante num contexto em que a participação efectiva das empresas nacionais nos megaprojectos permanece condicionada por limitações de escala, certificação, capacidade financeira, tecnologia, experiência, qualidade e cumprimento de padrões internacionais.

Moçambique deseja que o valor económico do conteúdo local vá para alem do número de contratos atribuídos, alcançando um efeito mais duradouro, que surge quando a relação entre grandes investidores e empresas nacionais produz transferência de conhecimento, certificação, ganhos de produtividade, novas competências de gestão e capacidade para que fornecedores inicialmente dependentes de um projecto consigam posteriormente competir noutros mercados. Ou seja, que o conteúdo local ultrapasse a componente de procurement,  e sirva como instrumento de transformação empresarial.

Coral Norte Eleva A Escala Das Oportunidades

A apresentação do relatório ocorre num momento particularmente importante para a presença da Eni no país.

Depois do início da produção do Coral Sul FLNG em 2022, primeiro projecto a produzir gás da Bacia do Rovuma, a companhia está a desenvolver o Coral Norte FLNG, cuja entrada em produção está prevista para 2028.

O novo projecto terá capacidade de liquefacção próxima de 3,6 milhões de toneladas por ano. Combinado com o Coral Sul, poderá elevar a capacidade de produção de LNG dos dois projectos para mais de sete milhões de toneladas anuais.

O avanço do Coral Norte acrescenta, assim, uma segunda dimensão ao debate sobre sustentabilidade: a capacidade de transformar uma nova vaga de investimento em mais oportunidades empresariais, emprego qualificado, formação e integração das empresas nacionais na cadeia de valor.

A experiência acumulada no Coral Sul constitui uma base importante, mas a expansão da capacidade cria igualmente expectativas mais elevadas em relação à profundidade da participação nacional.

Em Setembro, o Governo aprovou a estrutura de financiamento da participação da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos no Coral Norte, incluindo a constituição da ENH Coral Norte, SU, S.A., destinada a individualizar a gestão financeira e contabilística da participação da empresa pública no empreendimento.

Trata-se de mais um passo na estruturação de um projecto que deverá ter efeitos relevantes sobre investimento, exportações, receitas públicas, actividade empresarial e posicionamento de Moçambique no mercado internacional de LNG.

Vinte Anos Entre Descobertas E Produção De LNG

A trajectória da Eni no país começou em 2006 e ganhou uma nova dimensão entre 2011 e 2014, quando foram descobertos grandes volumes de gás natural nos reservatórios Coral, Mamba Complex e Agulha, na Área 4 da Bacia do Rovuma.

As descobertas totalizam aproximadamente 2.400 mil milhões de metros cúbicos de gás in place, estabelecendo a base para o desenvolvimento dos projectos actualmente em curso.

O Coral Sul tornou-se posteriormente o primeiro projecto a colocar gás da Bacia do Rovuma em produção e iniciou as exportações de LNG em 2022.

O Coral Norte representa agora a segunda etapa dessa estratégia.

A Eni lançou, em Janeiro deste ano, o casco da futura unidade Coral Norte FLNG na Coreia do Sul, mantendo como meta a conclusão do projecto em 2028. A estratégia de desenvolvimento procura aproveitar a experiência tecnológica, operacional e de execução adquirida com o Coral Sul para reduzir custos e riscos.

Investimento Social Alarga Pegada Para Além Do Gás

O relatório evidencia também a dimensão das iniciativas sociais implementadas pela companhia.

Cerca de 6.000 estudantes terão beneficiado de programas destinados a melhorar o acesso à educação, enquanto iniciativas na área da saúde alcançaram aproximadamente 40.000 mulheres e crianças.

Em Cabo Delgado, os investimentos incluíram o reforço da capacidade de diagnóstico do Hospital Provincial de Pemba através da instalação do primeiro equipamento de tomografia computorizada disponível localmente.

Desde a sua instalação, foram realizados mais de 1.500 exames, reduzindo a necessidade de encaminhamento de pacientes para Nampula.

Em Mecúfi, programas relacionados com água, saneamento e geração de meios de subsistência terão beneficiado mais de 37.000 pessoas.

Os números dão escala à dimensão social da presença da empresa, mas também revelam um aspecto importante da economia dos grandes projectos: a necessidade de construir uma relação entre investimento, território e comunidades suficientemente ampla para que os benefícios não permaneçam circunscritos à actividade extractiva.

Transição Energética Introduz Novas Frentes De Investimento

Outra vertente do relatório é a transição energética.

Desde 2023, o programa de clean cooking da Eni distribuiu mais de 200.000 soluções melhoradas de cozinha em Maputo, Sofala e Manica, dentro de uma estratégia que pretende alcançar até dois milhões de pessoas até 2028.

Paralelamente, através do Great Limpopo REDD+ Project, a companhia apoia iniciativas de conservação florestal e promoção de meios de subsistência sustentáveis numa área que poderá atingir 3,6 milhões de hectares em quatro províncias, com cerca de 320.000 membros das comunidades potencialmente abrangidos.

Estas iniciativas reflectem uma transformação mais ampla no posicionamento das grandes companhias energéticas, que procuram combinar investimentos tradicionais em hidrocarbonetos com projectos de redução de emissões, conservação e acesso a formas de energia menos poluentes.

Mais Conteúdo Local Exige Maior Retenção De Valor

Para Moçambique, o significado económico dos quase US$ 1 mil milhão já adjudicados a fornecedores nacionais dependerá cada vez menos apenas do volume acumulado dos contratos e mais da capacidade de esses negócios criarem encadeamentos produtivos duradouros dentro da economia.

A questão central passa pela qualidade da participação nacional: que bens e serviços são efectivamente fornecidos por empresas moçambicanas, qual o grau de complexidade das actividades executadas localmente, quanto conhecimento é transferido e que capacidade permanece instalada depois de concluída cada fase dos projectos.

Quanto maior for a incorporação de empresas nacionais em segmentos de maior valor acrescentado — engenharia, manutenção especializada, logística, serviços técnicos, tecnologia, fabricação e soluções industriais — maior será a capacidade dos investimentos no gás de produzir efeitos para além da própria indústria extractiva.

Este processo é particularmente importante porque uma parte substancial dos equipamentos, tecnologia, serviços especializados e financiamento necessários aos grandes projectos continua, pela própria natureza da indústria, a ser obtida internacionalmente. O desafio consiste, por isso, em reduzir progressivamente as fugas externas de valor onde exista capacidade ou potencial real para desenvolver oferta nacional competitiva.

A próxima fase da indústria de gás deverá ser avaliada também por esta métrica. Aumentar o número de empresas moçambicanas registadas como fornecedoras é importante, mas será determinante ampliar igualmente a sua presença em actividades de maior complexidade, valor e conteúdo tecnológico.

É nessa passagem — de fornecedores para empresas integradas em cadeias de valor mais sofisticadas — que o conteúdo local poderá transformar-se num instrumento efectivo de industrialização, produtividade e diversificação económica.

Do LNG Para Uma Base Produtiva Mais Ampla

Ao assinalar 20 anos em Moçambique, a Eni entra simultaneamente numa fase em que a dimensão dos seus investimentos no país tende a aumentar.

Francesco Gasparri, Director-Geral da Eni Rovuma Basin, afirmou durante a apresentação do relatório que a experiência de duas décadas demonstrou que a criação de valor não se limita ao desenvolvimento dos recursos energéticos, envolvendo igualmente capacidades, parcerias locais e condições que permitam às comunidades e ao país crescer no longo prazo.

É precisamente nesse ponto que se concentra o próximo teste económico.

Com o Coral Sul já em produção e o Coral Norte em desenvolvimento, Moçambique dispõe de uma nova oportunidade para converter receitas de gás e grandes fluxos de investimento numa base empresarial mais ampla, produtiva e competitiva.

Os quase US$ 1 mil milhão de contratos acumulados desde 2016 mostram que uma parte desse processo já está em curso.

A dimensão económica dos próximos projectos determinará se esse volume de negócios representará apenas um marco acumulado ou o ponto de partida para uma participação significativamente maior das empresas moçambicanas na economia do gás.