“Super El Niño” Pode Agravar Crise Alimentar E Pressões Económicas Em África Austral

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  • Especialistas alertam que a combinação entre alterações climáticas, guerra no Médio Oriente e escassez de combustíveis e fertilizantes poderá amplificar os impactos de um dos mais fortes episódios de El Niño das últimas décadas.
Questões-Chave:
  • Cientistas alertam para a possibilidade crescente de um “Super El Niño” em 2026;
  • África Austral figura entre as regiões com maior risco de seca e quebra da produção agrícola;
  • Conflito entre Estados Unidos e Irão agrava escassez e custos de combustíveis e fertilizantes;
  • Especialistas receiam impactos prolongados sobre alimentos, água, florestas e crescimento económico;
  • Moçambique poderá enfrentar desafios acrescidos em agricultura, segurança alimentar e gestão dos recursos hídricos.

A possibilidade de formação de um “Super El Niño” está a mobilizar a atenção de governos, organizações internacionais e especialistas climáticos, numa altura em que o mundo já enfrenta pressões associadas à guerra no Médio Oriente, à volatilidade dos mercados energéticos e ao agravamento das alterações climáticas.

Segundo especialistas do World Resources Institute (WRI), o fenómeno climático actualmente em desenvolvimento poderá assumir uma intensidade superior à habitual, caracterizada por temperaturas oceânicas no Pacífico mais de dois graus Celsius acima da média, alterando significativamente os padrões atmosféricos globais.

O resultado poderá traduzir-se em secas mais severas, cheias mais intensas, ciclones, ondas de calor extremas e perturbações agrícolas em várias regiões do mundo.

Embora os episódios de Super El Niño ocorram normalmente apenas uma vez a cada 10 a 15 anos, os especialistas alertam que o contexto actual poderá amplificar os seus efeitos, tornando-os potencialmente mais destrutivos do que em eventos anteriores.

África Austral Entre As Regiões Mais Vulneráveis

Uma das principais preocupações dos especialistas diz respeito ao impacto esperado sobre a disponibilidade de água.

Liz Saccocia, especialista em segurança hídrica do WRI, afirma que a África Austral surge entre as regiões que poderão enfrentar condições significativamente mais secas durante este episódio climático.

A redução das chuvas poderá afectar reservatórios, sistemas de abastecimento, aquíferos e actividades agrícolas, aumentando a pressão sobre recursos já limitados.

Para países como Moçambique, cuja agricultura continua fortemente dependente das condições climáticas e da precipitação, a evolução do fenómeno poderá influenciar directamente os níveis de produção agrícola, a disponibilidade de alimentos e os rendimentos das famílias rurais.

A experiência dos anteriores episódios de El Niño demonstra que os impactos podem prolongar-se por vários ciclos agrícolas, sobretudo quando as secas coincidem com períodos críticos de produção.

Guerra E Clima Criam Tempestade Perfeita Para Os Alimentos

Os especialistas consideram particularmente preocupante a coincidência entre o potencial Super El Niño e as actuais perturbações nos mercados energéticos e agrícolas globais.

Mike Badzmierowski, gestor de políticas agrícolas do WRI, alerta que o conflito entre os Estados Unidos e o Irão já está a afectar os mercados de combustíveis e fertilizantes, reduzindo a disponibilidade e aumentando os custos destes insumos essenciais para a produção agrícola.

Segundo o especialista, uma seca severa associada ao El Niño poderá atingir sistemas alimentares que já se encontram fragilizados por custos elevados de produção e dificuldades de abastecimento.

A situação preocupa particularmente regiões dependentes da agricultura de sequeiro, de baixos rendimentos e fortemente expostas à insegurança alimentar.

O WRI recorda que episódios anteriores de El Niño provocaram reduções significativas da produção cerealífera em partes da África Austral devido à combinação de temperaturas elevadas e precipitação abaixo da média.

Mundo Mais Quente Amplifica Os Riscos

Um dos aspectos mais relevantes destacados pelos especialistas é o facto de este fenómeno ocorrer num contexto climático substancialmente diferente daquele que caracterizou episódios anteriores.

Os últimos onze anos foram os mais quentes desde que existem registos, criando condições que podem amplificar os impactos de secas, ondas de calor e perdas agrícolas.

Segundo o WRI, temperaturas mais elevadas tornam a atmosfera mais exigente em humidade, acelerando a evaporação dos solos e aumentando o stress hídrico das culturas agrícolas.

Na prática, isso significa que uma seca semelhante à observada em eventos passados poderá produzir impactos económicos e agrícolas mais severos.

Mesmo em regiões que venham a receber mais precipitação, os benefícios podem não ser proporcionais. Estudos recentes citados pela organização mostram que chuvas mais intensas e concentradas nem sempre contribuem para aumentar as reservas de água disponíveis, uma vez que grande parte da precipitação pode escorrer rapidamente ou evaporar antes de recarregar os aquíferos.

Incêndios Florestais Também Entram Na Equação

Outro dos riscos associados ao potencial Super El Niño prende-se com o aumento da actividade de incêndios florestais.

Especialistas do WRI alertam que condições mais quentes e secas tendem a reduzir os limiares de ignição e a facilitar a propagação de incêndios em diversas regiões do mundo.

Embora os maiores riscos imediatos estejam associados à Amazónia, ao Sudeste Asiático, à Austrália e ao Canadá, a combinação entre alterações climáticas, desflorestação e fenómenos extremos tem vindo a aumentar a vulnerabilidade dos ecossistemas florestais em múltiplas geografias.

Os especialistas alertam ainda que os incêndios produzem um ciclo de retroalimentação climática, libertando grandes quantidades de carbono para a atmosfera e agravando os factores que contribuem para o aquecimento global.

Preparação Antecipada Pode Reduzir Impactos

Apesar dos riscos identificados, os especialistas sublinham que a existência de previsões antecipadas oferece uma oportunidade importante para a preparação dos governos.

Durante o episódio de El Niño de 2023-2024, organismos internacionais apoiaram intervenções como reforço de sistemas de irrigação, protecção contra cheias, distribuição de sementes resistentes à seca e programas de assistência financeira preventiva para comunidades vulneráveis.

Segundo o WRI, este tipo de acções antecipadas poderá ser decisivo para reduzir perdas económicas, proteger sistemas alimentares e aumentar a resiliência das populações perante choques climáticos cada vez mais frequentes.

Para Moçambique, onde a agricultura, a gestão dos recursos hídricos e a segurança alimentar continuam a desempenhar um papel central no desenvolvimento económico e social, o potencial Super El Niño representa mais um lembrete de que os desafios climáticos deixaram de ser apenas uma questão ambiental para se tornarem uma variável estratégica da economia.