Choque Petrolífero Pode Custar A Moçambique O Equivalente A 2,8% Do PIB, Alerta UNCTAD

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  • Relatório da agência das Nações Unidas coloca Moçambique entre os países mais expostos ao impacto da escalada dos preços do petróleo, num contexto de tensões no Estreito de Ormuz e agravamento dos custos energéticos globais.
Questões-Chave:
  • UNCTAD alerta que países vulneráveis poderão enfrentar um aumento adicional de 20,4 mil milhões de dólares nas suas facturas petrolíferas;
  • Moçambique figura entre os países mais expostos ao impacto de uma subida de 50% dos preços do petróleo;
  • Custo adicional das importações petrolíferas poderá atingir o equivalente a 2,8% do PIB moçambicano;
  • Cerca de 35,5% das importações petrolíferas do país têm origem na região do Estreito de Ormuz;
  • Organização alerta para riscos de inflação, pressão cambial, deterioração das contas externas e desaceleração económica.

A escalada das tensões geopolíticas no Médio Oriente está a transformar-se numa ameaça económica crescente para as economias mais vulneráveis do mundo, e Moçambique surge entre os países que poderão sofrer impactos mais severos caso os preços internacionais do petróleo continuem a subir.

Num novo alerta divulgado esta semana, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) estima que uma subida de 50% dos preços do petróleo poderá aumentar em 20,4 mil milhões de dólares por ano a factura energética dos países menos desenvolvidos (LDCs) e dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS), agravando vulnerabilidades económicas que já afectam cerca de mil milhões de pessoas.

Segundo a organização, 65 das 75 economias vulneráveis analisadas dependem de importações líquidas de petróleo, tornando-se particularmente expostas aos efeitos da actual instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das mais importantes rotas energéticas do mundo.

Moçambique Entre Os Países Mais Expostos

Entre os países identificados pela UNCTAD, Moçambique surge numa posição de destaque entre as economias que enfrentariam maiores custos relativos caso os preços do petróleo aumentem 50% e os volumes importados permaneçam constantes.

Os cálculos da organização indicam que o impacto adicional sobre a factura petrolífera moçambicana poderá atingir o equivalente a 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB), colocando o país entre os mais afectados do grupo dos países menos desenvolvidos.

Apenas Mauritânia (7,3%), Gâmbia (6,3%), Burkina Faso (5,0%), Libéria (4,8%), Zâmbia (4,3%) e Lesoto (4,3%) apresentam níveis de exposição superiores aos de Moçambique.

O dado é particularmente relevante porque ocorre num momento em que a economia moçambicana procura consolidar a recuperação após a desaceleração observada em 2025, continuando simultaneamente dependente de combustíveis importados para alimentar actividades económicas essenciais.

Dependência Do Estreito De Ormuz Amplifica Vulnerabilidade

A preocupação da UNCTAD não está apenas relacionada com o preço do petróleo, mas também com a origem dos abastecimentos.

O relatório mostra que 35,5% das importações petrolíferas de Moçambique provêm da região do Estreito de Ormuz, que inclui países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque, Qatar, Irão e Bahrein.

Esta dependência coloca Moçambique entre os países africanos mais sensíveis a eventuais perturbações naquela rota estratégica.

A UNCTAD alerta que vários países poderão ser obrigados a procurar fontes alternativas de abastecimento caso a instabilidade militar se prolongue ou caso ocorram interrupções significativas nos fluxos comerciais através da região.

Impactos Vão Muito Além Dos Combustíveis

Embora o aumento dos preços dos combustíveis seja a consequência mais visível, a organização sublinha que os efeitos económicos tendem a propagar-se por toda a economia.

O encarecimento do petróleo aumenta os custos de transporte, logística e produção, pressionando os preços de bens e serviços e contribuindo para o agravamento da inflação.

Para economias importadoras líquidas de energia, como Moçambique, isso significa um aumento do custo de vida das famílias, maior pressão sobre as empresas e uma deterioração das condições de competitividade.

Ao mesmo tempo, o aumento da factura petrolífera pode agravar os défices da balança de pagamentos, pressionar o mercado cambial e reduzir a disponibilidade de divisas para outras importações estratégicas.

Contas Públicas Sob Pressão Acrescida

O relatório alerta igualmente para os riscos fiscais associados ao choque petrolífero.

Segundo a UNCTAD, os governos de países vulneráveis enfrentam frequentemente um difícil equilíbrio entre proteger consumidores e empresas dos aumentos de preços e preservar recursos para financiar serviços públicos essenciais e investimentos de longo prazo.

Num contexto de espaço fiscal limitado, a necessidade de acomodar custos energéticos mais elevados pode reduzir a capacidade dos governos financiarem áreas como saúde, educação, infra-estruturas e programas de desenvolvimento económico.

Choque Energético Pode Travar Crescimento

A organização das Nações Unidas alerta ainda que os efeitos combinados de inflação, pressão cambial, défices externos e aperto financeiro podem conduzir a uma desaceleração do crescimento económico.

Segundo a UNCTAD, o agravamento das necessidades de importação energética pode enfraquecer moedas nacionais, elevar taxas de juro, restringir o acesso ao crédito e reduzir o ritmo de expansão das economias mais vulneráveis.

Para Moçambique, o alerta surge numa altura particularmente sensível, marcada pela necessidade de reforçar a estabilidade macroeconómica, recuperar níveis de investimento e acelerar o crescimento.

A principal mensagem do relatório é clara: se a crise energética associada ao Estreito de Ormuz persistir, os países mais vulneráveis poderão enfrentar um novo choque económico com consequências que vão muito além do mercado petrolífero.