Ouro Aproxima-Se Dos US$4.000 Com Dólar Forte E Fed Dividida Entre Manter Ou Subir Juros

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  • O metal precioso recuou 0,8% antes da decisão da Reserva Federal, enquanto os investidores avaliam sinais contraditórios provenientes da inflação, dos preços do petróleo e da actividade económica norte-americana. A procura física permanece fraca, mas as compras dos bancos centrais e os riscos geopolíticos continuam a sustentar o ouro no médio prazo.

Questões-Chave

  • O ouro à vista caiu 0,8%, para US$4.042,29 por onça, enquanto os futuros norte-americanos recuaram para US$4.042,80.
  • O dólar manteve-se próximo do nível mais elevado em um mês, tornando o ouro mais caro para compradores que utilizam outras moedas.
  • O CME FedWatch atribuía uma probabilidade de cerca de 34% a uma subida de 25 pontos base na reunião de Julho e de aproximadamente 79% a um aumento em Setembro.
  • A manutenção dos juros continua a ser o cenário predominante, mas várias instituições financeiras consideram a decisão desta semana uma das mais incertas do actual ciclo monetário.
  • A procura física encontra-se enfraquecida, enquanto os investidores profissionais avaliam a interacção entre petróleo, inflação, juros reais e dólar.
  • Os bancos centrais continuam a representar um suporte estrutural: 89% dos gestores de reservas consultados pelo World Gold Council esperam que as reservas mundiais de ouro aumentem nos próximos 12 meses.

O ouro recuou esta terça-feira, 28 de Julho, pressionado pela valorização do dólar e pela prudência dos investidores antes da decisão da Reserva Federal dos Estados Unidos, prevista para quarta-feira, no encerramento de uma reunião de política monetária marcada por elevada incerteza.

O ouro à vista caiu 0,8%, para US$4.042,29 por onça, às 08h43 GMT, enquanto os contratos futuros norte-americanos com entrega em Agosto perderam igualmente 0,8%, para US$4.042,80.

A moeda norte-americana manteve-se próxima de máximos de um mês, encarecendo o ouro para investidores que operam noutras moedas e reduzindo a sua procura internacional.

A queda ocorre depois de o metal ter permanecido, desde finais de Junho, num intervalo relativamente estreito em torno dos US$4.000. Esta estabilidade tem levado analistas a antecipar que a decisão da Reserva Federal, ou a comunicação que a acompanhará, poderá desencadear um movimento mais pronunciado.

Rhona O’Connell, responsável pela análise de mercados da StoneX, considera que a permanência do ouro numa faixa estreita, apoiada pela zona dos US$4.000, sugere que uma ruptura poderá ocorrer em algum momento.

A analista observa, contudo, que os mercados físicos continuam muito pouco activos, enquanto os participantes profissionais procuram interpretar a interacção entre petróleo, taxas de juro e dólar — três variáveis que exercem influência determinante sobre o preço do ouro.

Mercado Físico Permanece Fraco Apesar Da Resistência Dos Preços

A fraca actividade nos mercados físicos constitui uma dimensão importante da actual trajectória do ouro.

Em períodos anteriores de correcção, a descida dos preços tendia a estimular a compra de jóias, barras e moedas, sobretudo em mercados como a China e a Índia. Porém, os elevados níveis de preços alcançados desde 2025 reduziram a capacidade de resposta dos consumidores tradicionais.

A resistência acima dos US$4.000 resulta, por isso, menos de uma recuperação ampla da procura física e mais da combinação entre posições financeiras, compras oficiais, incerteza geopolítica e procura por diversificação.

O Wall Street Journal assinala que a procura física, particularmente proveniente da China, e as aquisições dos bancos centrais continuam a limitar as perdas, mesmo num ambiente desfavorável marcado pelo dólar forte e pelo aumento das expectativas de juros. 

A zona dos US$4.000 tornou-se, deste modo, um nível de equilíbrio. Abaixo deste patamar, poderão surgir compradores de longo prazo e investidores interessados em reconstruir posições. Acima dos US$4.100 e US$4.200, o mercado encontra maior resistência, devido ao custo de oportunidade criado pelos elevados rendimentos das obrigações.

Fed Enfrenta Decisão Entre Inflação Persistente E Sinais De Moderação

A Reserva Federal iniciou, a 28 de Julho, uma reunião de dois dias. O comunicado de política monetária será divulgado às 14 horas de Washington, no dia 29, seguindo-se a conferência de imprensa do presidente da instituição, Kevin Warsh. O intervalo actual da taxa directora situa-se entre 3,50% e 3,75%. 

A manutenção das taxas continua a ser o cenário predominante entre economistas e instituições financeiras. Contudo, a decisão deixou de ser considerada previsível depois da subida dos preços energéticos e do aumento das preocupações com a inflação.

Segundo os dados do CME FedWatch citados pela Reuters no início da sessão, os mercados atribuíam uma probabilidade de aproximadamente 34% a uma subida de 25 pontos base nesta reunião. Para Setembro, a probabilidade de aumento encontrava-se próxima de 79%.

Actualizações posteriores colocaram a probabilidade de uma subida imediata entre 36% e 38%, evidenciando a rapidez com que as expectativas se alteraram em função do petróleo, dos rendimentos das obrigações e das notícias geopolíticas. O CME esclarece que as probabilidades do FedWatch são calculadas a partir dos preços dos contratos de futuros sobre os Fed Funds e, por isso, variam continuamente durante as sessões. 

O Financial Times assinala que a probabilidade de subida aumentou de 13% para cerca de 38% no espaço de uma semana, acompanhando a forte valorização do petróleo e o receio de que o choque energético volte a alimentar a inflação. 

Apesar desta alteração, instituições como o Bank of America e o Deutsche Bank continuam a prever que a Reserva Federal mantenha os juros. A Reuters observa, porém, que um número crescente de casas de investimento passou a considerar a reunião uma decisão muito equilibrada, ou um “close call”. 

Inflação Mais Moderada Confronta-Se Com Novo Choque Energético

O dilema da Reserva Federal resulta da coexistência de sinais económicos contraditórios.

Por um lado, os dados da inflação de Junho foram mais moderados do que o esperado, reduzindo a urgência de uma nova subida dos juros. Por outro, a valorização recente do petróleo voltou a aumentar os riscos inflacionistas e a pressionar os rendimentos das obrigações.

A Bloomberg, numa análise reproduzida pelo Business Times, observa que os decisores da Reserva Federal estão divididos entre a leitura mais favorável da inflação de Junho e o aumento mais recente dos preços do petróleo, provocado pelo agravamento do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. 

O Financial Times acrescenta que a Reserva Federal não avalia apenas o choque petrolífero. As novas tarifas comerciais e a elevada procura interna, incluindo o investimento associado à inteligência artificial, poderão manter a actividade económica e as pressões sobre os preços acima do nível compatível com a meta de inflação de 2%. 

As actas da reunião de Junho já tinham revelado uma inclinação mais restritiva. Vários membros manifestaram preocupação com a persistência da inflação e alguns defenderam que os custos de financiamento existentes poderiam não ser suficientemente restritivos. 

Neste contexto, mesmo uma decisão de manutenção poderá ser acompanhada por uma comunicação que preserve a possibilidade de subida em Setembro.

Comunicação De Warsh Poderá Ser Mais Importante Do Que A Taxa

Para o mercado do ouro, o conteúdo da conferência de imprensa poderá ter um impacto superior ao da própria decisão.

Se a Reserva Federal mantiver as taxas, mas indicar que o choque energético e a inflação justificam um novo aumento em Setembro, o dólar e os rendimentos das obrigações poderão continuar elevados. Esse cenário seria desfavorável para o ouro.

Se, pelo contrário, Kevin Warsh destacar a moderação da inflação, os riscos para o emprego e a necessidade de observar mais dados antes de apertar novamente as condições financeiras, o dólar poderá perder força e proporcionar algum alívio ao metal.

O Financial Times considera que a reunião representa também uma prova para a credibilidade de Warsh, que preside à sua segunda reunião desde que assumiu a liderança da Reserva Federal. O presidente da instituição tem evitado fornecer orientação antecipada muito precisa, deixando claro que cada reunião permanece aberta a diferentes decisões. 

A ausência de uma orientação explícita aumentou a incerteza e ampliou a sensibilidade dos mercados a cada novo dado económico ou alteração dos preços do petróleo.

O Wall Street Journal refere que a maioria dos analistas ainda espera uma manutenção das taxas, mas que os mercados já incorporam uma subida em Setembro. O jornal sublinha que juros elevados aumentam o custo de oportunidade de possuir ouro, uma vez que o metal não paga juros nem dividendos. 

Trump Pressiona Fed Para Reduzir Taxas

O Presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a defender uma política monetária menos restritiva.

Trump afirmou que a Reserva Federal deveria reduzir as taxas e que os Estados Unidos deveriam ter os juros mais baixos do mundo.

A intervenção acrescenta uma dimensão política à reunião, embora a Reserva Federal possua autonomia formal para tomar decisões com base nos seus objectivos de estabilidade dos preços e sustentabilidade do emprego.

O apelo de Trump contrasta com o movimento recente dos mercados, que passaram a atribuir maior probabilidade a uma subida, em vez de uma redução, das taxas.

Esta divergência coloca Kevin Warsh perante uma dupla pressão: demonstrar independência face à Casa Branca e, simultaneamente, evitar uma reacção excessiva a um choque energético que poderá ser temporário.

Petróleo Pode Favorecer E Penalizar Ouro Ao Mesmo Tempo

A evolução do petróleo produz efeitos contraditórios sobre o ouro.

Quando os preços energéticos sobem devido a tensões geopolíticas, os investidores tendem a procurar ouro como activo de refúgio e instrumento de protecção contra a inflação.

Contudo, preços energéticos persistentemente elevados também podem levar a Reserva Federal a aumentar as taxas. Como o ouro não oferece rendimento, uma subida dos juros torna as obrigações e outros activos remunerados relativamente mais atractivos.

A inflação pode, por isso, favorecer o ouro enquanto reserva de valor, mas a resposta monetária à inflação pode penalizá-lo.

Esta tensão ajuda a explicar por que razão o metal não beneficiou plenamente do agravamento do conflito no Médio Oriente.

Na terça-feira, os preços do petróleo recuaram e permaneceram próximos de mínimos de uma semana, apoiados pela expectativa de uma possível solução para o confronto entre Washington e Teerão.

Donald Trump afirmou que os Estados Unidos estavam a manter “boas conversações” com o Irão e que existia a possibilidade de um acordo. Advertiu, porém, que os ataques poderiam ser retomados caso as negociações não produzissem resultados.

A redução do petróleo limita as pressões inflacionistas e poderá diminuir a necessidade de uma subida imediata dos juros. Em contrapartida, o abrandamento das tensões geopolíticas reduz parte da procura por ouro como refúgio.

Dólar E Juros Reais Redefinem A Concorrência Pelo Capital

O dólar constitui um dos principais determinantes da actual correcção.

Como o ouro é negociado internacionalmente na moeda norte-americana, a sua valorização torna o metal mais caro para compradores que utilizam euros, libras, Yen, Yuan ou outras moedas.

O segundo factor é o comportamento dos juros reais, ou seja, os rendimentos das obrigações depois de descontada a inflação.

Quando os juros reais aumentam, os investidores podem obter rendimentos positivos através de títulos considerados seguros. O ouro, que não gera fluxo de caixa, torna-se menos competitivo.

A BlackRock calcula que o metal caiu cerca de 25% desde o máximo histórico atingido em Janeiro. A gestora associa a correcção ao fortalecimento do dólar, à subida dos juros reais e à preferência dos investidores por activos capazes de gerar lucros e fluxos de caixa, incluindo empresas ligadas à expansão da inteligência artificial. 

Esta rotação ajuda a explicar por que razão o ouro tem encontrado dificuldades em recuperar, mesmo num ambiente de elevada incerteza geopolítica.

Os investidores não abandonaram necessariamente a procura por segurança, mas passaram a encontrar rendimentos mais elevados em obrigações de curto e médio prazo. A própria BlackRock considera que os actuais níveis de rendimento voltaram a criar oportunidades em títulos do Tesouro e crédito de qualidade. 

ING E HSBC Revêem Previsões, Mas Mantêm Ouro Acima Dos Níveis Actuais

A ING reduziu as suas previsões para o ouro, antecipando que o dólar forte, os elevados rendimentos das obrigações e a menor procura dos fundos negociados em bolsa continuarão a pressionar os preços.

O banco prevê agora uma média de US$4.300 por onça no terceiro trimestre de 2026 e de US$4.600 no quarto trimestre, abaixo das estimativas anteriores de US$4.850 e US$5.000, respectivamente. 

Apesar da revisão, ambas as estimativas permanecem acima dos preços observados esta terça-feira, sugerindo que a ING ainda prevê alguma recuperação durante o segundo semestre.

O HSBC também reduziu a sua previsão média para 2026, de US$4.864 para US$4.560 por onça. O banco prevê uma faixa ampla entre US$3.800 e US$4.700 ao longo do ano e estima que o metal poderá terminar 2026 próximo de US$4.750. 

A amplitude destas projecções demonstra que os bancos não antecipam uma trajectória linear. O ouro poderá recuperar caso os juros e o dólar estabilizem, mas continuará exposto a correcções significativas se a Reserva Federal adoptar uma orientação mais restritiva.

Bancos Centrais Preservam O Suporte Estrutural

A pressão de curto prazo não elimina os factores que sustentaram a valorização do ouro nos últimos anos.

Segundo o World Gold Council, os bancos centrais compraram, em média, cerca de mil toneladas de ouro por ano durante os últimos quatro anos, aproximadamente o dobro da média anual de 500 toneladas observada na década anterior. (World Gold Council)

No inquérito de 2026 realizado pela organização, 89% dos gestores de reservas afirmaram esperar um aumento das reservas mundiais de ouro nos 12 meses seguintes. Um recorde de 45% declarou prever um aumento das reservas da sua própria instituição. 

Além disso, 84% dos inquiridos consideram que o ouro representará uma parcela maior das reservas internacionais dentro de cinco anos, enquanto 74% esperam que a participação do dólar diminua. 

Esta tendência traduz uma procura por diversificação, liquidez, segurança e menor exposição a riscos políticos ou financeiros associados a moedas e títulos soberanos específicos.

O World Gold Council adverte, contudo, que o aumento do número de bancos centrais interessados em comprar não permite determinar automaticamente o volume efectivo das futuras aquisições. A procura oficial deverá continuar, mas poderá variar em função dos preços e das condições orçamentais e cambiais de cada país. 

Queda Desde Janeiro Não Elimina Ganhos De Longo Prazo

O ouro ultrapassou os US$5.500 por onça durante o movimento de valorização registado em Janeiro, antes de cair temporariamente abaixo dos US$4.000 no final de Junho.

Apesar de acumular uma perda próxima de 7% desde o início de 2026, o World Gold Council considera que o metal continua entre os activos com melhor desempenho quando analisados os últimos 12 meses. 

A queda desde os máximos representa, portanto, uma correcção significativa, mas não uma reversão completa do ciclo iniciado nos anos anteriores.

O mercado procura agora determinar se os actuais níveis representam uma fase de consolidação ou o início de uma correcção mais profunda.

Uma Fed mais restritiva, acompanhada por dólar forte e novos aumentos dos juros reais, poderá empurrar o ouro abaixo dos US$4.000 e aproximá-lo da zona inferior das previsões do HSBC, situada em US$3.800.

Uma manutenção dos juros, acompanhada por uma mensagem mais prudente, poderá favorecer a recuperação para os US$4.100 ou US$4.200. Uma deterioração do crescimento mundial, um novo choque geopolítico ou a redução dos juros poderá produzir ganhos mais expressivos.

Restantes Metais Também Acompanham Pressão Do Mercado

A queda não ficou limitada ao ouro.

A prata perdeu 1,4%, para US$57,56 por onça, enquanto a platina recuou 0,8%, para US$1.607,76. O paládio caiu 1,5%, para US$1.272,71.

O movimento conjunto demonstra que a expectativa de juros elevados e a valorização do dólar afectam o complexo dos metais preciosos de forma mais ampla.

A prata, a platina e o paládio possuem, contudo, uma componente industrial mais significativa do que o ouro. A sua trajectória também depende das perspectivas de crescimento económico, da procura tecnológica, da indústria automóvel e das condições de oferta.

Decisão Da Fed Poderá Romper Intervalo Estreito

O comportamento do ouro nas próximas sessões dependerá menos da decisão isolada e mais da combinação entre taxas, comunicação, petróleo e dólar.

A manutenção das taxas já se encontra parcialmente incorporada nos preços. O elemento decisivo será a indicação sobre Setembro e sobre a disponibilidade da Reserva Federal para responder a uma eventual persistência da inflação.

O ouro encontra-se actualmente comprimido entre forças conjunturais desfavoráveis — dólar forte, juros reais elevados, procura física fraca e rotação para activos remunerados — e suportes estruturais como as compras dos bancos centrais, a diversificação das reservas e os riscos fiscais e geopolíticos.

A zona dos US$4.000 representa a fronteira entre estas duas forças.

Uma quebra sustentada poderá aprofundar a correcção. A capacidade de permanecer acima deste patamar, apesar das condições monetárias adversas, confirmará que o mercado continua a atribuir ao ouro um papel estratégico na protecção e diversificação do património global.