
Dólar perde força com impasse comercial sino-americano e volatilidade no sentimento dos investidores
- Confusão nas negociações entre Washington e Pequim fragiliza o dólar, impulsiona divisas de refúgio e abre espaço para ganhos do euro e da libra esterlina
O dólar norte-americano registou uma performance fraca nos mercados internacionais esta terça-feira, penalizado pela incerteza crescente sobre a evolução da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A ausência de sinais claros de desanuviamento nas negociações comerciais reforçou a procura por activos de refúgio, enquanto o euro e a libra esterlina consolidaram ganhos.
A instabilidade nas negociações comerciais entre os Estados Unidos e a China continua, assim, a castigar o dólar norte-americano, que registou apenas recuperações marginais esta terça-feira, após quedas acentuadas no início da semana.
Os investidores, desconfiados perante os sinais contraditórios enviados por Washington e Pequim, optaram por reduzir a exposição a activos denominados em dólares, favorecendo o iene japonês e o franco suíço, tradicionalmente considerados refúgios em períodos de incerteza.
A moeda norte-americana subiu ligeiramente 0,11% face ao iene, para 142,19 ienes, e 0,18% em relação ao franco suíço, para 0,8217 francos suíços. Ainda assim, estas oscilações foram insuficientes para recuperar das perdas de 1,2% e 0,8%, respectivamente, sofridas na sessão anterior.
Negociações confusas alimentam a volatilidade
As declarações recentes do Secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, responsabilizando a China pela ausência de progressos, e a negação por parte de Pequim de qualquer entendimento, aumentaram a incerteza. Apesar de Donald Trump assegurar haver avanços, as mensagens contraditórias entre as partes fragilizaram ainda mais o sentimento dos investidores.
“Dado o ambiente de sinais confusos, é improvável que se alcance um acordo no curto prazo. A China parece preparar-se para uma guerra comercial prolongada”, advertiu Carol Kong, estratega cambial do Commonwealth Bank of Australia.
Alívio parcial: redução das tarifas automóveis
Num sinal positivo, a administração Trump indicou que pretende reduzir o impacto das tarifas sobre o sector automóvel, o que trouxe algum alívio momentâneo aos mercados. Adicionalmente, a China concedeu isenções em algumas tarifas de 125% sobre produtos norte-americanos, sugerindo uma ligeira moderação de posições.
Ainda assim, a falta de clareza sobre um desfecho para o conflito continua a gerar cautela.
Mercados cambiais: o euro e a libra ganham terreno
O euro recuou modestamente 0,15%, para 1,1404 dólares, mas permanece encaminhado para a sua maior valorização mensal contra o dólar em quase 15 anos. A libra esterlina manteve-se próxima dos máximos de três anos, transaccionando a 1,3427 dólares.
No conjunto, o índice do dólar, que compara a moeda norte-americana com uma cesta de principais divisas, estabilizou nos 99,079 pontos, após ter caído 0,6% na véspera.
Perspectivas económicas e impacto nos dados futuros
Os investidores aguardam agora um conjunto de indicadores económicos cruciais dos Estados Unidos, incluindo os dados de crescimento do primeiro trimestre, o relatório de emprego e o índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE), o indicador de inflação preferido pela Reserva Federal.
“Acredito que os dados económicos dos EUA irão deteriorar-se ainda mais. Quando surgirem indicadores mais fracos, o dólar poderá sofrer novas pressões, deixando de ser visto como moeda de refúgio”, sublinhou Carol Kong.
Loonie, dólar australiano e dólar neozelandês: movimentos discretos
Entretanto, o dólar canadiano manteve-se estável nos C$1,3837, numa sessão marcada pela expectativa em torno dos resultados eleitorais no Canadá. O dólar australiano e o dólar neozelandês registaram quedas modestas, de 0,02% e 0,27%, respectivamente.
Conclusão: incerteza continua a pesar sobre os mercados
Apesar de alguns sinais ténues de suavização das tensões comerciais, o panorama geral continua altamente volátil. A falta de confiança nas negociações entre Washington e Pequim, aliada às expectativas de dados económicos mais fracos, sugere que o dólar poderá permanecer sob pressão no curto prazo.
Num ambiente em que as divisas de refúgio ganham terreno e o apetite por risco diminui, as próximas semanas serão decisivas para aferir se os EUA e a China conseguem, de facto, encontrar um caminho para a normalização ou se o cenário de guerra comercial prolongada se consolidará.
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