Fundo África-Ásia Canaliza 82,8 Milhões De Dólares Para Torres E Fibra Óptica Em África

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  • Financiamento permitirá construir 728 torres de telecomunicações na República Democrática do Congo e apoiar a manutenção e expansão de uma rede pan-africana com mais de 110 mil quilómetros; operação confirma crescente procura por capital privado de longo prazo, mas cobertura, preço dos dados, energia e capacidade de utilização continuam a limitar a inclusão digital
Questões-Chave:
  • O Fundo de Infra-Estruturas para África e Ásia Emergentes comprometeu 82,8 milhões de dólares para dois investimentos em telecomunicações;
  • A Eastcastle receberá 32,8 milhões de dólares para aumentar a sua rede na República Democrática do Congo de 1.072 para 1.800 torres;
  • Cerca de 70% das 728 novas torres serão instaladas em zonas rurais e pouco servidas;
  • A Liquid Intelligent Technologies receberá 50 milhões de dólares no âmbito de um pacote de 450 milhões destinado à reestruturação financeira, manutenção e expansão da sua rede de fibra óptica;
  • O financiamento do EAAIF representa apenas uma parcela dos 629 milhões de dólares mobilizados nos dois pacotes, revelando o seu papel catalítico;
  • A União Internacional das Telecomunicações estima que a banda larga móvel cobre 86% da população africana, mas apenas pouco mais de um terço utiliza efectivamente a Internet;
  • Em Moçambique, apenas 20,5% da população utilizava a Internet em 2024, enquanto o custo de um pacote móvel de cinco gigabytes correspondia a 14,2% do rendimento médio mensal por habitante;
  • O investimento anunciado não identifica uma afectação directa a Moçambique, mas oferece referências para o financiamento da expansão da conectividade rural, fibra, centros de dados e infra-estruturas partilhadas.

O Fundo de Infra-Estruturas para África e Ásia Emergentes, conhecido pela sigla EAAIF, comprometeu 82,8 milhões de dólares para a expansão de torres de telecomunicações na República Democrática do Congo e para o financiamento de uma rede de fibra óptica que atravessa 25 países africanos.

O primeiro investimento corresponde a um empréstimo de 32,8 milhões de dólares à Eastcastle Infrastructure DRC, integrado numa facilidade financeira de 179 milhões. Os recursos permitirão construir 728 torres, elevando a rede da empresa de 1.072 para 1.800 instalações.

A segunda operação consiste num empréstimo de 50 milhões de dólares à Liquid Intelligent Technologies, no quadro de um pacote de reestruturação e expansão avaliado em 450 milhões. O financiamento apoiará a optimização da estrutura de capital da empresa e a manutenção de uma rede com mais de 110 mil quilómetros de fibra óptica em África.

O comunicado oficial do EAAIF caracteriza as duas operações como uma combinação entre expansão da cobertura móvel local e preservação da conectividade transfronteiriça de alta velocidade. A instituição é integrada no Private Infrastructure Development Group e gerida pela Ninety One. 

Nem Todo O Financiamento Corresponde À Construção De Nova Rede

O valor de 82,8 milhões de dólares não deve ser interpretado integralmente como investimento em novas infra-estruturas.

A parcela atribuída à Eastcastle está directamente associada à instalação das 728 torres adicionais. No caso da Liquid Intelligent Technologies, os 50 milhões de dólares serão utilizados no âmbito de uma operação mais ampla que inclui reestruturação financeira, manutenção da rede existente e expansão da capacidade.

Esta distinção é relevante porque a sustentabilidade da infra-estrutura digital não depende apenas da construção de novos activos. Redes de fibra exigem manutenção, substituição de equipamentos, segurança, energia, redundância e capacidade financeira para acompanhar o crescimento do tráfego de dados.

Segundo o EAAIF, o financiamento permitirá à Liquid fortalecer o balanço e preservar uma rede que serve operadores de telecomunicações, empresas, fornecedores de serviços de computação em nuvem e grandes utilizadores de capacidade digital. 

A operação também mostra que o financiamento ao desenvolvimento está a assumir formas mais próximas do mercado. Em vez de uma subvenção, o EAAIF concede dívida privada de longo prazo, esperando que as receitas geradas pela infra-estrutura permitam o reembolso do capital.

Torres Procuram Reduzir Um Dos Maiores Défices De Cobertura

A República Democrática do Congo apresenta uma taxa de penetração da Internet móvel de apenas 17%, segundo os dados divulgados pelo EAAIF.

A densidade de torres situa-se entre uma instalação por cada 15 mil e 20 mil habitantes, comparativamente a aproximadamente uma torre por cada 600 pessoas nos Estados Unidos.

A expansão da Eastcastle pretende enfrentar esta insuficiência. Das 728 novas torres previstas, cerca de 70% — aproximadamente 510 instalações — serão construídas em zonas rurais e mercados pouco servidos. 

As torres serão equipadas com painéis solares e baterias de lítio, reduzindo a dependência do gasóleo e contornando as falhas da rede eléctrica. A solução evidencia a interdependência entre telecomunicações e energia: onde o fornecimento eléctrico é insuficiente, cada torre precisa de incorporar a sua própria capacidade de geração e armazenamento.

Para os operadores móveis, a disponibilidade de torres partilhadas pode diminuir os custos iniciais de expansão. Em vez de cada empresa construir uma infra-estrutura própria, diferentes operadores podem utilizar o mesmo activo, pagando pelo espaço, energia e serviços associados.

Este modelo torna-se especialmente importante em zonas rurais, onde a baixa densidade populacional e o menor rendimento dos utilizadores reduzem a rentabilidade de redes duplicadas.

Fibra Transfronteiriça Funciona Como Infra-Estrutura De Integração

Enquanto as torres estabelecem a ligação entre o utilizador e a rede móvel, a fibra óptica assegura o transporte de grandes volumes de dados entre cidades, países, centros de dados e cabos submarinos.

A Liquid Intelligent Technologies afirma operar a maior rede independente de fibra de África, com mais de 116 mil quilómetros. O comunicado do EAAIF utiliza uma referência superior a 110 mil quilómetros, diferença que pode resultar do período de medição ou da classificação dos segmentos considerados. 

A rede liga-se aos principais sistemas de cabos submarinos que conectam África ao resto do mundo. Também inclui uma ligação terrestre entre a Cidade do Cabo e o Cairo, reduzindo a necessidade de encaminhar parte do tráfego africano através de centros localizados fora do continente.

A permanência do tráfego em redes africanas pode diminuir a latência, reduzir custos de transporte de dados e melhorar o desempenho de serviços de computação em nuvem, pagamentos digitais, comércio electrónico, educação, saúde e administração pública.

A fibra transfronteiriça também constitui uma infra-estrutura de integração económica. Empresas instaladas em diferentes países podem utilizar redes comuns, ligar escritórios, alojar dados regionalmente e expandir operações sem depender exclusivamente de ligações internacionais mais longas e onerosas.

Capital Do Fundo Procura Mobilizar Outros Financiadores

Os dois pacotes financeiros associados à Eastcastle e à Liquid totalizam 629 milhões de dólares. A contribuição do EAAIF, de 82,8 milhões, corresponde a pouco mais de 13% desse montante.

Isto significa que o papel da instituição não consiste em financiar isoladamente todos os investimentos, mas em participar na estrutura e reduzir o risco percebido por outros credores.

A presença de uma instituição de financiamento ao desenvolvimento pode aumentar a confiança de bancos comerciais, fundos e investidores institucionais, sobretudo em mercados considerados de maior risco político, cambial ou operacional.

O fundo espera ultrapassar 200 milhões de dólares em financiamento de projectos durante 2026. Em 2025, assinou nove transacções avaliadas conjuntamente em 253 milhões de dólares e pretende investir mais de mil milhões em infra-estruturas até 2028. A sua carteira de empréstimos comprometidos alcança 1,6 mil milhões de dólares, distribuídos por 25 países e dez sectores.

A intervenção concentra-se principalmente em energia renovável, telecomunicações, transportes e logística. Esta combinação mostra que a digitalização não está a ser financiada como uma actividade isolada, mas como parte da infra-estrutura económica necessária ao funcionamento de empresas, mercados e serviços públicos.

África Possui Cobertura, Mas Ainda Não Converte Rede Em Utilização

O investimento em torres e fibra responde a uma lacuna real, mas a ausência de infra-estrutura já não explica, sozinha, a exclusão digital africana.

A União Internacional das Telecomunicações estima que, em 2024, as redes de banda larga móvel cobriam 86% da população africana. A proporção sem possibilidade de ligação situava-se em 14%, aumentando para 25% nas zonas rurais. 

Apesar dessa cobertura, apenas pouco mais de um em cada três africanos utilizava a Internet em 2025. A diferença entre pessoas abrangidas pela rede e utilizadores efectivos mostra que existe um amplo défice de utilização. 

Entre as principais barreiras encontram-se o preço dos dados, custo dos dispositivos, ausência de competências digitais, falta de conteúdos relevantes, qualidade insuficiente do serviço e receios relacionados com segurança e privacidade.

A situação significa que a construção de uma torre não produz automaticamente inclusão. Uma família pode viver numa área coberta e continuar sem acesso por não conseguir comprar um telefone compatível, pagar um pacote de dados ou utilizar os serviços disponíveis.

Por isso, o impacto dos 82,8 milhões de dólares deverá ser medido para além do número de torres e quilómetros de fibra. Será necessário observar a redução dos preços, qualidade das ligações, número de novos utilizadores, utilização empresarial e expansão dos serviços digitais.

Custo Continua A Separar Cobertura De Acesso Efectivo

Em 2024, o preço médio de um pacote móvel de dois gigabytes em África correspondia a 4,8% do rendimento nacional bruto mensal por habitante, segundo a União Internacional das Telecomunicações. 

O valor médio oculta diferenças consideráveis entre países, zonas urbanas e rurais e grupos de rendimento. Para as famílias mais pobres, o custo do dispositivo pode representar uma barreira ainda maior do que o preço dos dados.

O Banco Mundial estima que, em alguns países da África Subsaariana, o preço médio de um smartphone com acesso à Internet equivale a aproximadamente 45% do rendimento mensal de um adulto situado nos 40% mais pobres da população.

A expansão da oferta pode reduzir preços ao aumentar a capacidade e concorrência, mas isso não acontece necessariamente. Quando existe apenas um fornecedor de infra-estrutura, elevados custos de energia, impostos sobre equipamentos ou acesso limitado às redes de transporte, o benefício pode não chegar integralmente ao utilizador.

As autoridades reguladoras precisam, por isso, de combinar investimento com regras de partilha de infra-estruturas, concorrência no mercado grossista, transparência das tarifas e acesso não discriminatório às redes essenciais.

Moçambique Não É Beneficiário Directo Identificado Nesta Operação

O financiamento anunciado destina-se especificamente às torres da Eastcastle na República Democrática do Congo e à rede pan-africana da Liquid Intelligent Technologies.

O comunicado não identifica uma parcela directamente reservada para a construção de torres, fibra ou centros de dados em Moçambique. Por essa razão, não é possível concluir que os 82,8 milhões de dólares produzirão investimentos físicos imediatos no País.

A relevância para Moçambique encontra-se, sobretudo, no modelo utilizado: dívida de longo prazo, mobilização conjunta de capital privado, partilha de torres, redes transfronteiriças e integração entre conectividade e energia renovável.

O EAAIF já participou em financiamentos com presença moçambicana. A instituição comprometeu 33 milhões de dólares para um programa da Raxio destinado à construção e operação de centros de dados em sete países, incluindo Moçambique. O pacote total mobilizado com a Proparco foi avaliado em 110 milhões de dólares. (

O fundo e a Ninety One também participaram numa facilidade de 31 milhões de dólares para a expansão da rede de fibra e dos centros de dados da Paratus em países como Angola, Botswana, Zâmbia e Moçambique. 

Estas operações mostram que Moçambique já se encontra no mapa dos financiadores privados de infra-estrutura digital, embora a escala e a distribuição territorial dos investimentos continuem a ser determinantes para o seu impacto.

Indicadores Moçambicanos Revelam Um Mercado Ainda Subutilizado

Dados da União Internacional das Telecomunicações indicam que apenas 20,5% da população moçambicana utilizava a Internet em 2024.

No mesmo ano, o custo de um pacote móvel de cinco gigabytes correspondia a 14,2% do rendimento nacional bruto mensal por habitante. 

Este indicador não é directamente comparável com outras estimativas que utilizam pacotes, volumes de dados e metodologias diferentes. Ainda assim, evidencia que a acessibilidade financeira permanece uma restrição relevante.

O Projecto de Aceleração Digital de Moçambique, financiado pelo Banco Mundial, procura ampliar a conectividade rural, reduzir o custo dos serviços, melhorar as competências digitais e desenvolver os fundamentos legais e institucionais da transformação tecnológica.

O relatório de implementação publicado em Junho de 2026 indicava que 41,6% dos recursos aprovados tinham sido desembolsados. O preço do pacote-padrão de dados acompanhado pelo projecto caiu de 9,4% do rendimento mensal por habitante, em 2022, para 2,67% em Março de 2026, superando a meta intermédia de 3,5% prevista para 2028. 

Contudo, o mesmo relatório ainda não registava, em Março, infra-estruturas rurais de banda larga construídas ou melhoradas através do indicador principal do projecto, perante uma meta de 75 até 2028. O mecanismo de financiamento de dispositivos também ainda não apresentava beneficiários, numa iniciativa que pretende alcançar 300 mil pessoas, das quais 175 mil mulheres. 

A evolução mostra que reduzir preços pode avançar mais rapidamente do que construir infra-estruturas rurais, financiar dispositivos e desenvolver competências em grande escala.

Energia E Telecomunicações Precisam De Avançar Em Conjunto

A decisão de equipar as novas torres da Eastcastle com painéis solares e baterias de lítio contém uma referência relevante para Moçambique.

Grande parte das populações sem acesso adequado à Internet vive em áreas onde o fornecimento de electricidade também é limitado ou instável. Uma torre conectada à rede de fibra pode permanecer inoperacional quando não existe energia fiável para alimentar os equipamentos.

O Banco Mundial tem apoiado em Moçambique uma abordagem que combina energia sustentável e banda larga nas zonas rurais, reconhecendo que os dois serviços partilham limitações geográficas e podem beneficiar de planeamento coordenado. (

Infra-estruturas solares instaladas para telecomunicações também podem reduzir a utilização de geradores a diesel, custos de transporte de combustível e emissões. Contudo, exigem manutenção local, segurança, peças de substituição e sistemas de gestão das baterias.

A expansão digital sustentável precisará, portanto, de incorporar custos operacionais desde a concepção do investimento, evitando instalações que funcionem durante o período inicial e se deteriorem por ausência de manutenção.

Torres E Fibra Precisam De Produzir Capacidade Empresarial

A infra-estrutura digital gera maior valor quando permite às empresas reduzir custos, chegar a novos mercados, utilizar pagamentos electrónicos, armazenar dados, aceder a serviços de computação em nuvem e integrar cadeias de fornecimento.

Para as pequenas e médias empresas moçambicanas, a conectividade pode diminuir as desvantagens decorrentes da distância física, permitindo vender, contratar serviços e comunicar com clientes sem manter presença em todos os mercados.

O Banco Mundial considera que a expansão digital deve combinar acesso, acessibilidade financeira, infra-estrutura pública digital, competências, regulamentação, segurança cibernética e desenvolvimento do sector privado. 

Sem esta combinação, a maior parte do valor pode permanecer nos fornecedores de equipamentos, operadores internacionais e grandes consumidores de dados, enquanto as empresas locais participam apenas como utilizadoras finais.

Políticas de conteúdo local podem incentivar a formação de técnicos, manutenção de torres, instalação de fibra, serviços de energia, segurança, construção civil, gestão de dados e desenvolvimento de soluções digitais.

Infra-Estrutura É Condição Necessária, Mas Não Resultado Final

O compromisso de 82,8 milhões de dólares demonstra que a conectividade africana está a atrair capital de longo prazo e operações de dimensão crescente.

A combinação entre torres rurais, fibra transfronteiriça e financiamento privado responde a duas necessidades complementares: levar a rede às comunidades e assegurar capacidade suficiente para transportar o tráfego entre países.

O valor económico e social dependerá, porém, da utilização efectiva dessa infra-estrutura. Cobertura sem preços acessíveis, dispositivos, energia, competências e serviços relevantes produz activos subutilizados.

Para Moçambique, a operação oferece uma referência sobre a possibilidade de mobilizar fundos especializados, bancos comerciais e investidores privados para financiar a conectividade. Também recorda que o País precisa de demonstrar projectos tecnicamente preparados, regras previsíveis, possibilidade de partilha de infra-estruturas e fontes sustentáveis de receitas.

Na perspectiva do O.Económico, a transformação digital não deve ser avaliada apenas pela extensão da fibra ou pelo número de torres instaladas. Deve ser medida pela capacidade de converter conectividade em produtividade, empresas competitivas, emprego, serviços públicos mais eficientes e acesso real das populações à economia digital.