Ouro Caminha Para Terceiro Ganho Semanal Com Dólar Mais Fraco E Recompras Do Tesouro

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  • O metal valorizou 3,6% na semana e regressou aos níveis mais elevados desde o início de Junho, depois de o Tesouro norte-americano duplicar as recompras de títulos de longo prazo. A evolução das taxas de juro, a política da Reserva Federal e as tensões com o Irão permanecem entre os principais factores de orientação do mercado.
Questões-Chave:
  • O ouro à vista avançou para cerca de 4.540 dólares por onça e acumulou uma valorização semanal de 3,6%;
  • O metal encaminha-se para o terceiro ganho semanal consecutivo, depois de atingir o nível mais elevado desde o início de Junho;
  • O Tesouro norte-americano duplicará as recompras de títulos de dívida de longo prazo, de dois mil milhões para pelo menos quatro mil milhões de dólares por operação;
  • A medida reduziu inicialmente os rendimentos das obrigações e enfraqueceu o dólar, aumentando a atractividade do ouro;
  • O mercado atribui uma probabilidade de 64% à manutenção das taxas de juro pela Reserva Federal em Setembro e de 36% a uma subida;
  • A perspectiva de novas sanções norte-americanas contra o Irão acrescenta procura por activos de refúgio;
  • Prata, platina e paládio também avançaram e encaminham-se para ganhos semanais.

O ouro avançou esta sexta-feira e encaminha-se para a terceira valorização semanal consecutiva, sustentado pelo enfraquecimento do dólar, pela intervenção do Tesouro dos Estados Unidos no mercado de dívida e pelo aumento da procura por activos defensivos perante as tensões geopolíticas.

O ouro à vista subia 0,5%, para 4.540,18 dólares por onça, depois de alcançar na sessão anterior o nível mais elevado desde o início de Junho. No acumulado da semana, o metal valorizou aproximadamente 3,6%.

Os futuros do ouro nos Estados Unidos avançavam 0,6%, para 4.596,60 dólares por onça.

A valorização ganhou força depois de o Tesouro norte-americano anunciar o aumento das recompras de obrigações de longo prazo, numa tentativa de melhorar a liquidez num segmento do mercado que registou uma subida acentuada dos rendimentos.

A medida foi interpretada pelos investidores como um factor de suporte às obrigações, de redução dos rendimentos e de enfraquecimento do dólar. Esta combinação favorece o ouro, que não paga juros e se torna relativamente mais atractivo quando diminuem os retornos oferecidos pelos títulos de dívida.

Tesouro Duplica Recompras De Dívida De Longo Prazo

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou que aumentará de dois mil milhões para pelo menos quatro mil milhões de dólares o valor máximo de cada operação de recompra de títulos com maturidades entre 10 e 30 anos.

A alteração entrará em vigor a 9 de Setembro e deverá manter-se até 4 de Novembro, período correspondente ao actual trimestre de refinanciamento. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, admitiu que o valor poderá ser elevado novamente.

As recompras consistem na aquisição, pelo próprio Tesouro, de títulos anteriormente emitidos. O objectivo oficial é melhorar a liquidez das obrigações menos transaccionadas e facilitar o funcionamento do mercado secundário.

O anúncio surgiu depois de o rendimento das obrigações norte-americanas a 30 anos ter alcançado o nível mais elevado em aproximadamente 19 anos, perante as preocupações com a inflação, o défice orçamental e o crescimento da dívida pública.

Os rendimentos de longo prazo recuaram inicialmente após o anúncio, enquanto o dólar registou perdas. O movimento favoreceu os metais preciosos e outros activos utilizados pelos investidores como protecção contra riscos fiscais e monetários.

Apesar do impacto imediato, o volume das recompras continua reduzido em comparação com a dimensão do mercado da dívida norte-americana, avaliado em mais de 32 biliões de dólares. A importância da decisão encontra-se, sobretudo, no sinal transmitido sobre a disposição do Tesouro de intervir num período de elevada volatilidade.

Intervenção Reactiva Preocupações Fiscais

As recompras do Tesouro não correspondem directamente a um programa de expansão monetária da Reserva Federal. Tratam-se de operações de gestão da dívida e de apoio à liquidez, realizadas pela autoridade fiscal.

Ainda assim, o aumento das operações foi interpretado por parte do mercado como uma tentativa de limitar a subida dos custos de financiamento de longo prazo.

Esta leitura reacendeu receios sobre a sustentabilidade da dívida norte-americana e a possibilidade de as autoridades procurarem manter artificialmente reduzidos os rendimentos das obrigações.

Quando os investidores antecipam que a política fiscal ou monetária poderá diminuir o valor real da moeda, o ouro tende a beneficiar por ser considerado uma reserva de valor que não depende da solvabilidade de um Governo ou instituição financeira.

O dólar encaminhava-se para uma perda semanal, tornando os metais cotados na moeda norte-americana mais acessíveis aos compradores que utilizam outras divisas.

“Temos assistido ao enfraquecimento do dólar e isso apoiou não apenas o ouro, mas todos os metais preciosos, juntamente com uma mudança importante nos rendimentos”, afirmou Brian Lan, director-geral da GoldSilver Central, citado pela Reuters.

Reserva Federal Mantém O Mercado Dividido

A evolução do ouro continuará estreitamente ligada às decisões da Reserva Federal e às expectativas sobre as taxas de juro.

O metal não paga juros ou dividendos. Por essa razão, taxas elevadas aumentam o custo de oportunidade de o manter numa carteira, enquanto rendimentos mais baixos das obrigações tendem a melhorar a sua atractividade relativa.

Dois responsáveis da Reserva Federal manifestaram cautela sobre os potenciais efeitos das alterações na gestão da dívida do Tesouro sobre as condições financeiras e sobre a orientação da política monetária.

Dados publicados na quinta-feira mostraram uma redução nos novos pedidos de subsídio de desemprego nos Estados Unidos, sugerindo que o mercado de trabalho permanece relativamente estável, apesar da queda inesperada do emprego em Julho.

A resistência do mercado laboral permite à Reserva Federal continuar concentrada no controlo da inflação, sem necessidade imediata de reduzir as taxas para sustentar a actividade económica.

De acordo com a ferramenta FedWatch do CME Group, os operadores atribuem uma probabilidade de 64% à manutenção das taxas na reunião de Setembro e de 36% a uma subida.

A possibilidade de um aumento das taxas constitui um limite para a valorização do ouro. Uma política monetária mais restritiva poderá elevar os rendimentos reais das obrigações e apoiar o dólar, reduzindo a procura pelo metal.

Ouro Reflecte Procura Por Protecção

A valorização semanal também reflecte uma procura mais ampla por protecção contra riscos fiscais, monetários e geopolíticos.

Os Estados Unidos anunciaram a preparação das “sanções mais duras da história” contra o Irão, numa estratégia que poderá atingir exportações de petróleo, instituições financeiras, transportadores e empresas de países terceiros que mantenham relações comerciais com Teerão.

A perspectiva de novas sanções ocorre num contexto de perturbações no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de petróleo e gás natural liquefeito.

Uma nova escalada poderá elevar os preços da energia, aumentar as pressões inflacionistas e estimular a procura por ouro como activo defensivo.

O efeito sobre o metal, porém, pode ocorrer em sentidos diferentes. O aumento da inflação favorece a procura por protecção, mas uma resposta mais restritiva da Reserva Federal, através de taxas de juro mais elevadas, pode reduzir a atractividade do ouro.

Este equilíbrio entre inflação, taxas de juro, dólar e risco geopolítico deverá orientar o mercado nas próximas sessões.

Prata E Platina Acompanham O Movimento

A valorização não ficou limitada ao ouro. A prata à vista avançou 1,3%, para 68,92 dólares por onça, e também se encaminhava para um ganho semanal.

A platina subiu 2,4%, para 1.872,64 dólares por onça, enquanto o paládio ganhou 1,3%, para 1.351,28 dólares. Os três metais estavam igualmente posicionados para fechar a semana em alta.

A prata combina a procura de investimento com uma utilização industrial relevante, nomeadamente nos sectores de energia solar, electrónica e tecnologias eléctricas. Esta dupla função pode aumentar a volatilidade das suas cotações, por responder simultaneamente às expectativas financeiras e à actividade industrial.

A platina e o paládio são utilizados sobretudo na indústria automóvel, em sistemas de controlo de emissões, além de aplicações químicas, electrónicas e energéticas. Os seus preços são influenciados pela oferta concentrada em poucos países e pelas alterações tecnológicas no sector automóvel.

Política Monetária Define A Próxima Direcção

O avanço do ouro para máximos de mais de dois meses confirma a sensibilidade do mercado às alterações nos rendimentos das obrigações e no valor do dólar.

A ampliação das recompras do Tesouro proporcionou o principal impulso da semana, mas os investidores procuram determinar se a operação representa apenas um ajustamento técnico de liquidez ou o início de uma intervenção mais ampla para reduzir os custos de financiamento do Governo.

Os dados sobre inflação, emprego e actividade económica nos Estados Unidos serão decisivos para as expectativas em relação à Reserva Federal.

Uma manutenção das taxas acompanhada de sinais de menor pressão inflacionista poderá sustentar o ouro. Uma subida das taxas ou uma recuperação do dólar poderá provocar realização de ganhos depois da valorização acumulada nas últimas semanas.

Ao mesmo tempo, as sanções contra o Irão e as condições de navegação no Estreito de Ormuz deverão continuar a alimentar a procura por protecção.

O ouro chega, assim, ao final da semana apoiado por três factores convergentes: dólar mais fraco, incerteza sobre a dívida norte-americana e aumento do risco geopolítico. A continuidade da trajectória será determinada pela forma como estes elementos alterarem as expectativas sobre os juros reais e a confiança nos activos financeiros dos Estados Unidos.

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