Para além do PIB: UNCTAD alerta para desigualdades persistentes no crescimento económico global

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  • África enfrenta desafios severos no que concerne a sustentabilidade ambiental

O Produto Interno Bruto (PIB) tem sido, ao longo de quase 80 anos, o principal indicador de progresso económico. Mas a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) reafirma que crescimento económico não é sinónimo de bem-estar partilhado nem de sustentabilidade. Com base nessa premissa, lançou o Índice de Crescimento Inclusivo, que combina o PIB com dados sobre condições de vida, igualdade e sustentabilidade ambiental, cobrindo 134 países que representam 95% da população mundial.

O mais recente relatório, divulgado a 10 de Março, mostra progressos modestos, mas persistência de disparidades, com as economias desenvolvidas a continuarem a pontuar quase o dobro das economias em desenvolvimento.

Desenvolvimento desigual, mas com sinais de convergência

Países como Luxemburgo, Noruega e Dinamarca continuam a liderar o índice, sendo Singapura e os Emirados Árabes Unidos (EAU) os únicos representantes do mundo em desenvolvimento entre os 30 primeiros.

No entanto, alguns países em desenvolvimento mostram trajectórias promissoras.

  • Singapura regista 97,1 pontos em condições de vida – superando muitas economias desenvolvidas;
  • Chile, China, Tailândia, EAU e Uruguai ultrapassam os 80 pontos, aproximando-se da mediana dos países desenvolvidos (89,3) e afastando-se da mediana do Sul Global (46,4).

No pilar da igualdade, destacam-se os EAU (91,4), Belarus (87,4), Azerbaijão (73,7) e China (71,4), com desempenhos superiores ou comparáveis à mediana dos países desenvolvidos (73,5), e muito acima da média das economias em desenvolvimento (37,4). Esta dimensão avalia o acesso equitativo a recursos, emprego, educação e participação política, com foco em mulheres e jovens.

A urgência de dissociar crescimento de consumo de recursos

O relatório sublinha a necessidade crítica de quebrar a ligação entre crescimento económico e aumento de consumo e desperdício de recursos.

  • Um habitante do Luxemburgo produz, em média, 760 kg de resíduos sólidos urbanos por ano (mais de 2 kg/dia),
  • enquanto um cidadão do Laos gera apenas 50 kg por ano (0,15 kg/dia) – 15 vezes menos.

Ainda que o crescimento económico e a urbanização conduzam a mais resíduos, países como Japão e Coreia do Sul demonstram que gestão eficaz é possível.

Sustentabilidade ambiental: África enfrenta desafios severos

Na dimensão ambiental, os países desenvolvidos mantêm vantagem graças a infra-estruturas mais robustas e políticas ambientais maduras. Mas há variações significativas entre regiões e dentro do próprio grupo.

Entre os países em desenvolvimento, Singapura (66,5), Panamá (54,4) e a República Dominicana (52,3) destacam-se, aproximando-se de referências europeias como Irlanda (71,1), Dinamarca (70,0) e Reino Unido (68,0).

A África apresenta uma mediana de 40,2 pontos, com performances muito díspares: alguns países avançam, mas outros enfrentam grandes constrangimentos de recursos e políticas públicas frágeis. A América Latina (41,8) tem desempenho ligeiramente superior, mas continua presa à dependência de combustíveis fósseis. Ásia e Oceânia registam uma mediana de 30,8 – o resultado mais baixo.

Ilações para Moçambique: além do crescimento, a inclusão

Para Moçambique – país com ambições claras de transformação estrutural, conforme preconiza o novo Programa Quinquenal do Governo (PQG)  2025–2029 – o relatório da UNCTAD lança um alerta pertinente: crescer não é suficiente. É preciso crescer com inclusão, com igualdade, e com sustentabilidade.

Num contexto em que o Governo projecta um crescimento médio de 5,5% ao ano, é essencial que políticas públicas integrem também:

  • A qualidade da geração de emprego;
  • O acesso equitativo a oportunidades (sobretudo para mulheres e jovens);
  • E a sustentabilidade ambiental e territorial das actividades económicas.

O índice da UNCTAD oferece uma lente alternativa para avaliar o progresso real: um crescimento que se veja nas escolas, nos centros de saúde, na redução da pobreza e na coesão territorial – não apenas nos gráficos do PIB.

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