
Perdem-se anualmente mais de 174 milhões de dólares nas colheitas agrícolas
_Soluções para mitigação de perdas pós-colheita estão entre as apostas para melhoria dos rendimentos do sector agrário. Além de ajudar a melhorar a segurança alimentar e nutricional dos agricultores, intervenções focadas na gestão de perdas pós-colheita podem duplicar o rendimento médio do sector.
Apesar dos progressos registados nos últimos anos, resultado das várias iniciativas que vem sendo levadas a cabo para a mitigação do problema, o sector ainda debate-se com sérios desafios na gestão de perdas após a produção.
Devido a um conjunto de factores, com destaque para falta de tecnologias de armazenamento adequadas, e configurando uma espécie de ciclo vicioso, campanha após campanha, os agricultores são forçados a comercializar os seus excedentes imediatamente após a colheita, em condições pouco competitivas, para depois comprar a preços muito elevados na época de escassez, impossibilitando o aumento dos seus rendimentos e deteriorando ainda mais o seu padrão de vida.
São mais de 174 milhões de dólares (cerca de 11 mil milhões de Meticais) em perdas anuais nos principais produtos agrícolas, apontam dados de um estudo realizado pelo economista e assessor da Câmara de Comércio de Moçambique, Hipólito Hamela, apresentando esta quarta-feira, 10/05, num debate no âmbito da iniciativa denominada “Zero perdas pós-colheita”, coordenada pelo Programa Mundial de Alimentos (PAM).

Segundo explicou, apesar dos progressos, o valor das perdas incorridas pelos produtores ainda é muito significativo quando comparado com o volume das vendas, fazendo com que a renda obtida seja metade da renda potencial de cerca de 24 mil milhões de Meticais, caso as perdas fossem reduzidas ao mínimo.
“Se nós conseguimos reduzir as perdas pós-colheitas, aqueles 12 mil milhões que ele [o produtor] deixa de vender porque perdeu, ele passaria para o seu bolso. Então, temos aqui um oportunidade de duplicar a renda do produtor familiar simplesmente olhando para as perdas pós-colheita”, referiu.
É tendo em conta esta realidade e a enorme importância do sector para economia – servindo de base de subsistência para mais de 80% da população – que várias iniciativas, privadas assim como públicas, vêm sendo desenvolvidas no sentido de dotar os produtores de tecnologias melhoradas de armazenamento como um mecanismo não só de melhorar a sua renda mas também de garantir a sua segurança alimentar e nutricional.
Este é o caso do programa “Zero perdas pós-colheita”, do PMA. Actualmente na sua segunda fase – recém-lançada e abrangendo as províncias de Tete, Manica, Zambézia e Nampula, durante o período de 2021-2023 – o programa está focado em intervenções de gestão de perdas pós-colheita baseadas nas cadeias de valor que se traduzem, fundamentalmente, na promoção de tecnologias de armazenamento melhoradas, mormente sacos e silos herméticos, e na melhoria do acesso aos mercados pelos agricultores.

“A ideia [do programa] é os produtores conseguirem conservar os seus produtos por mais tempo e poderem vender no período de escassez, quando o preço é elevado, e poderem ganhar muito mais, assim como poderem alimentar as suas famílias durante o período em que não há colheita”, explicou Adilson Mangueze, coordenador do projecto.
Trata-se de um programa que foi inicialmente testado em seis distritos da província de Tete, ao longo do período 2018-2020, apoiando 32.270 agricultores, reduzindo a sua taxa de perdas pós-colheita de 50 para 9% e aumentando a renda dos mesmos em até 35%. Resultados que, para os promotores da iniciativa, evidenciam a relevância e pertinência da adopção destas soluções no aumento da renda dos produtores.
Essencialmente, uma abordagem inovadora de cadeia de valor focada na expansão de tecnologias comprovadas aos produtores com a identificação e implementação de soluções baseadas no mercado: “Se a gente trabalha com as ligações de mercado a gente permite, naturalmente, que este excedente comercializável possa ser colocado no mercado a tempo útil para que os agricultores possam ter retorno”, frisou.
Identificadas as soluções e garantido o acesso aos mercados, é preciso assegurar que as mesmas cheguem aos produtores a preços comportáveis. Segundo os operadores do sector, tratando-se de soluções que ainda são na maioria importadas, o Governo pode desempenhar um papel fundamental na melhoria da acessibilidade das mesmas, através da concessão de benefícios fiscais.

“Nós queremos fazer que estas tecnologias estejam disponíveis, sejam acessíveis aos agricultores, perto de onde eles estão”, destacou Rui Brandão, CEO da AQI, para depois acrescentar que, “o mais importante neste momento para garantir que os sacos herméticos sejam competitivos e acessíveis e que eles estejam isentos de IVA”.(OE)
















