Preços do gás natural atingem novos recordes

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O preço do gás natural registou uma forte tendência de alta nas últimas semanas, levantando preocupações sobre a sustentabilidade das empresas dependentes da commodity, redução do consumo doméstico e tendências inflacionárias.

No mercado dos EUA, os futuros do gás natural (contratos padronizados de compra e venda) subiram para mais de 5 dólares por um milhão de unidades térmicas britânicas, um nível que não se regista desde fevereiro de 2014, 9% mais caro do que em 1 de Setembro. Enquanto que, no mercado europeu, os preços da commodity subiram para um máximo de 25 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas, o nível mais alto da última década.

Segundo informações divulgadas pela Reuters, cumulativamente, de janeiro a setembro do ano em curso, o gás registou um aumento dos preços na ordem dos 280% e 100% nos mercados europeu e norte-americano, respectivamente.

O aumento dos preços globais está fundamentalmente associado a quebra de oferta, num contexto de elevada procura do combustível para o aquecimento doméstico, à medida que as temperaturas começam a descer nos EUA e na Europa. Actualmente, as reservas de gás da Europa estão mais de 20% abaixo da média, enquanto que nos EUA estão em pelo menos 7% abaixo da respectiva média.

Mesmo antes da recente subida dos preços, a commodity já estava em escassez. Um inverno prolongado no hemisfério norte fez com que os países europeus baixassem as reservas, deixando as suas existências 25% abaixo da média histórica. Paralelamente, as perturbações das importações provenientes da Rússia e da Noruega, que fornecem quase metade do gás da Europa, dificultaram a reposição dos inventários.

A quebra do fornecimento e a consequente tendência de alta do preço do gás resulta de um miríade de factores, incluindo um inverno prolongado em 2020, tanto nos EUA como na Europa; preços baixos do gás e incerteza económica geral durante a pandemia que induziu muitas empresas à produção inativa; o furacão Ida em agosto, que temporariamente eliminou a perfuração de gás no Golfo do México, e; a produção de eletricidade abaixo da média a partir de barragens hidroelétricas nos parques eólicos ocidentais dos EUA e da Europa, o que forçou os operadores da rede a colmatar a lacuna com gás.

A persistir, a actual tendência dos preços ameaça não só a sustentabilidade das empresas dependentes da commodity, sobretudo o sector da electricidade, mas também o poder de compra dos consumidores, podendo exacerbar as preocupações sobre um aumento a curto prazo da inflação.

Sete fornecedores de eletricidade de retalho no Reino Unido já foram forçados a abandonar o negócio este ano por preços elevados de gás. Nos EUA, a fabricante de fertilizantes CF Industries Holdings, que utiliza o gás natural como ingrediente-chave, fechou duas fábricas no Reino Unido; uma insuficiência de fertilizantes poderia provocar o aumento dos preços dos produtos alimentares.

Estes e outros desenvolvimentos no mercado do gás têm suscitado debates sobre a pertinência de uma intervenção por parte dos governos para mitigar os efeitos da quebra no fornecimento da commodity.

Com efeito, a Grã-Bretanha está a considerar oferecer empréstimos apoiados pelo Estado a empresas de energia, depois de os grandes fornecedores terem pedido apoio para cobrir os custos de contratação de clientes de empresas que entraram em falência sob o impacto dos preços do gás.

No mesmo contexto, a França planeia pagamentos pontuais de 100 euros (118 dólares) a milhões de famílias para ajudar nas faturas de energia. O Governo da Espanha, por seu turno, surpreendeu o sector dos serviços públicos na semana passada ao redirecionar milhares de milhões de euros de lucros das empresas de energia para os consumidores e reduzindo o aumento do preço do gás.

As acções dos governos surgem num ambiente de incerteza sobre a tendência futura do mercado da commodity. Numa nota de investigação divulgada esta segunda-feira, 21/09, os analistas do Banco da América “Bank of America” disseram esperar que a produção de gás retome em resposta aos preços mais elevados, prevendo um recuo para 4 dólares/ milhão de unidades térmicas britânicas até ao final deste ano. Mas alertam que uma forte tempestade de inverno poderia facilmente desequilibrar o mercado mais uma vez.