
Seguro agrícola deve avançar
Numa altura em que cresce o debate sobre a oportunidade do “seguro agrícola”, condições e sustentabilidade, na perspectiva de consolidar o financiamento à agricultura, para os agentes do sector financeiro, não há dúvidas quanto ao papel do seguro agrícola como amenizador de prejuízos dos agricultores e demais intervenientes da cadeia de valor da agricultura, razão pela qual é lhe vista mérito, oportunidade e grande importância no desenvolvimento da agricultura de um país.
Trata-se, portanto, de um serviço que tem a maior relevância no contexto dos esforços para aumentar, melhorar e diversificar as fontes e os termos do financiamento à agricultura no nosso país. “Seria extremamente importante conseguirmos o seguro agrícola, sobretudo para o financiamento à agricultura, e em particular para as campanhas agrícolas”, destacou João Pinto, Gestor do Desk da Agricultura do BCI.
No nosso país a presença do Seguro Agrícola na estrutura do financiamento à actividades agrícolas é ainda inexpressivo, apesar do entendimento crescente da pertinência da sua integração na composição do financiamento às actividades e serviços afectos a agricultura, ou seja, à toda a extensão da cadeia de valor da agricultura.
Comentando sobre o papel do seguro agrícola na viabilização dos financiamentos a agricultura, João Pinto refere que o seguro pode minimizar o risco associado aos projectos do sector, tornando-os mais atractivos aos bancos. “Porque os riscos inerentes à actividade são bastante altos, sobretudo os climáticos e de outra natureza. E isso também proporciona alguma dificuldade de financiar com maior possibilidade de êxito das operações.”, explicou.
Entretanto, o estágio actual da economia parece não viabilizar, para já, a oferta deste produto financeiro conforme seus atributos, mas indicia a existência de um grande espaço por preencher no composto do financiamento agrícola e que representa, por isso, uma oportunidade para que este serviço ou produto mostre a sua relevância e cause o seu impacto.
Num contexto em que a produção agrícola nacional se encontra exposta a vários tipos de riscos fundamentais, entre os quais se incluem secas, inundações, pragas, e a volatilidade dos preços dos produtos agrícolas primários. O mercado de seguros emerge como um elemento-chave na redução do risco dos projectos do sector, tornando os projectos atractivos aos investidores.
É neste contexto que, ainda que de forma incipiente, os operadores do ramo segurador moçambicano, complementando a actividade dos bancos, vão fazendo chegar estes instrumentos aos agricultores. Pois, e conforme destacou João Pinto, “Ainda há muito caminho por percorrer para que o seguro possa ser estendido a várias actividades primárias do sector agrícola”.
O país enfrenta ainda alguns desafios na formulação de pacotes de financiamento atrelados ao seguro agrícola. “Não tem sido uma tarefa fácil por várias razões, uma delas é o custo de financiamento”, revelou Danilo Abdula, Senior Agribusiness Officer, explicando que “Se nós juntarmos o custo do seguro as taxas actuais de financiamento as taxas actuais de juro, muito provavelmente o mutuário não vai aderir ao seguro”.
Além do custo dos prémios, o estágio de desenvolvimento da indústria seguradora nacional, que apresenta um nível de aceitação de aproximadamente 1,5% do PIB, é apontado como um dos desafios na implementação deste mecanismo de financiamento. “Nós constatamos que a oferta do seguro não está muito divulgada por parte das seguradoras. É difícil nós percebemos realmente o que existe de seguro para o sector da agricultura”, explicou Abdula.
As seguradoras, por sua vez, apesar de reconhecerem o papel do seguro agrícola no financiamento, via mitigação do risco assumido pelas instituições financeiras, revelam que este mecanismo tem um papel limitado na viabilização do financiamento à agricultura, devido as baixas margens de lucro e ao elevado risco que o sector apresenta.
Problema de financiamento a agricultura não encontra solução nos bancos comerciais
“As taxas de juro que os bancos comerciais são de tal forma que não sei se seria viável na produção agrícola”, explicou Israel Muchena, Director-Geral da Hollard Agri Moçambique, acrescentando que “os produtores na actividade agrícola não tem aquele fluxo de fundos para conseguir amortizar a dívida como as outras actividades”.
Conforme explicou Muchena, o problema de financiamento à agricultura não encontra solução nos bancos comerciais, mas sim passa pela criação de instituições financeiras específicas para o apoio do sector. Outrossim, considera injusta a absorção do risco de incumprimento dos financiamentos à agricultura pelas seguradoras. “A questão não é se é possível transferir o risco de colateral para o mercado de seguros, mas é mesmo se o agricultor tem acesso ao financiamento que é virado a produção agrícola”, ajustou.
No mesmo diapasão, a ARKO Seguros, uma seguradora em ascensão no mercado nacional, afirma que apesar de considerar oportuna a introdução do seguro agrícola, a colaterização da agricultura por via deste instrumento está condicionada a definição de um modelo de desenvolvimento do sector.
“A forma de colateralização da agricultura e do esforço de desenvolvimento da agricultura com os seguros prende-se de tal maneira que depende da forma como se vai desenvolver a agricultura, a forma como os seguros agrícolas se vão estruturar”, explicou Miguel Navarro, CEO da ARKO Seguros.
“ Está a se caminhar para um modelo de desenvolvimento, mas ainda não está definido. E, portanto, quando estiver definido, aí sim poderá ser possível desenhar o produto de acordo com o modelo de desenvolvimento. Neste momento ainda é muito errático”, concluiu.
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