
Moçambique Aproxima-Se Do Limite Do Actual Modelo Económico, Alerta Egas Daniel
- Economista defende que o Estado, a banca e o sector privado precisam de romper um ciclo de dependências que se tornou insustentável, num contexto marcado por crescimento anémico, escassez de divisas e menor capacidade de financiamento da economia.
- Egas Daniel considera que Moçambique enfrenta os limites de um modelo económico excessivamente dependente do Estado e do sistema financeiro;
- Crescimento económico previsto para 2026 deverá situar-se abaixo do crescimento populacional, agravando desafios sociais e empresariais;
- Economista alerta para a reduzida eficácia da política monetária na dinamização do sector produtivo;
- Exposição excessiva da banca à dívida pública começa a gerar riscos para a estabilidade financeira;
- Reformas pró-negócios, maior flexibilidade cambial e atracção de investimento estrangeiro surgem como prioridades para relançar a economia.
O economista Egas Daniel considera que Moçambique entrou numa fase decisiva da sua trajectória económica, marcada pelo esgotamento gradual de mecanismos que durante anos sustentaram o financiamento do Estado e da própria economia. Na sua leitura, o país enfrenta hoje um conjunto de desafios simultâneos que vão desde a desaceleração do crescimento económico até à escassez de divisas, passando pelas limitações da política monetária e pelo enfraquecimento da capacidade do sector produtivo gerar riqueza e emprego.
Falando ao programa “Semanário Económico”, Daniel defendeu que a economia nacional permanece fortemente exposta aos choques internacionais devido à sua elevada dependência do comércio externo. Segundo o economista, a conjugação entre o aumento do proteccionismo global, as tensões geopolíticas no Médio Oriente e a revisão em baixa das perspectivas económicas mundiais está a afectar de forma particularmente severa economias emergentes e vulneráveis como a moçambicana.
Crescimento Abaixo Do Ritmo Demográfico Agrava Pressões Económicas
Um dos sinais mais preocupantes apontados pelo economista é a trajectória de crescimento da economia nacional.
Depois da contracção económica de 0,5% registada em 2025, as projecções mais recentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional apontam para um crescimento inferior a 1% em 2026, com uma recuperação apenas gradual nos anos subsequentes. Na avaliação de Egas Daniel, estes números estão não apenas abaixo do potencial da economia moçambicana, mas também abaixo da própria taxa de crescimento populacional.
As implicações são profundas. Uma economia que cresce abaixo da dinâmica demográfica enfrenta maiores dificuldades na criação de emprego, no aumento do rendimento médio das famílias e na redução da pobreza. Paralelamente, o ambiente torna-se menos atractivo para o investimento privado, sobretudo num contexto internacional cada vez mais competitivo na captação de capitais.
Política Monetária Perde Capacidade De Influenciar A Economia Real
Outro dos aspectos destacados pelo economista prende-se com a crescente desconexão entre a política monetária e o comportamento da economia real.
Apesar da redução significativa da taxa MIMO ao longo dos últimos meses, Egas Daniel entende que os efeitos esperados sobre o investimento produtivo não se materializaram. Segundo a sua análise, o crédito à economia tem mostrado uma resposta limitada à descida das taxas de juro, revelando uma fraca transmissão dos estímulos monetários para o tecido empresarial.
Mais preocupante ainda é o facto de uma parcela crescente do crédito bancário estar direccionada para o consumo das famílias e para necessidades de tesouraria, em detrimento do investimento produtivo capaz de expandir a capacidade de produção nacional. Para o economista, este comportamento constitui um sinal de fragilidade estrutural da economia.
Relação Entre Estado E Banca Aproxima-Se De Um Ponto De Saturação
Um dos momentos mais incisivos da entrevista ocorreu quando Egas Daniel abordou a relação entre o Estado e o sistema financeiro.
Na sua perspectiva, ao longo dos últimos anos consolidou-se um modelo em que a banca encontrou nos títulos do Tesouro uma aplicação confortável para os seus recursos, enquanto o Estado passou a depender crescentemente do mercado doméstico para financiar necessidades de liquidez e défices de tesouraria.
Esse modelo, argumenta, criou um ciclo de dependência mútua que está agora a revelar os seus limites. As dificuldades registadas pelo Estado no cumprimento atempado de algumas obrigações financeiras estão a gerar impactos directos nos balanços bancários, aumentando imparidades e pressionando os resultados das instituições financeiras.
Para o economista, a solução não passa por procurar novos mecanismos para prolongar esse ciclo, mas sim por reorientar recursos para o sector produtivo, reforçando a capacidade da economia gerar receitas, exportações e divisas.
Reformas E Ambiente De Negócios No Centro Da Solução
Questionado sobre as medidas prioritárias para estimular a economia, Egas Daniel mostrou-se céptico quanto à capacidade do Estado lançar novos pacotes de estímulo financeiro, tendo em conta as actuais restrições orçamentais.
Em contrapartida, defendeu reformas que aumentem a previsibilidade regulatória, simplifiquem processos administrativos e melhorem o ambiente de negócios. Segundo o economista, o país deve concentrar-se em criar condições para atrair e reter investimento privado, sobretudo investimento directo estrangeiro, capaz de injectar capital novo na economia.
Embora reconheça os sinais positivos emitidos ao mais alto nível político através da diplomacia económica e dos esforços de cooperação internacional, Daniel considera que continua a existir um défice de transmissão dessas intenções para o plano operacional, onde investidores e empresas efectivamente interagem com o Estado.
Energia Pode Assumir Papel De Sector Âncora Da Recuperação
Entre os sectores com maior potencial transformador, o economista destaca a energia.
Na sua opinião, Moçambique dispõe de vantagens comparativas significativas no domínio energético, desde os recursos hidroeléctricos ao gás natural e às energias renováveis. Num contexto global marcado por desafios energéticos crescentes, o país poderia utilizar este sector como plataforma para demonstrar capacidade de atracção, retenção e facilitação do investimento privado.
A agricultura e o turismo surgem igualmente como sectores capazes de complementar uma estratégia mais ampla de crescimento inclusivo e diversificação económica.
O Momento De Decisão Chegou
Ao longo da entrevista, Egas Daniel regressou várias vezes à mesma ideia central: o actual modelo económico está a aproximar-se do seu limite funcional.
Na sua leitura, o país ainda dispõe de margem para corrigir trajectórias, mas essa janela poderá não permanecer aberta por muito tempo. O desafio passa por interromper um ciclo de dependência entre Estado e sistema financeiro e substituí-lo por uma dinâmica assente na produção, investimento, exportações e geração sustentável de riqueza.
Para o economista, a questão já não é se o modelo precisa de mudar, mas sim com que rapidez e profundidade o país conseguirá implementar as reformas necessárias para assegurar uma trajectória de crescimento mais robusta e sustentável nos próximos anos.
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