
“Super” El Niño Pode Retirar Até 20 Mil Milhões De Dólares À Economia Africana
- Banco Africano de Desenvolvimento estima que o fenómeno poderá reduzir entre 1% e 2% o PIB das economias mais afectadas, pressionar alimentos, finanças públicas e bancos e intensificar deslocações populacionais. Para Moçambique, o alerta reforça a urgência de proteger agricultura, infra-estruturas e orçamento contra choques climáticos recorrentes.
Questões-Chave
- O AfDB estima perdas económicas agregadas entre 10 mil milhões e 20 mil milhões de dólares nos países africanos mais atingidos.
- As economias severamente afectadas poderão perder, em média, entre 1% e 2% do respectivo PIB.
- Agricultura, pescas, energia, transportes, abastecimento de água e estabilidade dos preços alimentares estão entre os sectores mais expostos.
- O financiamento necessário para adaptação em África poderá atingir 100 mil milhões de dólares nos próximos 12 meses, segundo o responsável climático do AfDB.
- A insuficiência de recursos pode obrigar governos a desviar verbas da educação, saúde e infra-estruturas para responder a emergências.
- Em Moçambique, onde a agricultura representa cerca de um quarto da economia e emprega aproximadamente três quartos da força de trabalho, um choque climático amplo pode transmitir-se rapidamente à produção, inflação e pobreza.
Aquecimento Do Pacífico Eleva Probabilidade De Um Evento Extremo
África poderá enfrentar perdas económicas combinadas entre 10 mil milhões e 20 mil milhões de dólares devido ao fortalecimento do fenómeno El Niño, que ameaça provocar secas, inundações, tempestades, perdas agrícolas e movimentos populacionais em várias regiões do continente.
A estimativa foi apresentada à Reuters por Anthony Nyong, director para as Alterações Climáticas e Crescimento Verde do Banco Africano de Desenvolvimento, que considera que os países mais severamente atingidos poderão registar uma redução média entre 1% e 2% do Produto Interno Bruto.
As projecções surgem num momento em que as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico equatorial estão a aumentar rapidamente. A Organização Meteorológica Mundial indicou, em Junho, uma probabilidade de 80% de ocorrência do El Niño entre Junho e Agosto de 2026, aumentando para níveis próximos ou superiores a 90% nos períodos subsequentes até Novembro.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos estimou, na sua actualização de Julho, uma probabilidade de 97% de o El Niño persistir até ao início da Primavera de 2027 no Hemisfério Norte. Para o trimestre Outubro–Dezembro de 2026, o organismo atribui uma probabilidade de 81% à formação de um evento classificado como “muito forte”.
A expressão “super El Niño”, utilizada nos mercados e na comunicação social, não corresponde a uma categoria meteorológica oficial. Tecnicamente, os serviços climáticos classificam os eventos como fracos, moderados, fortes ou muito fortes, de acordo com a intensidade e duração do aquecimento das águas do Pacífico.
Esta distinção é importante porque um El Niño muito forte aumenta a probabilidade de fenómenos extremos, mas não determina automaticamente o mesmo padrão climático em todos os países. Os impactos dependem da localização, da estação do ano, das condições oceânicas regionais e de outros sistemas atmosféricos.
Crescimento Africano Enfrenta Novo Risco Descendente
O Banco Africano de Desenvolvimento projectava, em Maio, um crescimento económico médio de 4,2% para África em 2026, após uma expansão de 4,4% em 2025, prevendo uma recuperação para 4,4% em 2027. Estas previsões foram elaboradas antes de os modelos climáticos passarem a apontar para a possibilidade de um El Niño muito forte.
O fenómeno introduz, por isso, um novo risco descendente para a actividade económica africana. Uma perda agregada entre 10 mil milhões e 20 mil milhões de dólares não significa que todos os países serão afectados de forma uniforme. Economias dependentes da agricultura de sequeiro, com menor capacidade orçamental e infra-estruturas frágeis, poderão sofrer proporcionalmente mais.
O impacto sobre o PIB deverá ocorrer através de vários canais. A redução das chuvas pode diminuir a produção agrícola e hidroeléctrica, enquanto precipitação excessiva e tempestades podem destruir estradas, pontes, sistemas de irrigação, habitações, escolas, hospitais e redes de telecomunicações.
As empresas enfrentam igualmente interrupções no fornecimento de matérias-primas, falhas de energia, dificuldades de transporte, aumento dos prémios de seguro e perda de mercados. Estes efeitos reduzem a produção e as receitas fiscais precisamente quando os governos precisam de aumentar as despesas de emergência.
O risco climático converte-se, deste modo, num risco macroeconómico. O choque começa na produção agrícola ou numa infra-estrutura danificada, mas pode terminar em inflação, deterioração orçamental, maior endividamento e redução do investimento público.
Agricultura Transmite Choque Aos Preços E Ao Emprego
A agricultura constitui um dos principais canais de transmissão do El Niño em África. A seca de 2023–2024 provocou quebras de colheitas na África Austral, enquanto chuvas intensas e inundações atingiram partes da África Oriental, contribuindo para perdas produtivas, subida dos preços alimentares e agravamento da insegurança alimentar.
Segundo Nyong, o preço do milho, alimento básico em vários países africanos, poderá duplicar nas áreas mais atingidas. A dimensão efectiva da subida dependerá das colheitas, dos stocks disponíveis, das importações, das restrições comerciais e da capacidade de os governos estabilizarem os mercados.
Um choque sobre o milho não afecta apenas consumidores. Pressiona também produtores de rações, avicultores, criadores de gado, comerciantes, transportadores e indústrias alimentares. A inflação agrícola pode, deste modo, propagar-se por diferentes segmentos da economia.
O AfDB estima que os agricultores africanos já poderão enfrentar perdas de rendimento próximas de 330 milhões de dólares durante o presente ano. A produtividade das pescas poderá igualmente diminuir entre 1% e 4%, devido ao aumento da temperatura das águas e à maior ocorrência de tempestades.
Estas perdas atingem particularmente as famílias de menor rendimento, que destinam uma proporção elevada das suas despesas à alimentação. Quando os preços sobem, essas famílias reduzem o consumo de outros bens, afectando pequenos negócios, comércio local e serviços.
Nas zonas rurais, a queda da produção pode ainda reduzir a procura de mão-de-obra sazonal, diminuir o rendimento dos agricultores e aumentar o incumprimento de créditos concedidos a produtores, comerciantes e empresas agro-industriais.
Bancos Podem Herdar Perdas Da Economia Real
O risco de um El Niño severo não termina nas explorações agrícolas ou nas infra-estruturas. Pode chegar aos balanços das instituições financeiras.
Quando uma empresa perde instalações, colheitas ou equipamento, a sua capacidade de pagar empréstimos diminui. O mesmo acontece com agricultores que contraíram crédito para sementes, fertilizantes, maquinaria ou comercialização.
Se o choque afectar simultaneamente um grande número de clientes, os bancos podem registar um aumento do crédito malparado. Instituições com forte concentração nos sectores agrícola, imobiliário, turístico ou de transportes tornam-se particularmente vulneráveis.
A deterioração da carteira bancária pode levar as instituições a aumentar provisões, restringir novos financiamentos e exigir garantias adicionais. Esta reacção reduz a disponibilidade de crédito num momento em que as empresas precisam de capital para recuperar e reconstruir.
Cria-se, assim, um ciclo adverso: o desastre reduz a actividade económica; a qualidade dos activos bancários deteriora-se; o crédito fica mais escasso; e a recuperação torna-se mais lenta.
A utilização de seguros agrícolas, garantias públicas, fundos de recuperação, linhas de liquidez e instrumentos de partilha de risco pode reduzir esta transmissão. Contudo, a cobertura de seguros climáticos permanece limitada em grande parte de África.
Finanças Públicas Entram Na “Armadilha Climática”
Anthony Nyong descreveu como “armadilha do financiamento climático” a situação em que países sem recursos suficientes para responder a catástrofes acabam por retirar verbas de programas de saúde, educação, estradas ou abastecimento de água.
A redistribuição emergencial do orçamento permite responder às necessidades imediatas, mas compromete investimentos que poderiam gerar crescimento e reduzir a vulnerabilidade futura. Os países reconstroem repetidamente os mesmos activos, sem conseguirem acumular capital público suficiente.
As receitas fiscais também tendem a diminuir depois de uma calamidade. Empresas produzem e vendem menos, trabalhadores perdem rendimento e importações essenciais podem beneficiar de isenções temporárias. Ao mesmo tempo, aumentam as despesas com assistência humanitária, reconstrução e protecção social.
Nos países com dívida pública elevada, a margem para financiar esta resposta é particularmente limitada. A contratação de novos empréstimos pode agravar os custos do serviço da dívida, enquanto atrasos na reconstrução prolongam a perda de actividade económica.
O Fundo Monetário Internacional considera que Moçambique continua altamente vulnerável a choques climáticos. Uma análise de sustentabilidade da dívida publicada em Fevereiro de 2026 indicou que um desastre de grande dimensão, com perdas equivalentes a 10% do PIB, agravaria significativamente os indicadores da dívida pública.
Necessidades De Adaptação Podem Atingir 100 Mil Milhões De Dólares
O responsável climático do AFDB estima que África poderá necessitar de até 100 mil milhões de dólares para adaptação nos próximos 12 meses, caso o El Niño alcance a intensidade prevista.
Antes do agravamento das previsões, as necessidades africanas eram estimadas em cerca de 50 mil milhões de dólares. O novo fenómeno poderá adicionar entre 30 mil milhões e 50 mil milhões de dólares, através de investimentos em sistemas de alerta, irrigação, infra-estruturas resilientes, protecção costeira, seguros e assistência às populações afectadas.
A dimensão do desafio africano integra uma insuficiência global mais ampla. O Programa das Nações Unidas para o Ambiente calcula que os países em desenvolvimento precisarão de 310 mil milhões a 365 mil milhões de dólares anuais para adaptação até 2035. Contudo, os fluxos internacionais públicos para adaptação totalizaram apenas 26 mil milhões de dólares em 2023, abaixo dos 28 mil milhões registados no ano anterior.
Esta diferença mostra que os países vulneráveis enfrentam desastres crescentes sem receberem financiamento proporcional aos riscos.
O AfDB deverá realizar, em Setembro, uma avaliação interna dos potenciais impactos do El Niño sobre os seus projectos novos e em implementação. O banco admite reestruturar operações, ajustar investimentos e apoiar os países no acesso ao Fundo Verde para o Clima, Fundo de Adaptação, Fundos de Investimento Climático e novos mecanismos de perdas e danos.
Migração Pode Aumentar Pressão Sobre Cidades E Regiões Frágeis
A degradação das condições agrícolas e a escassez de água podem desencadear deslocações populacionais significativas.
O AFDB identifica Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Somália, Mali, Burundi e Nigéria entre os países que poderão enfrentar impactos particularmente severos. Em várias destas economias, o risco climático sobrepõe-se a conflitos, fragilidade institucional e insegurança alimentar.
Quando famílias perdem colheitas, animais e acesso à água, a migração transforma-se numa estratégia de sobrevivência. Parte da população desloca-se para cidades, países vizinhos ou regiões com melhores condições de produção.
Estes movimentos aumentam a pressão sobre habitação, transportes, escolas, hospitais e mercados de trabalho urbanos. Nas regiões frágeis, a competição por água, terras agrícolas e pastagens pode ainda intensificar tensões entre comunidades.
A migração climática não deve, por isso, ser tratada apenas como uma questão humanitária. É também um problema económico, fiscal, territorial e de segurança.
Moçambique Concentra Vários Canais De Exposição
Moçambique surge no alerta do AFDB como exemplo de como a recuperação de um desastre climático pode prolongar-se durante vários anos. O Ciclone Idai, que atingiu o Centro do País em 2019, destruiu infra-estruturas, áreas agrícolas, habitações e serviços públicos, exigindo programas prolongados de reconstrução e recuperação.
A exposição nacional é ampliada pelo peso da agricultura. Segundo o FMI, o sector representa aproximadamente um quarto do PIB e assegura o sustento ou emprego de cerca de três quartos da força de trabalho, sendo dominado por pequenos produtores com acesso limitado a irrigação, financiamento, insumos e tecnologias de adaptação.
Uma seca ampla pode reduzir a produção de alimentos e culturas de rendimento, pressionar preços e diminuir o rendimento rural. Chuvas excessivas e ciclones, por sua vez, podem interromper corredores logísticos, danificar estradas e afectar o fornecimento de bens entre zonas produtoras e centros de consumo.
O Banco Mundial estima que os danos climáticos acumulados sobre a rede rodoviária moçambicana poderão representar cerca de 1,1% do PIB. A deterioração das estradas aumenta os custos de transporte, reduz o acesso a mercados e amplia as perdas pós-colheita.
Para as empresas, a preparação deve incluir diversificação de fornecedores, avaliação da exposição física dos activos, planos alternativos de transporte, seguros adequados, reservas de liquidez e sistemas de continuidade operacional.
Para o Estado, as prioridades incluem sistemas de aviso prévio, protecção de infra-estruturas críticas, irrigação, sementes resistentes, armazenamento, protecção social adaptativa e integração dos riscos climáticos no planeamento e no orçamento público.
Prevenção Custa Menos Do Que Reconstrução Recorrente
O alerta sobre perdas de até 20 mil milhões de dólares coloca o El Niño no domínio da política económica e não apenas da meteorologia.
A resposta mais eficiente começa antes da calamidade. Investimentos em drenagem, estradas resilientes, barragens, irrigação, informação climática e sistemas de alerta podem exigir recursos elevados no presente, mas evitam perdas maiores no futuro.
O mesmo princípio aplica-se ao sector privado. Empresas que incorporam riscos climáticos nas suas decisões de investimento têm maior probabilidade de manter operações, proteger trabalhadores e preservar relações com clientes e financiadores.
Para África, o possível “super” El Niño deverá testar a capacidade de transformar previsões meteorológicas em decisões económicas antecipadas. Para Moçambique, a experiência acumulada com Idai, Kenneth, Freddy, Chido, Jude e outros fenómenos mostra que a resiliência precisa de ser incorporada na localização dos investimentos, na qualidade das infra-estruturas e na arquitectura das finanças públicas.
O custo estimado pelo AfDB constitui um sinal antecipado. A dimensão final das perdas dependerá da intensidade do fenómeno, mas também da rapidez com que governos, empresas, bancos e parceiros de desenvolvimento converterem informação climática em prevenção, financiamento e protecção efectiva da economia.
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