
1,2 Mil Milhões De Jovens Para 400 Milhões De Empregos: Mundo Enfrenta Lacuna De 800 Milhões De Oportunidades
- A entrada sem precedentes de jovens no mercado de trabalho dos países em desenvolvimento poderá transformar a demografia numa fonte de crescimento, consumo e estabilidade. Sem infra-estruturas, competências, empresas capazes de crescer e capital produtivo, o mesmo processo poderá ampliar informalidade, migração, desigualdade e fragilidade. Em Moçambique, cerca de 500 mil pessoas entram anualmente na força de trabalho, enquanto a economia gera apenas cerca de 30 mil empregos formais.
Questões-Chave
- Cerca de 1,2 mil milhões de jovens deverão atingir a idade activa nos países em desenvolvimento durante os próximos 10 a 15 anos.
- Mantida a trajectória actual, estas economias poderão criar apenas aproximadamente 400 milhões de postos de trabalho, deixando uma lacuna potencial próxima de 800 milhões.
- O Banco Mundial organiza a sua estratégia de emprego em três pilares: infra-estruturas humanas e físicas, ambiente favorável às empresas e apoio ao crescimento das firmas.
- Infra-estruturas e energia, agronegócio, saúde primária, turismo e indústria transformadora de valor acrescentado são identificados como sectores com elevado potencial de emprego.
- A Organização Internacional do Trabalho estima que 2,1 mil milhões de trabalhadores, ou 57,7% do total mundial, se encontram na informalidade.
- Em Moçambique, entram anualmente cerca de 500 mil novos trabalhadores, mas são criados apenas aproximadamente 30 mil empregos formais.
- Energia, agronegócio e turismo poderão gerar mais oportunidades, desde que os grandes investimentos estabeleçam ligações com empresas nacionais, competências locais e cadeias produtivas internas.
A Demografia Avança Mesmo Quando A Agenda Política Muda
Guerras, crises financeiras, tensões comerciais e novas tecnologias tendem a dominar as agendas políticas e os mercados porque produzem efeitos imediatos. A demografia, pelo contrário, transforma as economias de forma gradual, acumulativa e frequentemente menos visível.
Ajay Banga, presidente do Grupo Banco Mundial, considera que o emprego constitui uma destas forças estruturais que podem ser ignoradas durante algum tempo, mas não podem ser evitadas.
Num artigo publicado pelo Banco Mundial, Banga estima que 1,2 mil milhões de jovens nos países em desenvolvimento deverão atingir a idade activa durante os próximos 10 a 15 anos. Mantidas as tendências actuais, as respectivas economias deverão criar apenas cerca de 400 milhões de postos de trabalho no mesmo período.
A diferença potencial aproxima-se de 800 milhões de oportunidades de trabalho.
O número não deve ser interpretado como uma previsão automática de 800 milhões de desempregados. Parte dos novos trabalhadores poderá permanecer na agricultura familiar, no auto-emprego, na economia informal, em actividades domésticas ou fora da população economicamente activa.
A dimensão da lacuna indica, porém, que centenas de milhões de pessoas poderão não encontrar empregos produtivos, estáveis e suficientemente remunerados para sustentar uma melhoria duradoura das condições de vida.
Emprego Torna-Se Uma Questão Económica E De Estabilidade
A falta de trabalho é habitualmente tratada como um problema social. A escala projectada transforma-a também numa questão económica, fiscal, empresarial e de estabilidade.
Sem emprego produtivo, o aumento da população activa não se converte automaticamente em dividendo demográfico. Pode ampliar a concorrência por rendimentos reduzidos, aumentar a informalidade, limitar a base tributária e exercer maior pressão sobre habitação, transportes, saúde e educação.
Ajay Banga considera que a ausência de oportunidades pode igualmente contribuir para migração irregular, conflitos, insegurança e perda de confiança nas instituições. Em sentido contrário, empregos que gerem rendimento e dignidade podem fortalecer a procura interna, incentivar a formação de empresas e estabilizar comunidades.
A Organização Internacional do Trabalho apresenta um quadro que confirma a insuficiência das oportunidades disponíveis. No seu relatório Employment and Social Trends 2026, a organização estima que a lacuna global de emprego — que inclui desempregados e pessoas disponíveis para trabalhar, mas que não procuram activamente emprego — deverá atingir cerca de 408 milhões de pessoas em 2026.
A OIT calcula igualmente que 2,1 mil milhões de trabalhadores, correspondentes a 57,7% do emprego mundial, operam na informalidade. A existência de trabalho não significa, portanto, que exista rendimento adequado, protecção social, produtividade ou estabilidade contratual.
Juventude Enfrenta Emprego Escasso E De Qualidade Reduzida
Os jovens encontram dificuldades particulares na transição da escola para o mercado de trabalho.
A OIT estima que a taxa mundial de desemprego juvenil atingiu 12,4% em 2025. No mesmo período, 20% dos jovens não estavam empregados, a estudar ou em formação profissional, o que corresponde a aproximadamente 257 milhões de pessoas.
A exclusão prolongada durante os primeiros anos da vida profissional pode produzir efeitos que permanecem durante décadas. Um jovem que não consegue adquirir experiência, competências ou redes profissionais tende a enfrentar menores rendimentos e oportunidades de progressão ao longo da carreira.
A evolução tecnológica acrescenta uma nova dimensão. A inteligência artificial poderá aumentar a produtividade e criar novas actividades, mas também reduzir determinadas funções de entrada, administrativas e repetitivas, tradicionalmente utilizadas pelos jovens para iniciarem percursos profissionais.
O desafio já não consiste apenas em criar empregos suficientes. Consiste em criar trabalho compatível com a transformação tecnológica, com possibilidade de aprendizagem e com capacidade para elevar a produtividade.
Primeira Condição: Infra-Estruturas Que Permitam Produzir
A estratégia apresentada por Ajay Banga assenta num primeiro pilar constituído pelas infra-estruturas físicas e humanas.
Electricidade fiável, estradas, caminhos-de-ferro, portos, conectividade digital, água, educação e saúde não são apenas serviços sociais. Constituem condições de produção.
Uma empresa não cria postos de trabalho em escala quando enfrenta interrupções permanentes de energia, custos logísticos elevados, acesso limitado a mercados ou dificuldades para encontrar trabalhadores com as competências necessárias.
O Banco Mundial sustenta que a infra-estrutura deve ser entendida de forma integrada: transportes e energia precisam de ser acompanhados por uma força de trabalho saudável, formada e capaz de responder às necessidades das empresas.
Banga cita o exemplo de um centro de competências em Bhubaneswar, na Índia, apoiado pelo Governo e pelo sector privado, que forma perto de 38 mil pessoas por ano. Como os cursos são definidos em função da procura empresarial, grande parte dos graduados consegue emprego ou cria a sua própria actividade.
O elemento central não é apenas a quantidade de formandos. É o alinhamento entre competências e procura efectiva.
Centros de formação que produzem qualificações sem ligação aos sectores em expansão podem melhorar certificados sem melhorar a empregabilidade.
Formação Deve Começar Na Procura Das Empresas
A política de competências é frequentemente construída a partir da oferta: instituições seleccionam cursos, formam estudantes e esperam que o mercado os absorva.
A abordagem proposta pelo Banco Mundial parte do sentido inverso. Primeiro identifica as actividades com possibilidade de crescimento, os investimentos previstos, as funções que serão necessárias e as competências exigidas. Depois organiza a formação.
Esta orientação reduz o desajustamento entre ensino e trabalho, mas exige informação regular sobre as necessidades das empresas.
Empregadores devem participar na elaboração dos currículos, disponibilizar estágios, fornecer equipamentos, certificar competências e indicar alterações tecnológicas que possam tornar determinados cursos obsoletos.
A formação também precisa de combinar competências técnicas com gestão, literacia financeira, comunicação, resolução de problemas e utilização de ferramentas digitais.
Nem todos os jovens serão trabalhadores por conta de outrem. Muitos precisarão de criar pequenos negócios, sobretudo em economias onde o sector empresarial formal possui capacidade limitada de absorção.
Segundo Pilar: Regras Que Reduzam O Custo De Investir
O segundo pilar da estratégia consiste na criação de um ambiente favorável às empresas.
Ajay Banga sustenta que regras claras, regulação previsível e procedimentos administrativos funcionais reduzem a incerteza e aumentam a confiança necessária para investir, contratar e expandir operações.
O emprego é criado quando uma empresa decide abrir uma unidade, aumentar a produção, entrar num novo mercado ou contratar competências adicionais.
Cada decisão depende de factores como licenciamento, fiscalidade, acesso a terrenos, aplicação de contratos, custos de energia, logística, financiamento, estabilidade das regras e previsibilidade das autoridades.
Um ambiente de negócios favorável não significa ausência de regulação. Significa que as exigências são compreensíveis, proporcionais, aplicadas de forma consistente e cumpridas dentro de prazos conhecidos.
Procedimentos longos, decisões administrativas contraditórias e alterações frequentes das regras elevam o custo de investir, favorecem empresas com maior capacidade de influência e penalizam pequenos operadores.
Pequenas Empresas Criam Emprego, Mas Permanecem Pequenas
O terceiro pilar concentra-se na capacidade das empresas crescerem.
Micro, pequenas e médias empresas geram uma parte substancial do emprego nos países em desenvolvimento, mas muitas permanecem durante anos com a mesma dimensão, baixa produtividade e reduzido acesso a mercados.
A criação de empresas não é suficiente quando a maioria não consegue ultrapassar a fase de sobrevivência.
Ajay Banga defende a utilização combinada de capital, crédito, garantias e seguros contra riscos políticos para permitir que empresas invistam, exportem e expandam a força de trabalho.
Como exemplo, aponta uma garantia de financiamento comercial ao Banco do Brasil que deverá mobilizar aproximadamente 700 milhões de dólares em financiamento acessível para pequenas empresas brasileiras, com particular incidência na agricultura.
O mecanismo procura responder a uma limitação central: as oportunidades podem existir, mas empresas sem garantias, historial bancário ou activos suficientes não conseguem mobilizar capital para aproveitá-las.
As instituições de desenvolvimento podem reduzir parte desse risco, mas o financiamento precisa de ser acompanhado por gestão, contabilidade, acesso a mercados e capacidade de cumprir contratos.
Cinco Sectores Concentram Potencial De Emprego
O Grupo Banco Mundial identifica cinco áreas com capacidade recorrente para gerar emprego directo e indirecto em escala: infra-estruturas e energia, agronegócio, cuidados primários de saúde, turismo e indústria transformadora de valor acrescentado.
As infra-estruturas criam emprego durante a construção e podem reduzir custos para toda a economia depois de concluídas.
O agronegócio liga produção agrícola, processamento, armazenamento, transporte, embalagem, comercialização e exportação, permitindo aumentar o valor gerado fora das explorações.
A saúde primária possui elevada intensidade de trabalho e melhora simultaneamente a produtividade da população.
O turismo mobiliza alojamento, restauração, transportes, cultura, agricultura, comércio e serviços locais.
A indústria transformadora permite transferir trabalhadores de actividades de baixa produtividade para processos com maior incorporação tecnológica, especialização e valor acrescentado.
A selecção não significa que outros sectores sejam irrelevantes. Reflecte uma tentativa de concentrar recursos limitados em actividades que combinam procura crescente, encadeamentos económicos e capacidade de absorver trabalhadores com diferentes níveis de qualificação.
Crescimento Sem Ligações Locais Pode Criar Poucos Empregos
A dimensão do investimento não corresponde necessariamente à dimensão do emprego.
Projectos extractivos, plataformas energéticas e grandes infra-estruturas podem mobilizar milhares de milhões de dólares, mas são frequentemente intensivos em capital e tecnologia.
A fase de construção pode criar muitos postos temporários. Depois da entrada em operação, a quantidade de trabalhadores tende a diminuir, enquanto aumenta a necessidade de competências especializadas.
O efeito económico torna-se mais amplo quando o projecto compra bens e serviços localmente, utiliza fornecedores nacionais, estimula processamento, cria infra-estruturas partilhadas e transfere conhecimento.
Sem estas ligações, um país pode apresentar crescimento acelerado do produto interno bruto e, simultaneamente, uma criação limitada de trabalho produtivo.
A política de emprego deve, portanto, medir mais do que o valor do investimento anunciado. Deve acompanhar postos criados, duração dos contratos, salários, composição nacional da mão-de-obra, compras locais, empresas integradas e competências transferidas.
Moçambique Recebe 500 Mil Novos Trabalhadores Por Ano
O desafio mundial apresentado por Ajay Banga possui uma expressão particularmente intensa em Moçambique.
Um documento do Banco Mundial publicado em Março de 2026 estima que cerca de 500 mil pessoas entram anualmente na força de trabalho moçambicana, enquanto a economia gera apenas aproximadamente 30 mil empregos formais por ano.
Isso significa que a maior parte dos novos trabalhadores precisa de encontrar rendimento na agricultura familiar, no auto-emprego, em pequenos negócios informais ou em actividades com produtividade reduzida.
O mesmo documento calcula que cerca de 70% dos trabalhadores se concentram na agricultura de baixa produtividade e que o trabalho por conta própria ou familiar não remunerado continua a representar uma parcela significativa do emprego.
A diferença entre 500 mil entradas e 30 mil empregos formais não deve conduzir à conclusão de que todos os restantes trabalhadores estão desempregados. Mostra que a economia formal absorve apenas uma pequena parte do crescimento anual da força de trabalho.
A dimensão do problema exige uma política que combine emprego assalariado, aumento da produtividade agrícola, formalização gradual, empreendedorismo e crescimento das empresas existentes.
Estrutura Extractiva Limita A Absorção De Trabalho
O Banco Mundial considera que o modelo de crescimento moçambicano, historicamente sustentado por grandes projectos extractivos, tem apresentado ligações limitadas às empresas domésticas e às cadeias de valor locais.
Esta estrutura contribui para exportações, investimento e receitas públicas, mas não gera automaticamente postos de trabalho suficientes para acompanhar o crescimento da população activa.
O problema não está na existência dos grandes projectos. Está na dificuldade de converter a sua procura, infra-estrutura, tecnologia e capacidade financeira numa base empresarial nacional mais ampla.
O sector do gás poderá criar oportunidades na construção, logística, manutenção, segurança, alimentação, alojamento, transporte e serviços técnicos. A fase operacional será menos intensiva em trabalho e exigirá qualificações mais elevadas.
Sem preparação antecipada, muitas empresas e trabalhadores nacionais poderão permanecer concentrados nas actividades de menor valor.
Energia, Agronegócio E Turismo Ganham Prioridade Nacional
O novo Quadro de Parceria do Grupo Banco Mundial para Moçambique, aprovado para o período de 2026 a 2031, coloca a criação de emprego no centro da estratégia de intervenção.
O programa concentra-se na energia, no agronegócio e no turismo, acompanhados pelo desenvolvimento de competências, estabilidade macrofiscal, corredores económicos e redução da fragilidade.
O Banco Mundial prevê mobilizar cerca de 2,5 mil milhões de dólares durante o período, utilizando financiamento, garantias, instrumentos combinados e assistência técnica para atrair investimento privado.
Os três sectores correspondem a vantagens já existentes no país.
Moçambique possui recursos energéticos, terras agrícolas, uma extensa costa, biodiversidade, corredores regionais e proximidade de mercados da África Austral e do Oceano Índico.
A transformação destas vantagens em emprego requer infra-estruturas funcionais, empresas capazes de fornecer, trabalhadores qualificados e regras que permitam investir com previsibilidade.
Agronegócio Pode Absorver Trabalhadores Fora Dos Grandes Centros
A agricultura emprega a maioria da população moçambicana, mas apresenta produtividade reduzida, fraca mecanização, perdas pós-colheita e integração limitada com processamento e distribuição.
A criação de emprego não exige necessariamente retirar imediatamente todos os trabalhadores da agricultura. Pode começar por elevar o valor produzido por trabalhador e desenvolver actividades associadas.
Armazenamento, processamento de alimentos, produção de sementes, irrigação, mecanização, transporte rural, embalagens, certificação, frio e comercialização podem criar trabalho nas zonas de produção.
O agronegócio também permite estabelecer ligações entre pequenos produtores, médias empresas e grandes mercados.
Quando agricultores produzem apenas para consumo ou vendem matéria-prima sem processamento, a maior parte do valor é criada noutros segmentos ou países.
Uma política de emprego orientada para o agronegócio deve acompanhar produtividade, rendimento agrícola, empresas rurais, volume processado internamente e acesso estável aos mercados.
Turismo Distribui Emprego Por Diversas Cadeias
O turismo apresenta potencial para combinar património natural, cultura, costa, gastronomia e áreas de conservação.
Ao contrário de sectores altamente automatizados, o turismo mantém uma elevada procura por trabalho em alojamento, restauração, transporte, promoção, manutenção, guias, artesanato e entretenimento.
O benefício territorial depende da capacidade de integrar fornecedores locais.
Um estabelecimento turístico que importa alimentos, mobiliário e serviços cria menos encadeamentos do que outro que compra a agricultores, pescadores, transportadores e pequenas empresas nacionais.
Segurança, conectividade aérea, estradas, saneamento, competências e promoção do destino permanecem condições importantes para aumentar o número de visitantes e o tempo de permanência.
Emprego Deve Ser Métrica Central Dos Investimentos Públicos
A resposta à lacuna laboral exige que o emprego seja tratado como resultado económico mensurável, e não apenas como efeito esperado do crescimento.
Projectos públicos e incentivos ao investimento podem ser avaliados segundo o custo por posto criado, a duração do emprego, o nível salarial, a produtividade, a formação e a capacidade de estimular outras empresas.
Esta abordagem não significa seleccionar sempre projectos com maior número imediato de trabalhadores. Algumas infra-estruturas criam poucos empregos directos, mas reduzem custos e permitem que centenas de empresas contratem posteriormente.
A avaliação precisa, por isso, de distinguir emprego directo, indirecto e induzido.
Também deve separar os postos temporários da construção dos empregos permanentes da operação.
Sem esta medição, investimentos de grande visibilidade podem receber prioridade mesmo quando produzem ligações reduzidas à economia nacional.
Sector Privado Precisa De Mercados, Não Apenas De Crédito
O financiamento é uma limitação importante para as pequenas empresas, mas não constitui a única.
Uma firma pode receber crédito e continuar sem crescer caso não tenha clientes, contratos, tecnologia, gestão ou acesso a cadeias de fornecimento.
Programas empresariais precisam de combinar capital com desenvolvimento de fornecedores, compras públicas, acesso a informação de mercado, certificação, digitalização e formação de gestores.
Grandes empresas e o Estado podem desempenhar um papel ao dividir contratos em pacotes acessíveis, divulgar planos de compras antecipadamente e apoiar fornecedores no cumprimento de padrões.
O objectivo não deve ser proteger indefinidamente empresas sem capacidade competitiva. Deve ser permitir que adquiram escala, produtividade e condições para competir.
O Dividendo Demográfico Não É Automático
Uma população jovem pode ampliar a força de trabalho, o consumo, a poupança e o empreendedorismo. Estes ganhos constituem o chamado dividendo demográfico.
A OIT adverte, porém, que o crescimento da população activa só melhora as condições de vida quando é acompanhado por produtividade e trabalho de qualidade. Sem estas condições, o potencial demográfico não se materializa. (researchrepository.ilo.org)
Ajay Banga sustenta que, até 2050, mais de 85% da população mundial deverá viver nos países em desenvolvimento. Estes países concentrarão não apenas trabalhadores, mas também consumidores, produtores e parte crescente dos mercados globais.
O investimento em emprego não constitui, assim, apenas assistência aos países mais pobres.
Economias em desenvolvimento com rendimentos crescentes tornam-se mercados para exportações, destinos de investimento e componentes das cadeias internacionais de abastecimento.
Países desenvolvidos também beneficiam de parceiros comerciais mais fortes, menor instabilidade e redução das pressões associadas à migração irregular.
Moçambique Precisa De Uma Estratégia De Absorção Produtiva
A escala da entrada anual de trabalhadores torna insuficientes programas isolados de estágios, formação ou financiamento.
Moçambique necessita de uma estratégia de absorção produtiva que ligue demografia, educação, infra-estruturas, política industrial, agricultura, conteúdo local e desenvolvimento empresarial.
A prioridade não pode limitar-se a preparar jovens para empregos que ainda não existem. Deve incluir a criação das empresas, mercados e investimentos capazes de os contratar.
Também não pode concentrar-se exclusivamente no emprego formal urbano. A transformação terá de alcançar pequenos produtores, microempresas, trabalhadores por conta própria e actividades rurais.
A política pública deve procurar elevar progressivamente a produtividade e o rendimento destes segmentos, ao mesmo tempo que amplia o número de empresas formais com capacidade de crescer.
A Janela Para Agir Está Aberta Antes Da Crise
A lacuna entre 1,2 mil milhões de novos trabalhadores e 400 milhões de empregos representa uma trajectória, não um destino inevitável.
Os jovens ainda estão a entrar nos sistemas educativos, de formação e de trabalho. Os investimentos em energia, transportes, saúde, agricultura e indústria ainda podem alterar a capacidade de absorção das economias.
Ajay Banga argumenta que as forças demográficas serão determinantes independentemente das decisões políticas. A escolha consiste em orientá-las para crescimento e estabilidade ou esperar que se manifestem através de desemprego, informalidade e fragilidade.
Para Moçambique, essa escolha já está presente em cada ano em que 500 mil novos trabalhadores procuram oportunidades.
Criar empregos suficientes exigirá mais do que crescimento económico. Exigirá crescimento com empresas nacionais, produtividade, competências, ligações locais e sectores capazes de incorporar trabalhadores em escala.
A demografia oferece ao país uma força produtiva potencial. A economia precisa de construir os instrumentos que a convertam em rendimento, dignidade e transformação estrutural.
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