
Moçambique conta actualmente com uma frota de três mil carros convertidos para o sistema de gás natural veicular concentradas fundamentalmente nas cidades de Maputo e Matola.
A expansão do projecto, segundo o Director-geral da Autogás, João das Neves, depende de dois factores fundamentais: a disponibilidade dos consumidores, por um lado, e a capacidade de mobilização de fundos que permitam expandir a rede postos de abastecimento, por outro.
O constante aumento de demanda por fontes de energia iniciada pela Revolução Industrial na metade do século XVIII, aliado ao decorrente impacto ambiental e a possibilidade de escassez de recursos tornaram evidente a necessidade de busca por fontes de energia alternativas e menos poluentes.

João das Neves – Empresário
De acordo com Daniel Valiente, no seu estudo sobre análise de viabilidade técnica, económica, ambiental e metodológica da instalação original da fábrica de sistema de conversão para uso gás natural em veículos, o mercado do petróleo e seus derivados, representando a maior fonte de energia não renovável do planeta vem sofrendo constantes impactos de fontes políticas e especulações de preços, reforçando o interesse de diversos segmentos de indústria e mercado em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias com maior viabilidade de geração de energia.
Neste contexto, o gás natural surge como alternativa apropriada aos combustíveis já existentes. Em aplicações veiculares, o combustível representa alternativa ao Diesel, Gasolina e Álcool, através da instalação de Sistema de Conversão para uso de gás natural.
Nos últimos anos, o parque automóvel moçambicano cresceu numa proporção geométrica. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2017, indicam que o parque automóvel compreendia cerca de 735.954 mil viaturas, enquanto que um ano antes, em 2016, foi de 698.814 mil representando um crescimento em cerca de 5,31%.
Entretanto, o número de carros convertidos não cresceu na mesma proporcionalidade, sendo que actualmente o país conta com apenas três mil viaturas já convertidas para o sistema de gás natural, representando ainda uma pequena percentagem de veículos.
A frota moçambicana de veículos movidos a gás natural é composta, actualmente, por veículos particulares, táxis, veículos pesados de transporte de mercadorias e semi-colectivos de transporte de passageiros, e as cidades de Maputo e Matola, obviamente, concentram as maiores frotas de veículos convertidos do país.
Uma das entidades que se tem dedicado neste negócio é a Autogás.
A empresa tem se destacado no desenvolvimento e promoção do uso deste combustível alternativo, oferecendo uma opção para a substituição dos combustíveis convencionais importados.
O projecto iniciou em 2008 e ganhou consistência ao longo dos últimos anos. Entretanto, em termos de expansão geográfica para os demais pontos do país, de acordo com das Neves, está dependente de dois factores fundamentais: o incremento dos consumidores para rapidamente atingirem o consumo do gás disponibilizado nas infraestruturas
da rede de distribuição e a capacidade de mobilização de fundos que permitam expandir a rede criando maior confiança do público para fazer uso do gás natural.
Neste momento, a Autogás conta com uma rede de seis postos de abastecimentos, estimados em cerca de 360 milhões de meticais, distribuídos pela cidade de Maputo e Matola, no entanto, muitas vezes mostra-se insuficiente para responder a demanda por este produto.
A despeito disso, o Director-geral da Autogás referiu que um dos grandes entraves que têm limitado a expansão da rede de postos de abastecimentos de gás tem a ver com os custos que são elevados.
“Ninguém vai investir 60 milhões de meticais na colocação de um novo posto de abastecimento se não tiver garantia que vai ter consumidores para este posto”, disse das Neves, retumbante. Segundo ele, “não havendo um incremento imediato no número de consumidores será difícil justificar o investimento, principalmente quando estamos a trabalhar com taxas de juro na ordem de 24% ao ano”, e acrescenta que caso haja disponibilidade dos bancos comerciais em financiar a curto prazo, seria um investimento a recuperar numa média de seis anos no máximo, o que não é possível em virtude da nossa situação económica.
Entretanto, com vista a incrementar a demanda e o consumo de gás natural veicular, a Autogás está a criar parcerias estratégicas. “Estamos a trabalhar com parceiros como o Ministério da Terra, Ambiente e desenvolvimento
Rural, FNDS, Agência Metropolitana de Transporte e outros no sentido de conseguirmos priorizar a importação de autocarros a gás”, revelou das Neves.
Trata-se de um projecto com objectivo, entre outros, de estimular de forma sustentável o consumo do gás natural nas viaturas da rede de transporte público.
Custos da versão são altos, mas os benefícios são maiores
Um dos principais constrangimentos que tem dificultado a expansão do sistema de gás natural veicular tem que ver com o custo da conversão aplicado no momento da transformação de um veículo. Todavia, este facto dispensado pelo director daquela instituição, sustentando que é possível converter a viatura sem desembolsar valores de imediato, através da assinatura de um contrato entre as partes.
“A partir do momento que a pessoa toma a decisão de que vale apena converter porque vai poupar muito dinheiro mas não tem no momento 50 ou 60 mil meticais para pagar a conversão, nós accionamos vários mecanismos que possibilita conversão da viatura mesmo sem ter que pagar nada de entrada”, esclareceu o nosso interlocutor.
Das Neves, clarifica que o cliente paga em prestações mensais o custo da conversão, sendo que nos mês seguinte, após a transformação, o consumidor poderá poupar à metade daquilo que consumia já que o preço do gás natural veicular é (quase) a metade do preço do gasóleo.
De referir que o processo de conversão é realizado por oficinas parceiras da Autogás. Estes centros de conversão tem como principais tarefas fazer a divulgação, pré-inspecção, cotação, venda, montagem do kit e assistência pós-venda.
Oficinas de Conversão

Oficina de conversão de Gás Veicular
Para que o Gás Natural Veicular seja usado em um veículo com motor de combustão interna é necessário, primeiro, à adaptação de um sistema de conversão que possibilita o veículo funcionar com o combustível original e o gás natural.
Foi para perceber melhor este mecanismo que o O.Económico dirigiu-se a duas oficinas, nomeadamente, a EMABEP e Auto Sococ.
O Director Executivo da Auto Sococ, Casimiro Machava, revelou que nos últimos anos o número de viaturas convertidas tem aumentado de forma significativa, entretanto existem constrangimentos no que tange a componente preço: “o custo ainda é elevado para maior parte dos consumidores”, lamentou Machava. “Convertemos uma média de oito a 10 viaturas por mês”, mas “já houve momentos menos bons, que em média convertíamos entre 3 e 4 viaturas”, acrescentou. Entre 2018 e 2019, só nesta oficina, foram convertidas cerca de 230 viaturas.
Por sua vez, o proprietário da oficina EMABEP, Pedro Cherimes, explica que o processo de conversão de uma viatura depende muito do modelo da viatura e o tipo de combustível que utiliza. No caso das viaturas com tecnologia de ponta, a conversão poderá ser mais complexa e cara em relação a viaturas com tecnologia menos avançada.
O processo de conversão de uma viatura, segundo o nosso entrevistado, no primeiro momento passa pela fixação do cilindro de gás natural na viatura. Esta acção “é feita com o barquete, apertado no carro e depois por cima vem o cilindro.
Depois disso furamos o carro para introduzir o tubo de alta pressão, e vai por baixo do carro até ao capô” descreveu Cherimes.

Pedro Cherimes – Proprietário da oficina EMABEP
Há dois instrumentos fundamentais para o processo de conversão: o redutor de pressão e o amolador.
Segundo Cherimes, o primeiro instrumento serve para reduzir a pressão reduzindo dos 200 barres para 6 barres, que é a pressão de trabalho. A função do amolador, continua Cherimes, é de cortar a injeção e enviar a mensagem de alerta ao computador do carro.
Desengane-se quem julgar que um determinado carro convertido para o sistema a gás para de funcionar com gasóleo. Muito pelo contrário, alivia Cherimes, ambos combustíveis podem coabitar.
Cherimes salientou que no caso de um consumidor quiser converter o seu carro, por exemplo, uma viatura da marca Land Cruiser V8, 4.7, que usa tecnologia avançada, só a parte electrónica custará perto de 80 mil meticais. E depois deve inserir dois cilindros que custam 40 mil, sem contar com a mão de obra, também avaliada em 40 mil, o que totaliza 170 mil meticais.
No caso de um carro mais barato, foi usado o modelo Toyota Alex como hipótese, fica muito carro porque só a parte electrónica custa 54 mil meticais.
Depois, como se não bastasse, tem que incluir um cilindro de 40 mil meticais, somando ao valor do mecânico totaliza 120 mil meticais.
Entretanto, Pedro Cherimes refere que a maior parte das viaturas que circulam no país são importadas com alto nível de desgaste e isso tem sido um grande constrangimento no momento da conversão das viaturas.
Vantagens do uso do gás veicular
O uso do gás natural veicular apresenta inúmeras vantagens, tanto ambientais assim como económicas.
No que respeita ao ambiente: emite de uma forma significativa menos gases poluentes para a atmosfera (comparado com a gasolina e o gasóleo) e na questão económica menciona-se a redução nos gastos com abastecimento em torno de 50% a 70% e, para melhorar, aumenta a vida útil do motor como também reduz significativamente custos com lubrificantes e manutenção.
Veja a peça em vídeo a seguir:


















