
Inteligência Artificial Poderá Acrescentar US$ 324 Milhões à Economia Moçambicana, Mas País Está Entre os Menos Preparados da Commonwealth
Novo Índice Ayre coloca Moçambique na 44.ª posição entre 56 países, com 38,9 pontos em 100, abaixo do limiar de preparação de 53 pontos. Estudo identifica limitações no acesso à electricidade, Internet e competências digitais como obstáculos ao aproveitamento económico da inteligência artificial, num país onde 80,5% dos jovens empregados vivem na pobreza.
- Potencial económico: Inteligência artificial poderá elevar o nível do PIB moçambicano em US$ 324 milhões ao fim de dez anos, num cenário moderado;
- Posicionamento internacional: Moçambique ocupa o 44.º lugar entre 56 países da Commonwealth, com 38,9 pontos numa escala de 100;
- Infra-estruturas digitais: Apenas 36,9% da população dispõe de acesso à electricidade e cerca de 35% declara utilizar a Internet, segundo os indicadores reunidos pelo estudo;
- Emprego e produtividade: Aproximadamente 80,5% dos jovens empregados vivem na pobreza, enquanto apenas 0,3% dos trabalhadores dos 15 aos 24 anos se encontram nas categorias profissionais mais expostas à IA generativa;
- Segurança digital: Cerca de 79,3% dos jovens utilizadores da Internet manifestaram elevada preocupação com o roubo de dados pessoais, segundo um inquérito de 2021;
- Transformação económica: Estudo recomenda investimentos em infra-estruturas, educação digital, empreendedorismo, tecnologias adaptadas às necessidades locais e protecção dos utilizadores.
Inteligência Artificial Abre Potencial de Crescimento de US$ 324 Milhões
A inteligência artificial (IA) poderá elevar o nível do Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique em aproximadamente US$ 324 milhões ao fim de dez anos, segundo um novo estudo internacional que avalia a preparação dos jovens para beneficiar das transformações económicas associadas às tecnologias emergentes.
A estimativa integra o Índice Ayre de Preparação dos Jovens da Commonwealth para a Inteligência Artificial 2026, divulgado nesta quinta-feira, 5 de Novembro, durante a Reunião dos Chefes de Governo da Commonwealth, em Antígua e Barbuda.
Elaborado pelo Ayre Think Tank, centro de investigação fundado pelo empresário e filantropo Calvin Ayre, o estudo analisa as condições que poderão permitir a cerca de 732 milhões de jovens, distribuídos pelos 56 países da Commonwealth, beneficiar das oportunidades de emprego, empreendedorismo e produtividade associadas à inteligência artificial.
No caso de Moçambique, os investigadores estimam que o impacto económico poderá variar entre US$ 156 milhões, num cenário conservador, e US$ 491 milhões, num cenário optimista, situando-se em US$ 324 milhões na hipótese intermédia.
As projecções resultam da aplicação de cenários económicos desenvolvidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) aos valores nacionais do PIB utilizados pelos investigadores.
Importa, contudo, distinguir a natureza destes resultados: os valores representam possíveis aumentos do nível do PIB no final de um período de dez anos, não correspondendo a ganhos anuais, receitas acumuladas ao longo da década ou previsões específicas produzidas pelo FMI para Moçambique.
A concretização desses benefícios está associada à capacidade de adopção tecnológica, à disponibilidade de infra-estruturas digitais e ao desenvolvimento das competências necessárias à utilização produtiva da inteligência artificial.
Moçambique Ocupa 44.ª Posição Entre 56 Países
Apesar do potencial identificado, Moçambique apresenta um dos níveis mais baixos de preparação para a inteligência artificial no conjunto dos países analisados.
O Índice Ayre coloca o País na 44.ª posição entre 56 membros da Commonwealth, com uma pontuação de 38,9 numa escala de zero a 100.
O resultado situa-se abaixo do limiar de preparação de 53 pontos definido pelos investigadores, alcançado por apenas 15 dos 56 países avaliados.
A classificação evidencia diferenças relevantes entre economias quanto ao acesso à tecnologia, educação, competências digitais, condições de emprego e mecanismos de protecção dos utilizadores.
Singapura lidera o índice, com 77,6 pontos, seguida por Malta, com 75,0, e Austrália, com 71,0.
Entre os países africanos, destacam-se as Maurícias, na oitava posição mundial, com 64,4 pontos, a África do Sul, em 13.º lugar, com 56,8, e a Nigéria, na 15.ª posição, com 54,5 pontos.
Moçambique encontra-se igualmente abaixo de várias economias da região, incluindo a Zâmbia, o Quénia e a Tanzânia.
Preparação dos Jovens Para a IA — Países Seleccionados
| País | Pontuação (0–100) |
|---|---|
| Singapura | 77,6 |
| Malta | 75,0 |
| Austrália | 71,0 |
| Maurícias | 64,4 |
| África do Sul | 56,8 |
| Nigéria | 54,5 |
| Moçambique | 38,9 |
Fonte: Índice Ayre 2026. Limiar de preparação definido pelo estudo: 53 pontos em 100.
A diferença entre Moçambique e os países mais bem posicionados reflecte limitações estruturais que condicionam a utilização das tecnologias digitais por uma parcela significativa da população jovem.
O índice não mede directamente as competências individuais de cada jovem, mas sim as condições económicas, educativas, tecnológicas e institucionais associadas à preparação para a inteligência artificial.
Acesso à Electricidade e Internet Restringe Participação na Economia Digital
Entre os principais obstáculos identificados encontram-se as limitações de acesso à electricidade e à conectividade.
Segundo os indicadores utilizados pelo Ayre Think Tank, apenas 36,9% da população moçambicana tem acesso à electricidade, enquanto cerca de 35% declarou utilizar a Internet.
O estudo indica igualmente que aproximadamente metade dos jovens possui um telemóvel.
Estas condições representam limitações à utilização regular de ferramentas digitais, particularmente para jovens residentes em zonas com menor cobertura de infra-estruturas e famílias com reduzida capacidade financeira.
O custo dos dados móveis relativamente ao rendimento dos agregados familiares constitui outro factor identificado pelos investigadores.
A utilização produtiva da inteligência artificial exige acesso relativamente regular a dispositivos, conectividade e energia, condições que continuam desigualmente distribuídas.
A ausência destes recursos pode limitar a adopção de soluções tecnológicas na educação, nos serviços, na gestão empresarial e nas actividades produtivas.
O estudo sugere, por isso, que as estratégias nacionais de inteligência artificial sejam acompanhadas por investimentos na melhoria do acesso às tecnologias fundamentais.
A expansão da conectividade e da electrificação pode criar condições para a utilização de ferramentas digitais por um maior número de empresas, trabalhadores e estudantes.
Pobreza Entre Jovens Trabalhadores Limita Benefícios Económicos da Tecnologia
Um dos resultados mais relevantes da investigação relaciona-se com as condições económicas da juventude empregada.
Os dados analisados pelo Ayre Think Tank indicam que 80,5% dos jovens moçambicanos empregados vivem na pobreza, num contexto de elevada informalidade e baixos níveis de rendimento.
Este indicador demonstra que a existência de ocupação económica não assegura necessariamente condições adequadas de rendimento e bem-estar.
A situação coloca a produtividade laboral entre os principais desafios associados à introdução de novas tecnologias.
O estudo considera que, para economias como a moçambicana, uma das oportunidades mais imediatas da inteligência artificial poderá estar na melhoria da produtividade dos trabalhadores, no desenvolvimento das pequenas empresas e na expansão de actividades económicas com maior capacidade de geração de rendimento.
A utilização de ferramentas digitais na organização de negócios, prestação de serviços, gestão de informação e acesso aos mercados constitui uma possibilidade identificada na análise, embora a sua concretização dependa das condições de acesso e das competências disponíveis.
A presença dos jovens nas ocupações mais expostas à inteligência artificial generativa é ainda reduzida.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) analisados pelos investigadores, apenas 0,3% dos trabalhadores moçambicanos entre os 15 e os 24 anos se encontram nas duas categorias profissionais mais susceptíveis de transformação directa pela IA generativa.
Moçambique partilha com a Serra Leoa a percentagem conjunta mais baixa registada nessa comparação.
Este resultado sugere que os efeitos da inteligência artificial sobre o emprego poderão manifestar-se de formas diferentes das observadas em economias com maior concentração de trabalhadores em profissões administrativas, técnicas e digitais.
A questão central para o mercado laboral moçambicano poderá estar, numa primeira fase, na capacidade de utilizar a tecnologia para melhorar a produtividade de actividades existentes e ampliar as oportunidades de geração de rendimento.
Protecção dos Dados Pessoais Constitui Preocupação Central da Juventude
O estudo identifica igualmente limitações relacionadas com a segurança digital e a confiança dos utilizadores.
Um inquérito internacional realizado em 2021 concluiu que 79,3% dos utilizadores moçambicanos da Internet com idades entre 15 e 29 anos estavam muito preocupados com a possibilidade de roubo dos seus dados pessoais durante a utilização da Internet ou das redes sociais.
A percentagem foi a mais elevada entre os 27 países da Commonwealth com dados comparáveis nesse levantamento.
No pilar de direitos, segurança e participação, Moçambique obteve apenas 1,8 pontos numa escala de dez.
O resultado evidencia a importância atribuída pelos investigadores à existência de mecanismos de protecção digital, transparência e capacidade de participação dos cidadãos nas decisões relacionadas com sistemas automatizados.
A expansão da inteligência artificial introduz novas questões relacionadas com a utilização de dados pessoais, a segurança das plataformas e a responsabilidade pelas decisões produzidas por sistemas tecnológicos.
O Ayre Think Tank recomenda, neste contexto, o desenvolvimento de salvaguardas que permitam aos utilizadores compreender e questionar decisões automatizadas.
A protecção dos direitos digitais é apresentada como uma componente necessária para a participação segura e inclusiva na economia da inteligência artificial.
Empreendedorismo Juvenil e Educação Digital Integram Respostas Nacionais
O estudo reconhece iniciativas recentes desenvolvidas em Moçambique para ampliar as oportunidades económicas associadas às tecnologias emergentes.
Em Outubro de 2026, o Governo inaugurou uma incubadora de empreendedorismo juvenil em Nampula, dando continuidade à instalação de centros semelhantes em Maputo e Pemba.
Segundo a informação reunida pelos investigadores, estas iniciativas procuram apoiar jovens na transformação de ideias de negócio em actividades empresariais sustentáveis.
No mesmo mês, o Ministério da Educação e Cultura anunciou o MAZA IA, iniciativa de educação em inteligência artificial desenvolvida pela MOZEDU e pela Vodacom Moçambique, destinada a apoiar alunos e professores.
As iniciativas representam intervenções dirigidas à formação de competências e ao desenvolvimento do empreendedorismo, mas o relatório assinala que a sua eficácia está associada à disponibilidade de electricidade, Internet e oportunidades de aplicação prática dos conhecimentos adquiridos.
A relação entre formação, emprego e empreendedorismo constitui uma das prioridades identificadas pelos investigadores.
A existência de programas de formação digital poderá ampliar o número de jovens preparados para utilizar ferramentas de inteligência artificial, mas o aproveitamento económico dessa formação exige oportunidades empresariais e profissionais compatíveis.
Estudo Recomenda Cinco Prioridades Para Aproveitar Potencial da IA
O Livro Branco identifica cinco áreas prioritárias para melhorar a preparação dos jovens da Commonwealth para a inteligência artificial.
A primeira relaciona-se com o acesso económico e fiável à tecnologia, incluindo electricidade, conectividade e dispositivos digitais.
A segunda consiste no desenvolvimento de competências práticas através dos sistemas de educação e formação.
A terceira privilegia a ligação entre formação, emprego e empreendedorismo, permitindo que as competências adquiridas possam ser utilizadas em actividades económicas.
A quarta propõe o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial adaptadas às línguas e necessidades locais, enquanto a quinta destaca os mecanismos de protecção dos utilizadores e a possibilidade de contestar decisões automatizadas.
Para o fundador do Ayre Think Tank, Calvin Ayre, a transformação tecnológica deverá criar oportunidades para jovens de economias com diferentes níveis de desenvolvimento.
“A IA vai mudar a forma como trabalhamos, fazemos negócios e criamos riqueza”, afirmou.
O responsável considerou que o aproveitamento dessas oportunidades exige investimentos em competências e condições que permitam aos jovens desenvolver empresas, encontrar emprego ou criar actividades económicas próprias.
“Esta não é uma corrida que só os países maiores ou mais ricos podem vencer”, declarou, sublinhando que o estudo procura apoiar os governos na identificação das áreas em que são necessárias intervenções.
Participação dos Jovens Deve Incluir Criação e Desenvolvimento de Tecnologia
Outro dos argumentos apresentados pelo estudo relaciona-se com a capacidade dos jovens de participar no desenvolvimento das próprias soluções de inteligência artificial.
O pró-vice-chanceler e director do Campus de Five Islands da Universidade das Índias Ocidentais, professor C. Justin Robinson, considerou que a formação tecnológica deve permitir uma participação activa na criação e adaptação das ferramentas digitais.
“Temos de garantir que a próxima geração poderá fazer mais do que simplesmente consumir produtos de IA criados noutros lugares”, afirmou.
Segundo Robinson, o acesso à tecnologia deverá ser acompanhado por autonomia, capacidade de inovação e participação na definição das regras que orientam a utilização dos sistemas de inteligência artificial.
A abordagem destaca a importância da formação avançada, da investigação aplicada e do desenvolvimento de soluções adaptadas às realidades económicas e sociais de cada país.
Para economias com uma população jovem numerosa, como Moçambique, o desenvolvimento de capacidades tecnológicas nacionais constitui uma das dimensões identificadas pelos investigadores para ampliar as oportunidades de participação na economia digital.
Potencial Económico Exige Investimentos em Infra-Estruturas e Capital Humano
O Índice Ayre apresenta uma avaliação comparativa das condições que influenciam a preparação dos jovens para a inteligência artificial, combinando indicadores de acesso à tecnologia, educação, emprego, empreendedorismo e direitos digitais.
A investigação analisou 1.128 fontes e desenvolveu um modelo com oito pilares, 39 subpilares e 111 indicadores.
Contudo, a disponibilidade de informação comparável permitiu calcular a classificação com base em sete pilares e 102 indicadores potencialmente pontuáveis.
No caso de Moçambique, foram utilizados 53 indicadores com valores disponíveis ou estimativas admitidas pela metodologia.
Esta limitação deve ser considerada na interpretação dos resultados, uma vez que as classificações reflectem igualmente diferenças na disponibilidade de informação entre os países.
O estudo atribui a Moçambique um Índice de Lacunas de Dados de 58,1 pontos, indicador separado da classificação de preparação e que sinaliza insuficiências de informação estatística.
Quanto ao potencial económico, as estimativas de US$ 156 milhões a US$ 491 milhões representam cenários ilustrativos de aumento do nível do PIB ao fim de dez anos.
Não constituem uma previsão de crescimento garantido nem permitem determinar os benefícios que seriam directamente apropriados pelos jovens.
A análise aponta, contudo, para uma oportunidade económica associada à adopção produtiva da inteligência artificial, particularmente na melhoria da eficiência empresarial, das competências profissionais e da capacidade de inovação.
Com aproximadamente 9,7 milhões de jovens entre os 15 e os 29 anos, Moçambique dispõe de uma população potencialmente relevante para a expansão da utilização de tecnologias digitais.
O aproveitamento económico desse potencial estará associado à evolução das infra-estruturas, à qualidade da formação, à criação de oportunidades empresariais e à disponibilidade de mecanismos adequados de protecção e segurança digital.
















