
Reuniões do FMI e Banco Mundial sob domínio da crise tarifária: nova era de incerteza económica e fractura institucional
- Escalada proteccionista dos Estados Unidos empurra países para negociações bilaterais, fragiliza instituições multilaterais e aprofunda riscos para economias em desenvolvimento;
- Temas como dívida soberana, financiamento climático e apoio à Ucrânia foram relegados para segundo plano;
- Tarifa de 25% imposta pelos EUA a parceiros como Japão e Coreia do Sul despoleta corrida diplomática por isenções;
- FMI revê em baixa as previsões globais, citando a volatilidade comercial como principal risco à estabilidade;
- Apoio norte-americano ao FMI e Banco Mundial é colocado em causa pelas novas directrizes políticas de Trump;
- Delegações emergentes temem agravamento do serviço da dívida e exclusão das cadeias de valor globais.
As reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, iniciadas esta semana em Washington, são marcadas por um cenário inédito: o colapso temporário da tradicional agenda multilateral em prol de uma vaga de negociações bilaterais para contornar os efeitos devastadores das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Sob a liderança do Presidente Donald Trump, regressado ao poder em Janeiro, a política comercial norte-americana ressurge com força, atingindo aliados estratégicos e agravando as fragilidades das economias em desenvolvimento.
Tarifas eclipsam prioridades globais
Tradicionalmente, as reuniões de Primavera do FMI e do Banco Mundial concentram-se na promoção da estabilidade macroeconómica global, com forte ênfase em temas como dívida dos países pobres, financiamento climático, e resposta a crises humanitárias ou geopolíticas, como o conflito na Ucrânia. Contudo, este ano, esses temas foram relegados para segundo plano, substituídos por uma corrida diplomática para conter os danos económicos das tarifas unilaterais aplicadas por Washington.
Segundo o economista Josh Lipsky, do Atlantic Council, “as guerras comerciais e os encontros bilaterais tornaram-se a essência destas reuniões, esvaziando a força coordenadora que, no passado, caracterizou estas instituições em momentos de crise global.”
A estratégia de Trump e o papel de Bessent
O novo Secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, emerge como o principal actor desta nova fase. Nomeado por Trump, Bessent carrega a tarefa dupla de liderar as negociações tarifárias bilaterais e, simultaneamente, responder às crescentes dúvidas sobre o comprometimento dos EUA com as instituições financeiras multilaterais.
Sob a sua condução, os Estados Unidos estão a aplicar tarifas de até 25% a produtos de aliados como o Japão e a Coreia do Sul, gerando fricções diplomáticas e empurrando as delegações para conversas de bastidores. Tóquio e Seul já formalizaram encontros com Bessent para tentar garantir excepções ou moratórias, num momento em que as exportações estão sob forte ameaça.
Impacto sobre as previsões económicas globais
O FMI já indicou que as novas tarifas estão a agravar as perspectivas económicas. A Directora-Geral, Kristalina Georgieva, antecipou uma “revisão em baixa das projecções de crescimento”, referindo-se à incerteza comercial como um dos principais factores de instabilidade. Embora rejeite o termo “recessão”, Georgieva alerta que a percepção negativa dos mercados e a queda na confiança dos investidores podem desacelerar significativamente a economia real.
A desvalorização dos títulos do Tesouro norte-americano, impulsionada pela retirada de investidores internacionais, levanta ainda dúvidas sobre o estatuto de “porto seguro” do dólar e das obrigações dos EUA, ameaçando a própria estrutura de financiamento global.
Multilateralismo em crise
O ambiente institucional que sustenta a cooperação económica global também está sob escrutínio. Parte da ala conservadora do Partido Republicano tem defendido, através do Project 2025, a retirada dos Estados Unidos do FMI e do Banco Mundial, num movimento que minaria os alicerces do sistema multilateral estabelecido no pós-guerra.
Em resposta, três ex-funcionários do Tesouro norte-americano publicaram um artigo na imprensa especializada defendendo que o FMI é “uma ferramenta de influência geoeconómica a custo quase nulo para os EUA” e alertando que qualquer retirada abriria espaço à China para moldar a governação financeira global.
Desafios para os países em desenvolvimento
O reposicionamento dos EUA e a instabilidade comercial têm implicações profundas para os países de baixo e médio rendimento. Além da pressão sobre a dívida externa e da limitação do espaço fiscal, há o risco de exclusão dos fluxos de comércio global e da desvalorização dos seus activos financeiros.
Ajay Banga, Presidente do Banco Mundial, reforçou que a instituição continuará a apoiar essas economias, mas reconheceu que a contribuição de 4 mil milhões de dólares prometida pelos EUA permanece incerta. A nova orientação do Banco, mais aberta a projectos de gás e energia nuclear, reflecte um esforço para alinhar-se com as prioridades da administração Trump, ainda que isso represente um recuo face ao foco exclusivo em renováveis.As reuniões de Primavera de 2025 do FMI e do Banco Mundial sinalizam uma ruptura simbólica e operacional com o modelo de governação económica internacional baseado na confiança, coordenação e multilateralismo. Num mundo fragmentado por interesses nacionais, onde até os pilares da ordem económica liberal são postos em causa, as economias em desenvolvimento são, mais uma vez, as mais vulneráveis.
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