
Ouro Atinge Máximo De Sete Semanas Com Esperança De Reabertura De Hormuz
- Metal precioso avança pela quarta sessão consecutiva, apoiado pela queda do dólar e dos rendimentos do Tesouro norte-americano, enquanto os mercados reavaliam o risco de inflação energética e a trajectória dos juros nos Estados Unidos
- O ouro à vista subiu 0,5%, para 4.265,22 dólares por onça, atingindo o nível mais elevado desde 18 de Junho;
- As expectativas de aumento dos juros norte-americanos em Setembro recuaram de 67% para 55% em dois dias;
- Um possível acordo entre o Irão e Omã poderá reabrir o Estreito de Hormuz, mas permanecem divergências sobre controlo, inspecções e cobrança de taxas;
- O mercado aguarda os dados oficiais do emprego norte-americano, que serão divulgados esta sexta-feira;
- A superação consistente da média móvel de 200 dias poderá abrir espaço para uma recuperação mais ampla do ouro.
O ouro atingiu, esta quinta-feira, 6 de Agosto, o seu valor mais elevado em sete semanas, impulsionado pela queda do dólar, pelo recuo dos rendimentos das obrigações do Tesouro norte-americano e pelo crescente optimismo em torno de uma eventual reabertura do Estreito de Hormuz.
O ouro à vista valorizou 0,5%, para 4.265,22 dólares por onça, depois de alcançar o nível mais alto desde 18 de Junho. Os futuros do ouro nos Estados Unidos também subiram 0,5%, para 4.324,60 dólares. Na sessão anterior, o metal registara a maior valorização diária desde Fevereiro.
O movimento confirma uma alteração importante na leitura dos mercados: o ouro está a beneficiar menos da procura tradicional por activos de refúgio e mais da expectativa de que uma solução diplomática para o conflito entre os Estados Unidos e o Irão possa reduzir os preços do petróleo, moderar a inflação e limitar a necessidade de novos aumentos das taxas de juro.
Menor Risco Energético Alivia Expectativas De Inflação
A eventual reabertura do Estreito de Hormuz poderá permitir a normalização gradual das exportações de petróleo e gás do Golfo, reduzindo o prémio de risco incorporado nos preços internacionais da energia.
Preços mais baixos do petróleo tenderiam a moderar a inflação, particularmente nos países importadores de energia, diminuindo a pressão sobre os bancos centrais para manterem políticas monetárias mais restritivas.
Tony Sycamore, analista de mercados da IG, explicou à Reuters que a recente subida do ouro reflecte a expectativa de que uma solução diplomática no Médio Oriente esteja mais próxima. Segundo o analista, a consequente descida dos preços do petróleo reduziria a necessidade de aumentos adicionais dos juros, criando condições favoráveis ao metal precioso.
Este mecanismo ajuda a explicar um aparente paradoxo: apesar de ser tradicionalmente considerado um activo de protecção em períodos de guerra, o ouro acumulou uma queda de 19% desde o início do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, em 28 de Fevereiro.
O receio de que a interrupção dos fluxos energéticos provocasse uma nova vaga de inflação levou os investidores a anteciparem taxas de juro mais elevadas durante mais tempo. Esse cenário tornou as obrigações e outros activos remunerados relativamente mais atractivos do que o ouro, que não paga juros nem dividendos.
Queda Dos Juros Reduz Custo De Oportunidade Do Ouro
Os rendimentos das obrigações norte-americanas a dez anos recuaram durante a sessão, ao mesmo tempo que o índice do dólar perdeu terreno.
A combinação favorece o ouro por duas vias. Por um lado, juros mais baixos reduzem o custo de oportunidade de deter um activo que não gera rendimento. Por outro, a depreciação do dólar torna o metal mais barato para compradores que operam noutras moedas.
As expectativas implícitas no mercado para um aumento das taxas de juro norte-americanas em Setembro diminuíram para 55%, contra 67% dois dias antes. Essa mudança mostra que os investidores começaram a atribuir maior probabilidade a um cenário de moderação da inflação e enfraquecimento do mercado de trabalho.
O World Gold Council já havia identificado o dólar, os juros reais, a incerteza geopolítica e os fluxos de investimento como alguns dos principais determinantes do comportamento do ouro em 2026. A instituição considera que uma economia mais fraca, acompanhada por juros mais baixos e por um dólar menos valorizado, tenderia a beneficiar o metal, enquanto um cenário de crescimento mais forte, inflação persistente e subida dos rendimentos das obrigações poderia provocar uma correcção
Acordo Sobre Hormuz Continua Longe De Estar Fechado
A expectativa que actualmente sustenta os mercados ainda não corresponde a um acordo definitivo.
A proposta em discussão entre o Irão e Omã atribuiria a Teerão controlo sobre os navios que entram no Golfo através do Estreito de Hormuz. Seria uma concessão significativa, uma vez que os Estados Unidos têm defendido que não aceitariam o controlo iraniano sobre uma das rotas mais importantes do comércio mundial de energia.
Persistem divergências sobre o controlo dos navios que deixam o Golfo, a supervisão das inspecções e a eventual cobrança de taxas. Fontes ouvidas pela Reuters indicaram que o Irão pretende cobrar entre 5% e 7% do valor das cargas transportadas, enquanto Omã discute uma taxa próxima de 3%. Washington defende que não sejam cobradas quaisquer taxas.
A prudência também decorre da experiência recente. Um memorando alcançado em Junho permitiu um cessar-fogo temporário e uma flexibilização do bloqueio naval, mas o entendimento desmoronou-se em cerca de três semanas, depois de falharem os compromissos relativos à segurança dos navios e ao alívio das sanções.
Por essa razão, a estabilidade dos preços dependerá de sinais concretos: aumento regular do número de navios em circulação, redução dos prémios dos seguros contra riscos de guerra e retoma consistente do transporte de petróleo, gás natural liquefeito e fertilizantes.
Caso as negociações voltem a fracassar, os preços do petróleo poderão recuperar rapidamente, reactivando os receios de inflação e pressionando novamente as expectativas de juros — um cenário potencialmente desfavorável ao ouro.
Média Móvel De 200 Dias Torna-Se Referência Técnica
O ouro completou quatro sessões consecutivas de valorização, recuperando de um período marcado por movimentos irregulares e quedas acentuadas. A evolução recente aproximou o preço da média móvel de 200 dias, um indicador amplamente utilizado pelos investidores para avaliar a direcção das tendências de médio e longo prazo.
Tony Sycamore, analista de mercados da IG, considera que uma ruptura consistente acima dessa referência técnica poderá criar condições para uma recuperação em direcção aos 5.000 dólares por onça.
Esse cenário, contudo, permanece condicionado pela evolução das taxas de juro, do dólar, dos preços do petróleo e das negociações em torno da reabertura do Estreito de Hormuz. A aproximação à média móvel de 200 dias deve, por isso, ser interpretada como um sinal técnico relevante, mas não como garantia de uma valorização contínua.
Na versão consolidada, serão igualmente retiradas todas as demais referências directas a páginas, gráficos, imagens ou à disposição visual do ficheiro. As informações relevantes serão incorporadas directamente na narrativa jornalística.
Emprego Norte-Americano Será O Próximo Catalisador
A atenção dos investidores desloca-se agora para o relatório oficial do emprego nos Estados Unidos, cuja publicação está marcada para sexta-feira, 7 de Agosto.
O relatório da ADP mostrou que o sector privado norte-americano criou apenas 44 mil postos de trabalho em Julho, abaixo dos 75 mil esperados pelos economistas e dos 95 mil registados em Junho.
O Bureau of Labor Statistics confirmou que os dados oficiais do emprego de Julho serão publicados às 08h30, hora de Washington.
Um resultado abaixo das expectativas poderá intensificar os sinais de abrandamento económico, reduzir as probabilidades de aumento dos juros e prolongar a recuperação do ouro. Em sentido contrário, uma criação de emprego mais forte poderá renovar os receios de inflação salarial e devolver força ao dólar e aos rendimentos das obrigações.
Platina E Paládio Também Avançam
Nos restantes metais preciosos, a prata recuou 0,1%, para 62,02 dólares por onça.
A platina subiu 1,2%, para 1.755,18 dólares, depois de atingir o nível mais elevado desde Junho. O paládio avançou 0,8%, para 1.374,33 dólares, completando a terceira sessão consecutiva de ganhos.
O Mercado Está A Negociar A Inflação, Não Apenas A Guerra
A valorização do ouro, num momento em que aumentam as esperanças de uma solução diplomática, demonstra que o metal não responde mecanicamente ao agravamento ou à redução dos riscos geopolíticos.
O factor decisivo está na forma como esses acontecimentos afectam o petróleo, a inflação, os juros e o dólar. Uma guerra que interrompa o fornecimento energético pode prejudicar o ouro caso provoque inflação e taxas de juro mais elevadas. Uma solução diplomática, mesmo reduzindo a procura imediata por activos de refúgio, pode favorecer o metal ao baixar os rendimentos das obrigações e enfraquecer o dólar.
A subida para o máximo de sete semanas representa, assim, uma reavaliação das condições monetárias globais. Para que o movimento se transforme numa tendência mais duradoura, será necessário que a diplomacia produza resultados verificáveis e que os dados económicos norte-americanos confirmem uma moderação suficiente para conter novas subidas dos juros.
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