
África Subsaariana Exportou 28,8 Milhões De Toneladas De LNG E Aumentou Oferta Em 12%
- Nigéria manteve quase metade das exportações regionais, Angola operou próximo da sua capacidade máxima e Moçambique consolidou-se como terceiro maior fornecedor subsaariano, enquanto novos projectos no Congo e na Mauritânia–Senegal ampliam a participação africana no mercado internacional
A África Subsaariana exportou aproximadamente 28,8 milhões de toneladas de gás natural liquefeito em 2025, contra 25,7 milhões de toneladas no ano anterior, consolidando-se como uma das regiões que mais contribuíram para o crescimento da oferta mundial de LNG.
Cálculos do O.Económico, efectuados a partir das matrizes anuais de comércio da International Group of Liquefied Natural Gas Importers, indicam um crescimento regional de 12,3%, mais do dobro dos 5% registados pelo mercado global no mesmo período.
O comércio mundial atingiu um recorde de 428 milhões de toneladas, mais 22 milhões do que em 2024. A África Subsaariana representou, assim, cerca de 6,7% dos volumes internacionais. Incluindo a Argélia e o Egipto, as exportações africanas aproximaram-se de 38,7 milhões de toneladas, correspondentes a aproximadamente 9% do mercado mundial. (GIIGNL)
Exportações Subsaarianas Crescem Mais Rapidamente Do Que O Mercado Mundial
A expansão regional resultou do aumento da produção em instalações já existentes, do arranque de novos projectos e da melhoria da disponibilidade de gás para alimentar algumas unidades de liquefacção.
A Nigéria continuou a dominar o mercado subsaariano, com exportações de 14,23 milhões de toneladas. Angola surgiu na segunda posição, com 4,90 milhões, seguindo-se Moçambique, com 3,58 milhões, Guiné Equatorial, com 2,76 milhões, Camarões, com 1,43 milhão, Mauritânia, com 1,24 milhão, e República do Congo, com cerca de 695 mil toneladas.
Em termos relativos, a Nigéria representou 49,3% das exportações subsaarianas. Angola respondeu por 17%, Moçambique por 12,4%, Guiné Equatorial por 9,6%, Camarões por 5%, Mauritânia por 4,3% e Congo por 2,4%.
A comparação anual mostra evoluções diferenciadas. As exportações angolanas cresceram 32,8%, as congolesas mais do que duplicaram, as moçambicanas avançaram 5,1% e as nigerianas aumentaram 3,1%. A Guiné Equatorial registou, em sentido contrário, uma redução próxima de 11%.
Os dados mostram que a África Subsaariana não depende apenas de grandes projectos futuros. A região já dispõe de produção comercial relevante e está a aumentar a sua contribuição para a segurança energética internacional.
Nigéria Mantém Metade Da Oferta, Mas Produz Abaixo Da Capacidade
A Nigéria exportou 14,23 milhões de toneladas em 2025, contra 13,79 milhões no ano anterior, permanecendo como o maior fornecedor de LNG da África Subsaariana.
A Nigeria LNG dispõe actualmente de seis unidades de liquefacção com capacidade conjunta de aproximadamente 22 milhões de toneladas anuais. Isso significa que as exportações de 2025 corresponderam a cerca de 65% da capacidade nominal existente. (nlng.com)
A diferença, de aproximadamente 7,8 milhões de toneladas, revela que a principal oportunidade imediata da Nigéria poderá não estar apenas na construção de novas unidades, mas na melhoria do fornecimento de gás às instalações existentes.
Vandalização de gasodutos, menor investimento em campos produtores, interrupções operacionais e concorrência entre exportação e consumo doméstico têm limitado a disponibilidade de matéria-prima para a fábrica de Bonny Island.
O projecto Train 7 deverá aumentar a capacidade nominal da Nigeria LNG para 30 milhões de toneladas anuais. Contudo, a ampliação produzirá resultados económicos apenas se for acompanhada pelo desenvolvimento de novas reservas, expansão dos gasodutos e maior regularidade no fornecimento de gás.
A Nigéria evidencia, deste modo, uma diferença fundamental entre capacidade industrial e produção efectiva: possuir instalações de liquefacção não garante que estas funcionem próximas do seu potencial.
Angola Opera Próximo Da Capacidade Máxima
Angola registou uma das evoluções mais expressivas entre os produtores estabelecidos, aumentando as exportações de 3,69 milhões de toneladas em 2024 para 4,90 milhões em 2025.
A instalação Angola LNG, localizada no Soyo, possui capacidade para produzir até 5,2 milhões de toneladas por ano. As exportações realizadas em 2025 corresponderam, assim, a cerca de 94% da capacidade nominal, colocando Angola entre os produtores subsaarianos com maior utilização dos activos existentes. (angolalng.com)
O desempenho resulta da melhoria da disponibilidade de gás associado proveniente dos campos petrolíferos offshore e da integração progressiva de novas fontes de gás não associado.
A entrada em funcionamento de projectos como o New Gas Consortium deverá melhorar a estabilidade do fornecimento à unidade do Soyo, reduzir a dependência do gás associado à produção petrolífera e permitir maior previsibilidade das exportações.
A experiência angolana mostra que a competitividade não depende exclusivamente da dimensão do projecto. A regularidade operacional, a disponibilidade de matéria-prima e a capacidade logística permitem maximizar os investimentos já efectuados.
Moçambique Consolida Terceira Posição Regional
Moçambique exportou 3,58 milhões de toneladas de LNG em 2025, acima dos 3,41 milhões registados em 2024. O País representou aproximadamente 12,4% das exportações subsaarianas, consolidando-se como o terceiro maior fornecedor da região, atrás da Nigéria e de Angola.
Os volumes foram produzidos pela Coral Sul FLNG, cuja capacidade nominal é de cerca de 3,4 milhões de toneladas por ano. As exportações ligeiramente superiores à capacidade de referência indicam um elevado nível de utilização da unidade flutuante e a possibilidade de optimizações operacionais acima das especificações nominais. (Eni)
Ao contrário da Nigéria, onde existe capacidade subutilizada, Moçambique apresenta uma instalação que opera próxima ou acima da sua referência nominal. A expansão da produção nacional dependerá, por isso, sobretudo da entrada de novos projectos.
A Coral Norte, cuja decisão final de investimento foi tomada em Outubro de 2025, terá capacidade de 3,6 milhões de toneladas anuais. O início da produção está previsto para o final de 2028 e deverá elevar a capacidade combinada das duas unidades flutuantes para aproximadamente sete milhões de toneladas por ano. (Eni)
Com essa expansão, Moçambique poderá ultrapassar Angola e aproximar-se da segunda posição entre os maiores produtores subsaarianos, dependendo da evolução da produção nigeriana e congolesa.
Mozambique LNG Pode Alterar A Hierarquia Africana
A dimensão de Moçambique no mercado internacional poderá aumentar de forma mais significativa com a conclusão do Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies.
O projecto contempla duas unidades terrestres com capacidade conjunta de 13,1 milhões de toneladas anuais. Em Julho de 2026, a TotalEnergies indicou que os trabalhos tinham atingido aproximadamente 45% de execução, com sete a oito mil trabalhadores mobilizados e a primeira produção prevista para 2029. (TotalEnergies.com)
A entrada da Coral Norte e do Mozambique LNG poderá elevar a capacidade moçambicana para aproximadamente 20 milhões de toneladas anuais, sem contar com o Rovuma LNG, ainda em desenvolvimento.
O Rovuma LNG prevê, na sua primeira fase, instalações modulares com capacidade máxima projectada de 18 milhões de toneladas por ano. A concretização dos três projectos colocaria Moçambique entre os maiores centros mundiais de produção de LNG, embora os respectivos calendários permaneçam dependentes das decisões de investimento, segurança, financiamento e execução física. (Eni)
A trajectória moçambicana distingue-se, portanto, pela combinação entre produção efectiva, expansão já aprovada e projectos terrestres de grande escala.
Congo E Mauritânia–Senegal Alargam O Mapa Dos Exportadores
A República do Congo exportou cerca de 695 mil toneladas em 2025, mais do dobro das aproximadamente 293 mil toneladas registadas em 2024.
O crescimento ocorreu antes da entrada plena da segunda fase do Congo LNG. Em Fevereiro de 2026, a Eni anunciou o primeiro carregamento da nova unidade, elevando a capacidade total do projecto para três milhões de toneladas anuais, equivalentes a cerca de 4,5 mil milhões de metros cúbicos de gás. (Eni)
O aumento da capacidade congolesa significa que as exportações de 2025 ainda não reflectem o potencial actual do projecto. Caso as duas unidades operem de forma regular, o Congo poderá aproximar-se dos volumes actualmente exportados por Moçambique e pela Guiné Equatorial.
Na fronteira marítima entre a Mauritânia e o Senegal, o Greater Tortue Ahmeyim iniciou exportações em 2025 e colocou aproximadamente 1,24 milhão de toneladas no mercado durante o primeiro ano de actividade.
A primeira fase do projecto tem capacidade para produzir até 2,4 milhões de toneladas anuais. Como o arranque ocorreu durante o ano, os dados de 2025 reflectem apenas parte de um ciclo completo de produção. (BP)
A produção do Congo e do Greater Tortue Ahmeyim deverá constituir uma das principais fontes de crescimento das exportações subsaarianas em 2026.
Camarões Enfrenta Redução Da Produção Após Fim Do Contrato Da Hilli
Os Camarões exportaram aproximadamente 1,43 milhão de toneladas em 2025, praticamente em linha com a capacidade contratada de 1,4 milhão de toneladas da unidade flutuante Hilli Episeyo.
O contrato de liquefacção em águas camaronesas terminou em Julho de 2026, estando prevista a transferência da unidade para um projecto de longo prazo na Argentina. Esta mudança poderá retirar parte significativa da produção camaronesa do mercado durante o segundo semestre e reduzir as exportações nacionais nos próximos anos. (golar.com)
O caso demonstra um dos riscos do modelo flutuante: as unidades permitem iniciar rapidamente a monetização das reservas, mas podem ser transferidas para outros mercados quando os contratos terminam.
Para os Camarões, a continuidade das exportações dependerá da instalação de nova capacidade ou da contratação de outra unidade de liquefacção.
Produção Africana Compensa Parte Do Choque Do Golfo
O aumento da oferta africana ganhou maior relevância em 2026, depois de a redução da circulação no Estreito de Hormuz afectar quase 20% do fornecimento mundial de LNG.
Entre Março e Junho, os carregamentos do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos diminuíram em aproximadamente 35 mil milhões de metros cúbicos comparativamente ao mesmo período de 2025.
A produção fora do Golfo cresceu quase 18%, ou cerca de 27 mil milhões de metros cúbicos, impulsionada por novos projectos na América do Norte e em África, assim como pela melhoria do fornecimento de gás a instalações africanas já existentes. O crescimento compensou cerca de três quartos da redução observada no Golfo. (IEA)
A Agência Internacional de Energia prevê que novos projectos na América do Norte, África e Austrália acrescentem conjuntamente perto de 50 mil milhões de metros cúbicos à oferta mundial em 2026.
Este movimento atribui maior importância estratégica aos produtores africanos, cujos carregamentos podem alcançar mercados europeus, asiáticos e americanos sem depender do Estreito de Hormuz.
Capacidade Instalada Não Equivale A Produção Efectiva
Os resultados dos principais produtores subsaarianos mostram grandes diferenças entre capacidade nominal e volumes exportados.
Angola utilizou aproximadamente 94% da sua capacidade em 2025 e Moçambique produziu volumes próximos ou ligeiramente superiores à referência nominal da Coral Sul. Em contraste, a Nigéria exportou apenas cerca de 65% da capacidade das suas seis unidades.
Estas diferenças ajudam a compreender por que razão o crescimento regional não deve ser avaliado apenas pelo número de projectos anunciados ou pela dimensão das reservas descobertas.
A produção efectiva exige gás disponível, sistemas de recolha, gasodutos, instalações operacionais, manutenção, segurança, navios, compradores e contratos comerciais.
Uma unidade com capacidade de cinco milhões de toneladas pode contribuir mais para o mercado do que outra com capacidade superior a 20 milhões, caso disponha de melhor alimentação de gás e maior regularidade operacional.
África Continua A Exportar Mais Gás Do Que Utiliza Na Sua Transformação
Apesar do crescimento da produção, a procura africana de gás deverá permanecer praticamente inalterada em 2026. A região apresenta uma exposição reduzida às importações de LNG, mas também dispõe de poucos terminais de regaseificação, gasodutos e consumidores industriais de grande dimensão. (IEA)
Na maior parte da África Subsaariana, a expansão do LNG continua orientada para mercados externos. O gás é liquefeito e exportado enquanto empresas, famílias e serviços públicos enfrentam fornecimento de electricidade insuficiente, custos elevados de energia e limitada disponibilidade de gás para a indústria.
A diferença entre expansão exportadora e utilização doméstica representa uma das principais contradições do sector. As receitas externas podem melhorar as contas públicas e a balança de pagamentos, mas o impacto estrutural será limitado se o gás não contribuir para a produção de electricidade, fertilizantes, combustíveis domésticos e matérias-primas industriais.
Moçambique Pode Liderar O Próximo Ciclo De Crescimento Regional
Os dados de 2025 mostram que Moçambique já ocupa uma posição relevante antes da entrada dos seus maiores projectos.
Com apenas uma unidade operacional, o País exportou mais LNG do que a Guiné Equatorial, os Camarões, a Mauritânia e o Congo. A Coral Sul operou próxima da capacidade máxima e permitiu ao País alcançar uma participação de 12,4% nas exportações subsaarianas.
A Coral Norte poderá duplicar a produção a partir de 2028. O Mozambique LNG poderá acrescentar mais 13,1 milhões de toneladas anuais a partir de 2029, enquanto o Rovuma LNG representa uma possibilidade adicional de expansão durante a próxima década.
Esta carteira confere a Moçambique uma escala que poucos produtores africanos possuem. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de garantir segurança, estabilidade contratual, qualificação profissional, desenvolvimento de fornecedores e capacidade institucional para gerir receitas e compromissos de longo prazo.
O Valor Económico Dependerá Da Produção Regular E Da Integração Nacional
A África Subsaariana está a transformar-se de fronteira potencial em fonte efectiva de LNG. As exportações cresceram 12,3% em 2025, novos países entraram no mercado e instalações adicionais começaram a produzir em 2026.
A região continua, contudo, a representar menos de 7% do comércio mundial. Para ampliar essa participação, não bastará anunciar projectos ou possuir grandes reservas. Será necessário operar as instalações de forma regular, assegurar matéria-prima, cumprir contratos e reduzir interrupções.
Para os países produtores, a questão mais importante será a proporção do valor que permanecerá nas economias nacionais. O crescimento das exportações deverá ser associado ao fornecimento doméstico de gás, geração de electricidade, industrialização, qualificação de trabalhadores, empresas nacionais e receitas públicas administradas com transparência.
A próxima etapa do LNG africano será definida não apenas pelo número de milhões de toneladas exportadas, mas pela capacidade de converter essa produção em transformação económica, competitividade industrial e segurança energética para o próprio continente.
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